16

dez13

Mais uma aldeia Guarani-Kaiowá é expulsa pela “Justiça” e indígenas prometem lutar até a morte

aldeia-guarani-kaiowa

Mais de um ano depois das ameaças aos tekoha (terra natal) de Pyelito Kue/Mbarakay e Nhu Verá, no Mato Grosso do Sul, outra terra da mesma etnia Guarani-Kaiowá está sob ameaça da “Justiça” brasileira e de latifundiários. Nada menos que quatro decisões judiciais estão tentando forçar os indígenas a abandonarem sua terra natal, o tekoha de Yvy Katu, apropriada por latifúndios locais, e nesse fim de semana os nativos anunciaram morte coletiva, guerra total de resistência contra as tentativas militares de expulsão (obs.: morte coletiva não significa suicídio coletivo, mas sim resistir até a morte e o povo só sair da terra natal depois de morto pela força policial).

Segundo o Campo Grande News, foi iniciado um ritual de rezas que representa a despedida da vida terrena, num indício de que os adultos estão prontos para lutar e só irão sair dali mortos. Uma carta anunciando a guerra total foi divulgada no Facebook, na página do grupo de ativismo indígena Aty Guasu:

Aty Guasu divulga a decisão de 5.000 Guarani e Kaiowá do YVY KATU diante de cincos ordem de despejo judicial contra os Guarani e Kaiowá, sendo 4 ordem de Justiça Federal de Naviraí-MS, uma ordem de despejo é do Tribunal Regional de São Paulo-SP, que foi deferida hoje 12/12/2013. Frente à ordem os Guarani e Kaiowá escreveram essa carta que segue. É para compartilhar 

Tekoha Yvy Katu-Japorã-Mato Grosso do Sul-BRASIL, 12 de dezembro de 2013.

Decisão definitiva de 5.000 indígenas Guarani e Kaiowá para Governo, Justiça Federal e para todas as sociedades nacionais e internacionais do Mundo.

Hoje no dia 12 de dezembro de 2013, nós 5.000 mil indígenas Guarani e Kaiowá do TEKOHA YVY KATU recebemos notícia de mais uma ameaça de morte coletiva, é a ordem de violência contra nós e despejo expedida pela Justiça Federal do Tribunal Regional de São Paulo-S.P. Assim, claramente a justiça brasileira vai matar todos nós Guarani e Kaiowá. Mais uma ordem de despejo da Justiça Federal deixa evidente para nós que a Justiça do Brasil está autorizando o extermínio Guarani e Kaiowá, as violências, morte coletiva, sobretudo extinção e dizimação Guarani e Kaiowá do Brasil. 

Entendemos que em 10 anos, a Justiça Federal do Brasil já decretou várias vezes a nossa expulsão de nossa terra YVY KATU que significa que a Justiça do Brasil está mandando matar todos nós índios aqui no Yvy Katu. Já faz dois meses que retornamos comunicar à Justiça Federal e ao Governo Federal que nós comunidades voltamos a reocupar o nosso tekoha YVY KATU e recomeçamos morar no pedaço de nossa terra. Avisamos também que não vamos sair mais de nossa terra YVY KATU, aqui morreremos todos juntos, aqui queremos ser enterrados todos. Essa é a nossa decisão definitiva que não mudamos nossa decisão. Já enviamos e reenviamos várias vezes ao Governo Federal e ao Ministro da Justiça, à Presidenta Dilma, ao Ministério Público Federal, ao Presidente do Supremo Tribunal Federal. 

Hoje 12/12/2013, mais uma vez, encaminhamos a nossa decisão definitiva à Presidenta Dilma e ao Presidente do Conselho Nacional da Justiça e do Supremo Tribunal Federal para entender e atender os nossos últimos pedidos. Demandamos às autoridades federais supremas do Brasil as seguintes. Estamos reunidos 4.000 mil Guarani e Kaiowá aqui no tekoha YVY KATU para resistir à ordem de despejo, a nossa decisão é lutar até morte pela nossa terra YVY KATU, nem depois de nossa morte não vamos sair daqui do YVY KATU. 

Pedimos ao Governo Dilma e Presidente do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa para mandar somente enterrar coletivamente todos nós aqui no tekoha YVY KATU. Nem vivos e nem morto iremos sair daqui de nossa terra antiga. Com vida ainda, antecipamos os nossos pedimos à Justiça, esse nosso direito de ser sepultado ou enterrado aqui no YVY KATU, esse pedido exigimos à Justiça do Brasil. 

Solicitamos ainda à presidenta Dilma, à Justiça Federal que decretou a nossa expulsão e a morte coletiva para assumir a responsabilidade de amparar e ajudar as crianças, mulheres e idosos (as) sobreviventes aqui no YVY KATU que certamente vão ficar sem pai e sem mãe após a execução do despejo pela força policial. Uma vez que a Justiça Federal de Navirai-MS em novembro, já determinou o uso da força policial contra nossa vidas e luta, diante disso comunicamos à juíza federal que nós vamos resistir até morte à ordem de despejo, temos absoluta certeza que morreremos pela nossa terra YVY KATU, a juíza já está ciente de nossa decisão. Todas as autoridades também já estão cientes de nossa decisão que como povo nativo Guarani vamos lutar até a morte pela terra YVY KATU.

Hoje 12/12/2013, mais uma vez passamos comunicar ao juiz federal do Tribunal Federal de São Paulo que não vamos sair do tekoha YVY KATU, aqui vamos resistir e morrer todos lutando. De forma igual, comunicamos à presidenta Dilma. Pela última vez, avisamos a todos (as) que a partir de hoje 12/12/2013, começamos a realizar um raro ritual religioso nosso de despedida da vida da terra, essa é a nossa crença, um ato consciente de preparação da vida para a morte forçada pelas armas de fogo dos homens brancos, ou melhor, começamos a participar da cerimônia de aceitação e confirmação da saída forçada da alma do corpo e sua volta ao cosmo Guarani em função da morte forçada no campo da luta. Esse é um dos rituais de despedidas da vida que raramente se realiza, mas hoje começamos a praticar. Começamos a participar desse ritual de aceitação da morte forçada e despedida da vida, das famílias e dos amigos (as), pois sabemos bem que a Justiça Federal está autorizando os homens brancos armados para atacar e matar nós aqui no tekoha YVY KATU. Comunicamos a todos (as), pois nós Guarani e Kaiowá do YVY KATU decidimos a resistir à ação de despejo e seremos mortos pela arma de fogo dos homens brancos ou policiais. Não há dúvida. Não iremos recuar nem um passo para traz, vamos resistir por questão de honra e profundo respeito aos nossos ancestrais mortos no YVY KATU, decididos, vamos lutar e morrer pela nossa terra onde estão enterrados os nossos antepassados. Por essa razão, pedimos ao Governo e a Justiça para mandar enterrar nós todos aqui no tekoha YVY KATU, porque nem vivo e nem morto não vamos sair do tekoha YVY KATU. Essa é a nossa decisão definitiva. Mais uma vez, convidamos a todas as sociedades nacionais e internacionais para acompanhar e assistir ao genocídio e a dizimação de 4.000 povo nativo Guarani e Kaiowá do YVY KATU pela justiça do Brasil por meio dos homens “brancos” POLICIAIS armados brasileiros aqui no Mato Grosso do Sul/BRASIL.

Tekoha Yvy Katu, 12 de dezembro de 2013
Comunidades Guarani e Kaiowá do tekoha YVY KATU-Japorã-MS-BRASIL

Com isso a “justiça” brasileira mostra de novo que está não do lado dos verdadeiros donos das terras indígenas ancestrais por direito, mas sim de quem tem dinheiro e poder político-econômico. Coloca novamente o dinheiro e o poder acima dos direitos e da dignidade humana. E para agravar a situação, as decisões judiciais de expulsão são apoiadas por um batalhão de reacionários, autores de comentários atrozes (nos comentários da matéria do Campo Grande News) como:

É ora (sic) de pararmos com esta hipocrisia e de praticar o politicamente correto. O fato é que praticamente nenhum índio quer viver como índio. Nas aldeias tem TV por satélite, celular, pickups, moto-serras, e muitas outras amenidades. Pela lógica da FUNAI, todo o Brasil deveria ser devolvido a eles. Na mesma linha, os EUA aos índios que ali viviam, o México aos Astecas, o Peru aos Incas, etc.. Agora se tem que devolver, deveria haver uma condição: viver sem vacinas, sem eletricidade, sem veículos. Ou seja, deveriam viver exatamente como seus ancestrais viveram, pescando e caçando. Isto eles não querem. Querem receber ajuda federal, médicos, e muitas outras mordomias em terras do tamanho de Copacabana per capita. Depois arrendam suas terras a garimpeiros, madereiros e cientistas americanos.

***

Vamos pela lógica: Já que as terras brasileiras pertencem ao índio. As terras do mundo todinho me pertencem, já que sou descendente de Adão, e ele foi o primeiro habitante da terra.

***

Não tiro os direitos dos índios….mas para quem fala que eles são os donos do Brasil, faz uma procuração e doa todos os seus bens e suas terras a eles…..se quem pensa dessa maneira fizer isso, aposto que resolve os problemas dos índios e quem não pensa assim irá parar de se incomodar…..é simples…….

***

Os povos indígenas também tem direito de moradia como todos nós, mas também deve ter a RESPONSABILIDADE de produzir alimento para o mundo como todos, e ai cabe ao líder indígena não só querem receber arrendo das terras mas fazer seu povo trabalhar, senão pra que ter terra???

***

NINGUÉM TEM O DIREITO DE TIRAR NEM A PRÓPRIA VIDA, OS ÍNDIOS ALÉM DE QUERER FAZER ISTO ESTÃO INDUZINDO AS CRIANÇAS A REPETIR O FEITO COVARDE. SE ELES COVARDEMENTE FIZEREM ISTO MORREM COM DUAS DÍVIDAS, PRIMEIRO CONTRARIA A LEI DE DEUS, SEGUNDO NÃO ESTÃO CUMPRINDO A LEI TERRENA, PORQUE É AQUI QUE ELES VIVEM, JESUS NÃO VEIO A TERRA PARA JULGAR E SIM PARA SALVAR, SE OS ÍNDIOS SE MATAREM TALVEZ UM DIA ENCONTRAREMOS LA NO CÉU.

***

Não será necessário, basta cumprir a ordem legal de desocupação e solicitar que o CIMI pregue a palavra de DEUS e deixe de incentivar invasões de terras daqueles que produzem alimentos para todos os povos.

***

deixa entender…
São indios brasileiros? e não precisam obedecer as leis?
e os outros tantos brasileiros brancos ou negros,que invadiram locais desabitados e foram expulsos?? temos uma classe de intocados??

Pessoas que se colocam contra o direito dos indígenas de fazerem o que bem entenderem com suas terras nativas são cúmplices do derramamento de cada gota de sangue de nativos.

Atualização (20/12/13, 07:00): Pelo menos uma das decisões judiciais foi derrubada, garantindo aos Guaranis-Kaiowás o direito de permanecerem em seu tekoha. Vamos continuar acompanhando o que mais vai acontecer por lá.

imagrs

1 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Fernando Pinto

dezembro 25 2013 Responder

Só não entendi uma coisa. Os brancos colonizaram esta terra. Os brancos meteram a porrada em quem ficou no caminho. Esses índios estão dizendo para os brancos que a terra onde moram é deles? Hahahahahahahahahahahaha

Sua opinião é bem vinda, desde que respeitosa. Fique à vontade para comentar abaixo