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nov13

Luiz Henrique Coletto: “Consciência humana”?
Foto: Luiz Henrique Coletto

Foto: Luiz Henrique Coletto

O vice-presidente da Liga Humanista Secular do Brasil (LiHS), Luiz Henrique Coletto, escreveu o texto abaixo para desmitificar o apelo de muitos conservadores à “desnecessidade” do Dia da Consciência Negra, comemorado hoje em 20 de novembro. Ele encontrou a imagem acima em local não informado e faz ótimas colocações que desmontam o argumento de que seria “melhor” haver “365 dias de consciência humana” ao invés de um Dia da Consciência Negra em 20/11. O texto foi publicado na fanpage da LiHS e eu o trouxe aqui também:

 

“Consciência humana?”
por Luiz Henrique Coletto, vice-presidente da LiHS

Sobre este cartaz que vi [no último 14 de novembro], que tenta deslegitimar o Dia da Consciência Negra (20 de Novembro), o que tenho a dizer:

1. Discursos “não precisamos” são verticalizados e arrogantes. Quem disse que não precisamos? Foram as organizações do movimento negro? Certamente não, porque muito lutaram para que o 20 de novembro fosse uma data de resgate da memória de Zumbi dos Palmares e, portanto, da própria resistência à escravidão. Afinal, lembrar Princesa Isabel é uma piada em termos de resgate da luta da população negra neste país.

2. A ideia de que exista algo chamado “consciência humana” é uma grande ficção, e nem diria que chega a uma utopia. Se não reconhecemos os privilégios que temos (e todos nós temos alguns, outros muitos), o lugar de onde falamos e o que sabemos ou não das lutas de outros grupos e pessoas, caímos neste conto de fadas de que existe uma consciência humana. E olha que eu sou humanista secular, faço parte de uma organização com este nome e tudo; entretanto, é preciso observar a história e as formas de funcionamento do poder.

3. O que a história nos ensina é que para esvaziar uma luta, você descaracteriza seus sujeitos e demandas, despersonifica suas especificidades e dilui pautas específicas em pautas genéricas. É assim que as formas de operação do poder (essencialmente econômico, que deriva para o político e midiático) conseguem esvaziar movimentos sociais, manifestações e reivindicações. E quando se tenta fazer isso pelo discurso desta imagem, não estamos ajudando mesmo. Estamos ignorando a história ao fazer isso. Ignorando movimentos por direitos civis e sociais em várias partes do mundo, o que as diversas ondas dos movimentos feministas nos legaram e do próprio movimento LGBT. Ou seja, quando não damos nome à opressão, aos oprimidos, aos opressores, às formas específicas de opressão, e às formas específicas de combatê-la, nós enfraquecemos esta causa. E o jeito mais comum (por isso clichê) de se fazer isso é apelando para uma consciência humana, uma empatia universal, um “humano global”. Nada disso existe.

4. Por fim, as formas de atuação política que temos no mundo não funcionam com um discurso de diluição das causas e de desejo de permanência da atenção sobre todas elas (o tal “365 dias do ano”). Quem protesta 365 dias do ano? Quem vai à Câmara Municipal, à prefeitura, ao Senado todos os dias? Quem faz isso para todas as causas? Todo mundo? Não, ninguém consegue. Há muita coisa a fazer no mundo. Por isso este discurso da “consciência humana” é política e historicamente insustentável, além de contribuir, na verdade, para a manutenção do status quo. Ninguém pode se apoderar (colonizar) das causas e pautas das pessoas que são diretamente afetadas por elas. A autonomia e o empoderamento têm de ser destas pessoas, e cabe a quem goza dos privilégios aos quais aqueles sujeitos não têm acesso, apoiá-las, aliando-se às lutas delas e compreendo que o protagonismo é delas. Então é prudente se questionar: os movimentos contra o racismo não querem esta data? Não querem visibilizar com maior ênfase, neste período, as pautas que têm?

Abraços.

 

Assista também ao vídeo em que o Consciencia.VLOG.br refuta os argumentos de Morgan Freeman sobre como lidar com o racismo

imagrs

8 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Dadazin

novembro 19 2014 Responder

Na verdade, o texto acima te toda razão, por que brancos se acham melhores que negros?
Quem disse que brancos são melhores que negros?
NÃO SÃO!!!
SOMOS TODOS FILHOS DE DEUS!!
Realmente, quando todos pararem de se preocupar com a cor dos outros, o mundo será bem melhor.
Há tanta coisa para se preocupar, nesse momento, milhares de crianças estão sendo abusadas, maltratadas… Idosos tbm… Mulheres tbm…
Sem contar em países incluindo o Brasil em que pessoas estão passando fome, doentes.
E as doenças como a doença do ebola??
Temos essas coisas para fazer, manter a mente ocupada com coisas que valem a pena.
Por que “cor” todo mundo tem, e não me importo de ser assim, preta, sei que histórias passadas mostram negros escravizados, mas isso já acabou, os que faziam isso já morreram e estão ardendo em um inferno e sofrendo o mesmo ou mais. Há um Deus justo.
Vamos juntar o café com leite, o nescau com leite, a cevada com leite, e vamos nos deliciar, procurando fazer coisas boas e caridade e amor ao próximo!!!!
Bjs á todos os negro e branquelos… amo todas essas lindas cores maravilhosas!!!!

Ednilson Lourenço de Moraes

novembro 5 2014 Responder

Que tal?… Consciência Humana nas vertentes da reflexão no dia da Consciência Negra? É uma questão didática de exposição das palavras e suas finalidades pedagógicas, de ensino!

myrian

dezembro 16 2013 Responder

Consciência humana é o ponto a que chegamos ao perceber finalmente que todos temos algo em comum, o quanto somos parecidos. Consciência humana não é lutar, é se irmanar, sentir junto, tolerância e aceitação.
E mais uma coisa: como é que dá para comemorar o Zumbi dos Palmares, se todos sabem que ele também tinha escravos e escravos negros?
Tem alguma coisa errada aí!

    Robson Fernando de Souza

    dezembro 16 2013 Responder

    E isso dá aos brancos o direito de tentar silenciar o movimento negro e o Dia da Consciência Negra?

Jones

novembro 25 2013 Responder

Concordo plenamente com o cartaz. 1-Quem pensa que o quilombo de Palmares era uma sociedade igualitária, engana-se. Zumbi lutou pela própria liberdade, tinha um séquito de escravos e essa imagem gloriosa dele não condiz com a verdade histórica da época, segundo o historiador Ronaldo Vainfas, professor da universidade federal fluminense. Ele ainda afirma: “É uma mistificação dizer que havia igualdade em Palmares.” A princesa Isabel fez mais pela liberdade dos negros do que Zumbi, afinal: “A caneta é mais poderosa que a espada.” Zumbi matou com a espada e a princesa Isabel assinou a lei Aúrea (Rodrigo Augusto da Silva também), o que aboliu a ESCRAVIDÃO, não só a dos negros. 2-Quem diz que “consciência humana” é um conto de fadas, não entende que ela é uma necessidade presente, já não se sustenta a segmentação de grupos por raça, partido, religião, pensamento, etc. Antes de qualquer coisa todos os grupos são formados por indivíduos humanos, com necessidades humanas. 3-A sustentabilidade de uma “consciência humana”, uma “empatia universal”, um “humano global” não se dá pelo fato de que nos fragmentamos em grupos, e esquecemos que as lutas e reivindicações dos grupos são as mesmas da “consciência humana”. Os grupos que lutaram pelos seus direitos, lutaram também pelos direitos da humanidade como um todo. 4-A característica política e social depende de nós mesmos. Se nossos representantes agirem com “consciência humana”, não necessitaremos de protestar um dia se quer, e as reinvindicações de todos os grupos ( que lutam pela liberdade e igualdade) serão atendidas, com uma maneira universal de governar. O dia 20 de Novembro não é o único dia da consciência negra, na verdade, todos os 365 dias do ano são dias da consciência negra, feminista, indígena, nipônica, mulçumana, judaica, branca e acima de tudo, da “consciência humana”.

    will polli

    novembro 27 2013 Responder

    muito correto o que você disse jones. no entanto, considero necessário o dia da consciência negra, desnecessário é essa interpretação negativa sobre a “consciência humana”. realmente uma consciência humana tornaria sem sentido um dia da consciência negra, mas na falta de um , que seja o outro. de qualquer forma, nada torna necessariamente ruim o cartaz acima.

Benedito de Oliveira Santos Júnior

novembro 20 2013 Responder

Uma coisa não inviabiliza a outra. Pelo contrário: enxergar a necessidade de um grupo, um segmento, um indivíduo, ser respeitado, ter direitos de igualdade, tendo suas diferenças resguardadas, étnicas ou quaisquer outras, significa buscar uma consciência humana. É na correção das falhas no cumprimento dos princípios que conseguiremos torná-los factíveis e não só discursos. O sofrimento de cada provo tem que servir como ponto de reflexão para ver se a igualdade – busca interminável – não é só virtual.

    Robson Fernando de Souza

    novembro 20 2013 Responder

    Aí depende muito do que significa “consciência humana”. O significado usado pelos opositores da consciência negra tem caráter dissolvente, pra negar os orgulhos de minorias de modo a tornar a discriminação e preconceito que cada minoria especificamente sofre (e o agravamento da discriminação nas interseções entre essas minorias) uma abstração vaga e difusa.

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