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A semana em que os “feministos” se revelaram e causaram confusão
Depois dessa semana, eu e muitas outras pessoas deixamos de acreditar no sentido de chamar homens aliados do feminismo de "homens feministas". Também porque o que certos "homens feministas" fizeram está longe de ser feminismo.

Depois dessa semana, eu e muitas outras pessoas deixamos de acreditar no sentido de chamar homens aliados do feminismo de “homens feministas”. Também porque o que certos “homens feministas” fizeram está longe de ser pró-feminismo.

Essa semana foi dura para as feministas no Facebook. Se o termo “homem feminista” já era algo muito polêmico na militância feminista, depois de tudo o que presenciei, ficou ainda mais claro por que muitas feministas dizem que não existem “homens feministas”, e sim homens aliados (ou, no caso de muitos, pseudoaliados) do feminismo. Isso porque rapazes que se dizem “homens feministas” investiram em fogo amigo intenso e também em machismo contra as feministas, em vários locais brasileiros do Facebook.

Primeiro, na terça-feira, o (agora ex-)administrador de uma página de socialismo que se dizia “homem feminista” soltou, em nome da própria página, a seguinte pérola:

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Foi estarrecedor ver um autointitulado “homem feminista” usando termos típicos de misóginos masculinistas, vulgo mascus, como “depósitos de porra” e “pedaços de carne de merda”, contra mulheres usuárias do polêmico app Lulu. Depois de algumas horas de intransigência, o indivíduo tentou se desculpar com uma mensagem que, ao invés de redimi-lo, acabou tornando ainda mais reprovável sua postura:

Companheiros, eu, um dos administradores do Socialismo da Depressão, peço desculpas pelos termos crassos que usei na minha crítica ao Lulu. Essa crítica permanece, mas refleti e discuti sobre, com companheiras feministas e vi claramente que usei termos machistas pra intensificar minha crítica ao Lulu, não pelo aplicativo me expor a algo negativo, mas por expor terceiros e gente relevante na minha vida ao nível baixo. Não foi minha intenção ofender (sic) qualquer mulher, e sim, fazer uma crítica ao machismo feminino (sic) e ao Lulu. Mas sei que usei termos oriundos do machismo pra que se intensificassem minhas críticas à essência do Lulu. Os posts foram deletados, não por covardia, mas por não representarem a total opinião dos administradores dessa página. Mais uma vez, peço desculpas a todas as mulheres que se sentiram ofendidas com o post. 

Mesmo na tentativa de se desculpar, ele cometeu mais erros ainda, ao manifestar a crença de que mulheres poderiam ser propriamente machistas e tão opressoras de gênero quanto os homens, e afirmar que “não teve a intenção de ofender qualquer mulher” mesmo depois de ter usado termos obviamente ofensivos e humilhantes como os mencionados mais acima. Continuou sendo alvo da revolta de muitas mulheres, até que renunciou à administração da página.

Depois, foi a vez de um grupo (como os fóruns do Facebook são chamados) de feministas de uma universidade da Grande São Paulo. Em pelo menos dois tópicos desse grupo, diversos autointitulados “homens feministas”, ao invés de ajudar e prestar solidariedade, se dedicaram a rechaçar diversas das mulheres que comentaram ali, com críticas que mostravam claramente a intenção deles de disputar com as mulheres o protagonismo e o título de porta-vozes da militância feminista. Não respeitaram o fato de que a militância feminista é um dos únicos espaços públicos, senão o único, onde a mulher, e não o homem, é a protagonista.

Como se isso já não fosse abusivo, alguns ali mostraram suas unhas de machistas, usando termos – inclusive dirigidos contra as mulheres – como “feminazi”, “femista”, “mulher opressora” e “feia pra car…”. Ou seja, esses “homens feministas” na verdade tratavam-se de machistas, de homens que, apesar de arrogarem para si o título de “feministas”, não só se recusam a rever seus preconceitos e vícios remanescentes e admitir seus privilégios enquanto pertencentes ao gênero dominante, como também usam de expedientes machistas e até explicitamente misóginos contra aquelas de quem deveriam estar sendo aliados.

E a cereja do bolo foi que um homem personalidade do meio humanista secular postou o link e uma citação de um ensaio acadêmico de um homem sobre pornografia. Entre os diversos vícios e falhas do ensaio, estão a relativização da existência do patriarcado enquanto sistema cultural de prevalência masculina e desfavorecimento feminino, como se ele fosse apenas uma teoria não evidente das feministas; a evidência de carência de convivência presencial e participativa (enquanto aliado ou curioso) do autor com o movimento feminista e o rebaixamento da oposição de muitas feministas à pornografia à qualidade de um “moralismo” comparável à postura dos homens conservadores.

Como reação ao compartilhamento e concordância desse homem com o conteúdo do ensaio, diversas mulheres comentaram em resposta. Diversas delas mostraram por que o ensaio é falho em sua tentativa de refutar as razões feministas para ser contra a pornografia, enquanto outras manifestaram surpresa, decepção e indignação com a postagem. Mas como ficou evidente ao longo de um conjunto total de centenas de comentários, ele deu muito mais atenção a quem reagiu com indignação do que às mulheres que questionaram o artigo. A postura dele perante as feministas, que inclui considerar “fanáticas” e “dogmáticas” aquelas que discordaram dele com argumentos e/ou decepção, desde então, tem revoltado muitas mulheres, diversas das quais romperam suas relações de colega com ele.

O mesmo rapaz postou também em apoio ao projeto de lei de Jean Wyllys – o próprio Jean também agiu como “feministo” – que regulamenta a prostituição, mesmo havendo margem nesse projeto à legalização da exploração do trabalho das prostitutas por cafetões, e também à postura do deputado de chamar de “moralistas” aquelas que se posicionaram contra a legitimação do mercado de exploração de prostitutas. Nessa segunda postagem, novamente houve uma enxurrada de comentários indignados de feministas, com a repetição da postura dele de desdenhar delas como “dogmáticas”.

Essa semana trouxe a triste lição de que muitos homens que se dizem “feministas” não são tão confiáveis assim para o movimento feminista. Ficou mais patente como os chamados “feministos” – homens que se intitulam “feministas” mas cometem vícios como disputar o protagonismo na militância feminista, manter posturas machistas e causar dissensão entre as mulheres – agem diante de situações em que suas crenças entram em discordância com as das mulheres. Uma decepção vinda de homens de quem se esperava solidariedade e auxílio.

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15 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Clayton

novembro 5 2015 Responder

Acho que o melhor a fazer é parar de falar sobre temas polêmicos.
Quanto mais leio os comentários, mas tenho a certeza que ninguém quer abandonar o orgulho e a opinião formada sobre tudo.

Dany

dezembro 3 2014 Responder

Sabe o que é pior que um homem machista?
É uma mulher machista. E parece que hoje em dia está na moda você criar blogs sem sentido falando de como o feminismo destruiu a natureza da mulher e assim como páginas no facebook falando de como o machismo é necessário após ver um vídeo de homem dando lugar a uma senhora no vagão de um trem,… coisas desse tipo. E ai você vai lá vê o nome Fabiane Hebcher (escritora e blogueira)?????? Porra mano, o que se tá fazendo??? É de se decepcionar e não vou mentir às vezes tenho vontade de fazer a mesma coisa que esse cara fez (vocês tem merda na cabeça????).
As mulheres podem ser MUITO MAIS opressoras que os homens, e sendo elas a reproduzirem o discurso machista, a ideia tem muito mais peso, muito mais valor, pois a ideia é “colaborada” tanto por homens quanto por outras mulheres. É como se ganhassem mais algum tipo de prestigio.
Mas apesar de me sentir frustrada com esse tipo de coisa, eu aprendi, que discutir ideias em uma área onde as pessoas não partilham do mesmo pensamento funciona como uma imposição. Não existem “considerações finais”, existe só “você está errado e pronto”. Torna-se inútil escrever qualquer tipo de coisa, falar qualquer tipo de coisa e explodir como esse cara fez…humm… nem pensa.
Penso que em um momento como este, vivendo em uma era de intensas criticas e exaltações, realmente não precisamos disso. Isso só faz aumentar mais a intolerância sobre o feminismo, que a meu ver está sendo muito infeliz em algumas ideias e pensamentos.
Por exemplo, o feminismo não sabe ao certo a posição do homem feminista no movimento, por um lado falam que um homem deve e pode ser feminista, mas por outro há uma forma “mascarada”, mesmo que inconscientemente, de uma insatisfação com o sexo masculino. Não é lhe dando direito da palavra ou a expressão opiniões próprias. É uma luta pelas mulheres, é com certeza, mas podemos ver as reações diferentes perante a um discurso de uma mulher feminista e um homem feminista, independentemente se a classificação deste discurso for machista ou não.

    Peri

    abril 23 2015 Responder

    Acho que, na imensa maioria das vezes, não tem como uma mulher que corrobore com o machismo ser tão ruim quanto um homem machista, sobretudo porque homens costumam ter maior poder na econonomia e nos cargos políticos, então a extensão de suas atitudes machistas, somadas, é muito mais devastadora, via de regra…

Juliana

dezembro 11 2013 Responder

Clara, eu entendi este trecho (que você citou) de outra maneira. É possível que o autor não exclua a possibilidade da existência mulheres machistas. Talvez a ideia seja pontuar as posturas machistas por parte dos homens sejam diferentes (quem sabe mais “opressores” – não consigo pensar em um termo apropriado) quando comparados às práticas machistas de mulheres.

Robson, você pode esclarecer essa questão? Pois ao reler o texto, tive a mesma impressão da Clara.

    Robson Fernando de Souza

    dezembro 11 2013 Responder

    Nem eu nem o post excluímos a existência de mulheres endoculturadas na sociedade machista, que adotaram valores machistas. Mas não é justo considerá-las com o mesmo potencial de machismo e opressão de gênero dos homens machistas.

      TSMX

      março 29 2014 Responder

      Com base em quê você afirma isso?
      Explique melhor esse parâmetro que implica em um maior “potencial de opressão” neste caso.
      Prefiro ser cético e não fazer afirmações como essa pra não me impressionar no futuro.

Clara

dezembro 11 2013 Responder

Ele falou muita besteira, porém Robson, gostaria de ressaltar uma frase de seu texto:
“…ao manifestar a crença de que mulheres poderiam ser propriamente machistas e tão opressoras de gênero quanto os homens.”
Ah quer dizer que o machismo SÓ pode ser praticado por homens?? Existem vários exemplos de pessoas que possuem preconceitos contra sua propria “classe” (como brasileiros sendo xenofóbicos contra eles próprios, negros racistas como o Michael Jackson, o próprio Hitler que só queria “arianos” no planeta sendo que ele não era um). Enfim existem mulheres MACHISTAS e SEXISTAS SIM! (nao disse que sao todas, nem que sao maioria, disse que existem)

Luiza

dezembro 10 2013 Responder

Feministos. Feministos everywhere. Sem contar que muitos feministos por aí usam a condição de feministo pra assediar as feministas do rolê.

nycky

dezembro 9 2013 Responder

Falando desse tal Eli lembrei que ele aprovou um comercial da head shoulders ja famosa pelo machismo com gays e com mulheres em objetifica-las.

Ja desconfiava desde ai que de feminista tinha nada.Igual o Alex Castro,com o palavreado de comer comer… veio, disso ai so tem podreza.

Jacque Cética

dezembro 9 2013 Responder

É por essas e outras que quero distância de homem “feminista” não tem erro,é só deixar passar um tempinho e o machista misógino mostra as garras. Nas páginas do face,dá vontade de chorar em posição fetal,vc entra na página,buscando contato/consolo/discussão de ideias com suas irmãs e tcham tcham…basta um único comentário masculino pra postagem ser totalmente desviada do seu curso,com o machista e seus asseclas atacando/xingando e algumas mulheres argumentando com os mesmos,ou seja,de um jeito ou de outro,eles conseguem o que querem,o protagonismo.

Laura

dezembro 9 2013 Responder

No caso do Eli Vieira, mais lamentável que o tal link foi a reação diante dos comentários de várias mulheres que discordaram dele.
Várias argumentaram contra o texto, mas apenas porque não era a reação que ele queria, em uma mistura de vaidade, arrogância e machismo mal disfarçado, começou a apelar e dizer que nenhum comentário contrário ao texto era argumento, que era tudo emocional, pessoal, essas mesmas merdas que mulheres ouvem há séculos quando alguém quer invalidar suas opiniões. Foi triste. Ficou famosinho, subiu no tijolo e mostrou quem é realmente.

Fabio Carlos

dezembro 8 2013 Responder

É lamentável descobrir que existem homens pseudofeministas, uns machinhos enrustidos. Menos grave, porém, é usar estes exemplos contra qualquer tipo de “feministo”. Não é porque algum homem feminista se revelou um machista dos piores que outros vão ser. Generalização é ruim em todos os sentidos.

    Robson Fernando de Souza

    dezembro 8 2013 Responder

    Não sei se vc percebeu, a palavra “feministo” não define todo homem aliado do feminismo, mas sim especificamente aqueles que se dizem explicitamente “homens feministas” mas investem em atitudes como as descritas no post.

      Fabio Carlos

      dezembro 8 2013 Responder

      Não tinha percebido, obrigado por apontar o erro. De qualquer forma acho que o texto generaliza quando diz que “muitos homens que se dizem feministas…” Vimos apenas alguns casos aqui, longe de poder indicar uma maioria. E mesmo que seja a maioria, isso não pode prejudicar uma minoria sincera que quer participar ativamente no feminismo sem vestir camisas misóginas. Não me leve a mal, se as feministas querem construir uma sororidade nenhum homem pode impedir. Apenas é injusto deslegitimar homens feministas porque existem homens que tem vergonha de se revelarem machistas e fingem ser militantes pela igualdade dos sexos.

        Robson Fernando de Souza

        dezembro 9 2013 Responder

        Nisso é mais uma questão etimológica mesmo. O que muitos chamam de “homens feministas” eu pessoalmente prefiro chamar de “homens aliados do feminismo”. E tem também o fato de que praticamente qualquer homem dito feminista pode cometer alguma besteira reprovável a qualquer momento.

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