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[OFF] Quando a própria universidade atrapalha os estudos

estudando

Muita gente que estuda ou estudou cursos universitários de ciências humanas deve ter passado por uma situação assim: desestímulo em ler o conteúdo que os professores passam; sensação de que está estudando não por gosto e vocação, mas por coação implícita – para não tirar notas baixas, não reprovar disciplinas e não perder chances de ganhar bolsas e entrar com bolsa na pós-graduação –; dificuldade severa de conciliar o dia-a-dia no trabalho e a carga de conteúdo de estudo passado pelos professores; carência de tempo livre para se dedicar a estudos complementares independentes que fortaleçam o seu conhecimento acadêmico; entre outros problemas que podem atrasar seriamente ou impedir sua formatura.

De fato há vezes em que a faculdade não estimula seu corpo discente a dar o melhor de si e ter mais e mais gosto pelo seu caminho vocacional. Pelo contrário, a estrutura do sistema de ensino superior acaba desanimando, desestimulando, atrapalhando e atrasando os estudos e também diminuindo as chances de muitos estudantes de prosperarem na graduação e mergulharem no mestrado e no doutorado. Nessas horas ganha força o ditado popular “Não deixe que a faculdade atrapalhe seus estudos”.

Teoriza-se aqui que a universidade, pelo menos nos cursos de humanidades, acaba atuando como obstáculo, ao invés de caminho, por causa de dois problemas comuns nos centros de ciências humanas: a maneira burra como faz os alunos estudarem e a indiferença perante a necessidade dos mais pobres e/ou sustentadores do lar de continuarem em seus empregos de horário integral e terem uma carga de estudo compatível com seu reduzido tempo “livre”.

 

Ler por obrigação e coerção pode descarrilar o ritmo e qualidade de estudo de muitos

A forma como a universidade faz os estudantes matriculados estudarem transforma o hábito de estudar num fardo, numa imposição, numa obrigação coercitiva. Nunca num prazer, em algo que une o útil ao agradável. O conteúdo básico das ementas disciplinares, aquele que cai nas provas e/ou é a referência bibliográfica dos seminários, é colocado como de leitura compulsória: é necessário ler aquilo, goste do conteúdo ou não, se não quiser penar com notas baixas, reprovações e perda de chances de bolsas.

À primeira vista, isso pode ser visto por alguns como não tendo nada de mais. Pensa-se que é só estudar e pronto, mas a questão não é tão simples assim. Cada ser humano é um mundo, e nem todos se sentem à vontade de estudar um conteúdo por obrigação com o mesmo gás e disposição com que levariam a cabo uma leitura livre escolhida a dedo.

Porém a universidade enxerga quem integra sua comunidade discente como números, unidades, e ignora as individualidades e peculiaridades de cada estudante. É comparável com um quartel, onde todos os soldados são tratados como se fossem autômatos iguais uns aos outros, sem individualidade e personalidade. Metaforicamente força que sólidos geométricos de variados formatos e tamanhos sejam socados em caixas cúbicas uniformes.

E nisso todos são obrigados a se conformar e se adaptar ao regime de estudar por coerção, por medo de sair no prejuízo. Quem não se importa em estudar a mando de outrem tem mais chances, mas quem não se sente à vontade com isso tende a sair perdendo. Perde tanto em notas como na própria vontade de estudar e na retenção e assimilação definitiva de conteúdo. Em outras palavras, estuda-se mal graças à universidade.

E em grande parte das ocasiões, os professores não ajudam. Alguns conseguem fazer aulas heterodoxas, mais divertidas e atraentes, o que até pode servir de estímulo para muitos alunos quererem estudar o que é abordado nas aulas, mas ainda existe uma tradição de muitos outros professores, bem conservadores em seu estilo de ensino, de exigir que seus estudantes tenham lido o assunto antes da aula e explaná-lo de forma convencional, com pouca interação docente-discentes. Essa exigência acaba se somando à necessidade de estudar por boas notas e desestimulando quem é mais afeito a estudar com liberdade.

Em se falando de estudos livres, poderia-se até recomendar aqui que o estudante recorra aos estudos complementares independentes, nos quais haveria a liberdade de ler o que quiser, nas horas vagas, depois de ter terminado, no dia, de ler o que os professores demandaram. Mas é aí que o outro grande problema do sistema universitário se erige – problema esse que inclusive limita ou impede a releitura a curto prazo mesmo do conteúdo obrigatório e a fixação do que é aprendido pelo que os professores passam.

 

A questão da ocupação do tempo

É pelo estudo complementar que os estudantes incrementam seu conhecimento e inclusive determinam quais serão suas linhas de pesquisa na desejada carreira acadêmica. Mas a realidade é que esse modo de estudo é apenas uma utopia para grande parte deles, porque praticamente não lhes resta tempo livre para lerem sossegadamente o que querem.

Isso se aplica à maioria dos estudantes que trabalham em tempo integral e têm as horas fora do trabalho e da universidade comprometidas com o estudo do conteúdo obrigatório, os trabalhos domésticos, descanso e sono, lazer, uso dos meios de comunicação e, no caso de quem tem filhos, cuidar das crianças. Com isso, o tempo para a leitura independente é muito reduzido ou até inexistente. Esse problema se torna ainda mais severo quando as disciplinas em que a pessoa se matriculou naquele período tomam toda a grade de horários e não deixam nenhuma aula vaga. Isso prejudica principalmente pessoas pobres que não podem abrir mão do emprego e aqueles que sustentam a casa.

Apenas jovens com o privilégio de não precisarem trabalhar enquanto estão na graduação, especificamente aqueles que são financiados sem dificuldade pelos pais – pelo vulgo “paitrocínio” –, podem se dar o direito de passar dois turnos do dia disponíveis para os estudos compulsórios e os livres. Aquelas que trabalham em tempo parcial, por estágios, bolsas ou empregos de meio expediente, por sua vez, até podem conseguir algum tempo para lerem o que querem, mas será menos do que os que não têm ocupação fora o estudo.

Isso acaba sendo, além de um atrapalhador da aquisição de conhecimento, um meio de exclusão social dentro da universidade. Isso pode ser visto quando se percebe que os alunos de classes mais altas beneficiados pelo “paitrocínio” têm bem mais chances de terminar rapidamente a graduação e entrar com boa colocação na seleção do mestrado do que aqueles que são pobres e não podem prescindir do emprego de tempo integral.

A solução que parece a mais plausível para isso é o indivíduo diminuir o número de disciplinas em que se matricula em cada período do curso. Só assim a carga de estudo diminui e assim aparece alguma hora sobrando para leituras livres, considerando-se que isso abre espaços vagos na grade de horários e essas lacunas podem ser aproveitadas lendo conteúdo complementar.

Mas isso tem um preço significativo: estende o curso por alguns períodos a mais e adia a formatura da pessoa. E dependendo da universidade e da situação curricular do estudante, esse adiamento, se demasiado, pode custar o jubilamento do aluno. Por isso é necessário ter bastante cuidado ao diminuir o número de disciplinas cursadas por semestre.

 

Considerações finais

Conduzindo o estudo por meios coercitivos que tiram de muitos a alegria de estudar o que gostam e limitando o tempo para reler o conteúdo compulsoriamente lido e fazer leituras independentes que somem ao conhecimento acadêmico e intelectual do aluno, a universidade acaba destoando de sua intenção de incentivar os estudos profissionais e, na verdade, limitando a aquisição de conhecimento.

Isso torna imperativo que a comunidade universitária discuta como os modelos de aula e de indução à leitura no ensino superior podem ser remodelados de modo a reconhecer as individualidades, peculiaridades e especialidades de cada estudante. Do jeito que está, muitos alunos com enorme potencial de sacudir a universidade e quiçá o Brasil e o mundo estão sendo deixados para trás ou tornados meras “unidades” incapacitadas de fazer a diferença.

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2 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Juliano

novembro 27 2015 Responder

Eu não achei o artigo de todo pertinente. Não só, também, que a “animação” do conteúdo faça necessariamente os alunos estudarem maia. Há um excesso de fugacidade na percepção do mundo, hoje. Isso não isenta o ambiente acadêmico. Obviamente, qualquer atitude coercitiva, como a descrita no texto, é antipática e desestimulante. Mas se há “gentileza” e abertura não me parece, por outro lado, resultar em maior aproveitamento. Acho que deve haver flexibilidade e compreensão, mas o ambiente acadêmico terá prazos e volumes desafiadores de tarefas como em qualquer situação da vida real de hoje. Então não haverá o tempo necessário para ler idealmente tudo o que se quer. Desenvolve-se, assim, uma perspectiva de se criar seus meios para estudar mais rápido e, depois, revisitar o que não pode ser acompanhado.

Erica

novembro 22 2013 Responder

ótimo texto, reflete bem a hipocrisia e o elitismo das faculdades, principalmente das ditas “públicas”.

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