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dez13

Por que presidentes progressistas de verdade são tão raros quantos reis virtuosos e altruístas
Pepe Mujica é um caso raro entre presidentes da república. Esperar que pessoas como ele sejam comuns em todas as eleições de todos os países é desconhecer as limitações do sistema político representativo.

Pepe Mujica é um caso raro entre presidentes da república. Esperar que eleger pessoas como ele se torne algo comum em todos os países é desconhecer as limitações do sistema político representativo.

Olhando através do véu da fantasia democrática do sistema político representativo e partidário, percebemos algo que incomoda bastante nossa consciência: mesmo com todos os maiores de idade podendo votar, as chances de um presidente realmente justo, progressista e de esquerda subir ao poder, não ser vítima de golpes de Estado e não trair suas bandeiras ideológicas são tão baixas quanto um rei ou rainha reconhecidamente virtuoso ser empossado no trono e governar pela dignidade de seus súditos.

Isso pode ser notado pela raridade de presidentes realmente comprometidos com a justiça social que cumprem todo o seu mandato e todo o seu ideário ideológico prometido sem serem ameaçados e derrubados por golpes e conspirações, mundialmente falando. Em outras palavras, aparecer um Pepe Mujica e um Evo Morales a abraçar e beneficiar as classes populares é tão raro quanto surgir num trono qualquer do mundo um Ciro da Pérsia, descrito pela historiografia clássica como um “excelente” monarca e provável ancestral dos direitos individuais modernos.

Isso se dá por ser severamente difícil um candidato driblar, desde sua eleição e posse até o encerramento pacífico de seu mandato, as pressões, boicotes e conspirações golpistas vindas dos setores conservadores e de elite que não se agradam em ver alguém de esquerda no poder. Da mesma maneira, um rei que governe virtuosamente quase sempre enfrenta obstáculos igualmente fortes, incluindo tentativas de assassinato e de usurpações do trono, para se manter lá até morrer de velhice.

Muitas vezes nomes promissores e inspiradores de esperança, como o de Lula no Brasil, depois que são eleitos e empossados, terminam cedendo e abandonando suas convicções político-ideológicas originais e barganhar com os setores pró-status quo, incluindo elites empresariais e rurais e bancadas parlamentares de direita, para afastar o risco de golpe de Estado. Muitos dos que resistem a ceder seu mandato ao pragmatismo direitista, ao capitalismo e ao liberal-conservadorismo terminam por serem difamados pela grande mídia, depostos ou mesmo mortos, como foram os casos de João Goulart no Brasil e Salvador Allende no Chile.

Outro motivo da pouca numerosidade de líderes realmente fortes de esquerda é a socialização ideológica deles durante a construção de seu projeto de poder. Quase todos os presidentes que se iniciaram na esquerda são preparados pela conjuntura política de seu tempo e país a barganharem apoio conservador, venderem bandeiras ideológicas, promoverem gestões pragmáticas e colocarem em último plano projetos progressistas e equitativos de país. Tudo em nome da governabilidade e da manutenção de seu mandato ao tempo integral. De forma bem parecida, a grande maioria dos reis é socializada e politicamente instruída num contexto cultural de violência, egoísmo, ganância, ostentação material, moral desconectada da ética e naturalização da dominação.

No final das contas, a única grande distinção entre o presidente e o rei é que um foi eleito pelo povo e o outro foi apenas aplaudido pelo mesmo em sua posse. Mas mesmo isso não faz muita diferença, já que a expressão dos interesses e demandas populares pelo voto é tão ilusória quanto a justeza e a virtuosidade da meritocracia. Isso porque as campanhas eleitorais muitas vezes envolvem maracutaias como a busca pelo agrado da maioria – mesmo que ela seja conservadora –, enfrentamento ou apoio por parte da mídia e o encantamento dos eleitores mais impressionáveis pela forja de promessas que na verdade não vão ser cumpridas.

Esses problemas nos mostram que o sistema político representativo tem limitações estruturais que tornam o êxito de governos e governantes progressistas tão raro quanto a ascensão de monarcas justos, pacifistas e altruístas aos tronos do passado e do presente. Por isso não devemos mais nos deixar iludir pela “democracia liberal”, assimilando ao invés o dever de construir um modelo político realmente democrático, no qual o povo tenha a soberania sobre si mesmo e dispense líderes e representantes para governar em nome dos interesses públicos e da justiça.

imagrs

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~epix

dezembro 24 2013 Responder

Isso está intrínseco no modelo hierárquico que é o estado e qualquer instituição de autoridade. As chances de uma autoridade fazer algo que beneficie os outros mas não a ele é ínfima, ao ponto de ser infantil confiar em hierarquias para “organizar” a vida social.

João da Silva

dezembro 24 2013 Responder

Confio muito mais em reis e imperadores do que em presidentes e primeiros-ministros.

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