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dez13

PCO: o partido que defende o “direito” a comer foie gras é o mesmo que promove réveillons “chics”
Os reveillons do Partido "da Causa Operária" que constam no YouTube parecem ter sido feitos pelos patrões dos operários, não deixando nada a dever às solenidades do PSDB, do DEM e do PSC.

Os reveillons do Partido “da Causa Operária” que constam no YouTube parecem ter sido feitos pelos patrões dos operários, não deixando nada a dever às solenidades do PSDB, do DEM e do PSC.

Me dói usar o mesmo termo que foi usado pelo vejista Rodrigo Constantino, mas de fato o PCO, autodenominado Partido da Causa Operária, é um dos mais claros exemplos de “esquerda caviar”. Ou pior, “esquerda(?) foie gras“. O mesmo partido que se opõe à proibição do consumo de foie gras e compartilha com os minarquistas a reivindicação de o Estado parar de punir crimes de ordem ética, vem realizando há alguns anos festas de ano novo bastante “chics” – tão “chics” que fica a dúvida se foi realmente oferecido patê de fígado doente de ganso nessas solenidades -, envergonhando a esquerda brasileira, que idealmente deveria prezar pela aproximação às camadas populares e defender a cultura popular.

Vìdeos de diversos réveillons promovidos pelo partido estão no YouTube, esperando serem divulgados para se tornarem virais a mostrar como algumas pessoas e partidos que se dizem de esquerda possuem alma conservadora e burguesa. Abaixo, estão respectivamente as festas da virada de 2007-2008, 2009-2010 e 2011-2012, os dois últimos divulgados sem nenhum pudor pelo canal “Causa Operária TV”:

Chamam a atenção o requinte e a opulência desses eventos e a ausência de pessoas vestidas com roupas humildes, com forte evidência de que as pessoas que idealmente seriam as interessadas pela causa operária que o partido diz defender acabaram excluídas por não terem dinheiro para comprar vestidos caros, paletós, gravatas e camisas e calças sociais – essa evidência de exclusão da participação popular em recintos que exigem trajes típicos das camadas endinheiradas da sociedade é muito bem exposta por Leonardo Sakamoto num artigo bem recente. Em outras palavras, a probabilidade é muito grande de os próprios operários ficarem de fora de tais eventos, a não ser que muitos deles tenham dinheiro para comprar tal vestuário.

Esquerda que é esquerda é popular, tem a cara do povo, das classes mais baixas, das pessoas humildes. Suas festas não segregam por roupa, acolhendo todo mundo, desde com saias, calça jeans, bermudão, camiseta, blusinha e chinelo até vestido longo e black tie. Seus eventos priorizam estilos populares, como o rap, o funk, o brega nordestino, o forró, o samba, o pagode, a música sertaneja de raiz e outros ritmos do povo, deixando em segundo plano estilos tendentes aos ouvidos das classes mais altas. Quando não é assim que acontece, nos perguntamos que coerência tem um movimento dito de esquerda – parcela ideológica que visa a igualdade e dignidade a todxs – e proletário que realiza festas que não são para as classes populares. É a mesma (falta de) coerência de um movimento dito feminista cujos líderes são homens cis, ou de um movimento da causa negra cujos líderes e maioria seja de brancos, ou um movimento de luta pela dignidade LGBT dirigido por pessoas cis heterossexuais.

As festas de ano novo do PCO me fazem imaginar uma “festa feminista” onde 80% dxs participantes são homens cis e não haja nenhuma mulher negra pobre, ou uma “festa da consciência negra” onde 80% dos participantes são gente branca vestida como patricinhas e mauricinhos e onde estilos musicais de origem negra são preteridos em favor de ritmos cuja maioria de bandas, cantores e fãs é de brancos. Me remetem também à memória histórica da elite burocrata dos países que foram adeptos do socialismo histórico autoritário no século 20, jogando no lixo o ideal engel-marxiano de governo socialista do proletariado e esforço geral pela extinção da hierarquia social de classes.

A cereja do bolo da bizarrice são os discursos do presidente do partido. Frases de efeito, como “Nós somos a vanguarda da luta do povo brasileiro”, atraem as palmas dos espectadores “bem vestidos”, e falas relativas a povos oprimidos, às classes populares e às lutas de classe reverberam no salão, não se diferenciando tanto assim dos discursos de vencedorxs de concursos de beleza e dos magnatas filantropos da vida. Em outras palavras, fala-se de luta popular para uma plateia onde pessoas das classes populares em luta são minoria.

Fica a sugestão ao PCO: se não querem continuar a ser desdenhados e relegados ao caricato, parem de se opor a lutas legítimas de esquerda, como a libertação animal, e saiam dos salões e das festas “chics” e promovam réveillons populares, ao ar livre, junto com a população pobre e operária que dizem defender. Abandonem o foie gras (até por respeito aos gansos e patos torturados e mortos por pecuaristas) e passem a comer cuscuz junto com os mais humildes.

Falem de luta social e libertação humana àqueles que estão lutando para serem libertados da opressão e também àqueles que, mesmo pertencentes a classes como a média, entendem a linguagem do povo e vêm lutando ativamente em solidariedade pela libertação de seus irmãos de vida – seres humanos e animais não humanos. Só assim vão abandonar a pecha de “esquerda(?) foie gras” e realmente figurar como operários em luta pela igualdade e pela dignidade universal, e não como operários que sonham em se tornar burgueses caridosos.

 

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