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jan14

A “democracia” defendida pela direita brasileira é tudo menos propriamente democrática
Se Mafalda lesse o que a direita brasileira defende como "democracia", aí que iria morrer de rir mesmo.

Se Mafalda lesse o que a direita brasileira defende como “democracia”, aí que ela iria morrer de rir mesmo.

Os direitistas brasileiros costumam dizer que a direita, desde a conservadora até a “libertária”, defende a democracia, inclusive colocando-se às vezes como “protetores” do regime democrático diante da “ameaça comunista (sic) totalitária”. Mas, quando analisamos melhor o que esses “democratas” têm ou não têm defendido, percebemos que eles podem ser qualquer coisa, menos defensores de uma democracia propriamente dita, um governo realmente controlado e administrado pelo povo.

É visível que, pelo menos na mentalidade da maioria dos direitistas, “democracia” no máximo seria manter o sistema representativo vigente, que restringe oficialmente a participação política da sociedade civil à eleição regularmente periódica de representantes, à assinatura de projetos de lei de iniciativa popular, ao voto em plebiscitos e referendos, à (muito limitada) possibilidade de recorrer a um Poder Judiciário imparcial para exigir respeito a direitos e (nem sempre) a protestos pacíficos muito limitados. Uma parcela nada desprezível desses que se dizem “democratas de direita”, aliás, defendem na verdade a supressão do que resta de Estado democrático, em promoção de um regime ditatorial civil-militar que, segundo eles,”faria as vontades do povo” e trabalharia “pelo desenvolvimento do país”.

 

As limitações da “democracia” de direita

Os conceitos direitistas de democracia omitem muitos pontos que se orientariam para o aumento da participação das classes populares e mesmo da classe média nas decisões políticas locais, regionais e nacionais. Como foi dito, limitam ao mínimo o papel dos governados em controlar as ações dos governantes, ora restringindo dos primeiros as prerrogativas constitucionais, ora inibindo seus parcos poderes oficiais e extraoficiais.

Como exemplos das limitações da “democracia” defendida pela direita, temos que:

1. As demandas populares são, em sua maioria, ignoradas pelos Três Poderes;

2. A maioria dos abaixo-assinados, mesmo quando trazem os números de identificação oficial de cada assinante, é solenemente ignorada e engavetada pelos seus destinatários;

3. Poucas campanhas de envio em massa de e-mails a políticos por parte da população resultam em aprovação e sanção integral de leis que contrariem interesses privados ou no veto ou rejeição em plenário de projetos de lei injustos e retrocedentes;

4. Protestos que não se radicalizam o suficiente, em termos de número de participantes, frequência, regularidade e uso de violência contra símbolos de poder, são desdenhados pela grande maioria dos políticos;

5. O voto eleitoral tem chances enormes de ser influenciado por meios legais ou ilegais de persuasão, ora com alienação ora com falsas promessas, por candidatos interessados em atuar em causa própria;

6. Nada impede, na prática, que candidatos que posam como promissores, inspiradores de esperança, traiam os anseios e demandas dos seus eleitores e defensores e cedam aos interesses das grandes corporações, dos latifundiários e do alto clero das grandes igrejas;

7. A campanha eleitoral é uma competição desleal por votos, na qual os candidatos que recebem grandes financiamentos privados têm muito mais vantagens e chances de êxito do que aqueles que, por exemplo, só recebem doações populares;

8. O poder econômico e/ou religioso dita grande parte, senão a maioria, das decisões políticas, deixando as demandas dos movimentos sociais em segundo plano;

9. Não há nenhuma obrigação legal de se promover a politização das massas e a habilitação das mesmas em opinar ativamente sobre as decisões dos políticos, nem pela educação escolar, nem pelos meios de comunicação;

10. E o mais importante: mantém uma hierarquia relativamente rígida de dominantes e dominados, na qual os primeiros têm muitos poderes, previstos ou não em lei, sobre os últimos e a recíproca não é verdadeira.

 

Omissões que tornam a “democracia” dos direitistas democrática de menos

Além dessas limitações, são abundantes na “direita democrática” brasileira as omissões de bandeiras que realmente aumentariam a participação popular nas decisões políticas e tornariam o sistema vigente algo mais próximo do significado literal da palavra “democracia”, como:

1. A expansão do poder de decisão política dos cidadãos para além do voto em eleições, plebiscitos e referendos e da assinatura de projetos de lei de iniciativa popular, com aumento do número de direitos políticos dos cidadãos situados fora dos Três Poderes e fortalecimento dos direitos políticos já existentes, superando-se as limitações e vícios do sistema representativo em vigor;

2. O direito político dos cidadãos de deliberarem diretamente sobre as leis aprovadas e sancionadas ou vetadas ou rejeitadas em votação, sem que haja referendos impostos de cima para baixo ao sabor das vontades dos representantes;

3. A valorização dos movimentos sociais enquanto promotores dos direitos políticos dos cidadãos;

4. A desvinculação entre poder econômico e poder político;

5. A politização das massas, com a transformação da massa politicamente passiva em público politicamente ativo;

6. A promoção de educação política fomentadora do senso crítico, do pensamento autônomo e do questionamento social;

7. A desmilitarização da polícia e a incorporação do máximo possível de valores pró-democráticos nos quartéis policiais;

8. A remoção do entulho ditatorial nas polícias e nas forças armadas.

 

Posturas antidemocráticas assumidas por muitos direitistas que se autorrotulam “democratas”

Para piorar, muitos, embora não necessariamente uma maioria, dos direitistas convictos que se autointitulam “democratas” possuem, na verdade, posturas claramente antidemocráticas, pró-autoritárias, como as seguintes – nem sempre adotadas todas ao mesmo tempo pelas mesmas pessoas:

1. Exaltação do regime militar de 1964-85, incluindo a repressão a opositores democratas de esquerda;

2. Demanda por um novo golpe militar, apelidado de “intervenção militar”;

3. Defesa do silenciamento da esquerda à força, expressa nas demandas por “intervenção militar”, nos ataques carregados de ódio contra tudo que seja ou pareça de esquerda e no apoio à repressão policial contra protestos orquestrados por movimentos sociais organizados ou espontâneos;

4. Pregação do ódio contra tudo e todos que sejam ou pareçam ser de esquerda, independente da corrente ideológica defendida por essas pessoas e bandeiras;

5. Táticas de manipulação de opiniões e fomento do medo, fugindo ao debate salutar de ideias;

6. Defesa sutil da censura de conteúdos considerados de esquerda, principalmente aqueles ligados às teorias sociais derivadas do marxismo, no ensino – algo implícito nos discursos que “denunciam” a presença do “marxismo cultural” na educação e se opõem a toda e qualquer presença de conteúdo questionador do capitalismo e do sistema político vigente;

7. Reivindicação da reimplantação da doutrinação nacionalista, conservadora (Ed. Moral e Cívica e OSPB) e cristã nas escolas, em detrimento de disciplinas potencialmente fomentadoras do pensamento livre e crítico;

8. Defesa da restauração da monarquia, na qual o povo não poderia mais eleger o chefe do Poder Executivo (no caso, o rei ou imperador) e este teria mais poderes do que um presidente sobre as decisões dos poderes Legislativo e Judiciário, resultando numa participação popular ainda menor;

9. Rebaixamento difamatório da diversidade política dentro da esquerda a um bloco ideológico uniforme de orientação stalinista, pejorativamente chamado de “comunismo”, como tentativa de desencorajar, pelo medo, os mais leigos em política de aderirem a ideologias convictamente esquerdistas;

10. Apoio à repressão armada, por parte de policiais e outros militares, contra movimentos populares de reivindicação;

11. Defesa da segurança pessoal e do livre mercado acima de diversos direitos civis e liberdades, dando margem ao apoio a decisões e intervenções políticas autoritárias que tenham o pretexto de “garantir a ordem e a segurança pública” e/ou “promover a liberdade econômica”;

12. Rejeição, negação ou defesa da supressão de direitos básicos de minorias, como o dos homossexuais ao casamento civil e o dos indígenas à autonomia sobre como desfrutar das terras de seu povo;

13. Negação da cidadania integral e da inclusão política das minorias, como mulheres, negros, índios, homossexuais, pessoas trans, afrorreligiosos, camponeses, imigrantes de países pobres, entre outras;

14. Negação da laicidade do Estado, com defesa da supremacia cristã na política em detrimento dos direitos das minorias não cristãs (ateus e agnósticos, judeus, afrorreligiosos, espíritas, pagãos, muçulmanos, adeptos de religiões orientais, sincretistas etc.)

15. Aceitação da prevalência, nas decisões políticas, do poder econômico ou religioso de uma minoria em detrimento das demandas populares, somada ao apoio ou omissão perante grande parte das decisões favorecedoras dos interesses privados dessa minoria.

 

Considerações finais

Analisando-se o que são realmente os modelos de “democracia” defendidos nas fileiras da direita, observando-se a omissão de inúmeras bandeiras que orientariam uma democratização mais radical da sociedade e flagrando-se as posições autoritárias de alguns autochamados “defensores da democracia e da liberdade”, percebemos como de propriamente democrática a direita política no Brasil não tem quase nada. Só é possível considerar a direita como democrata quando se flexibiliza o conceito de democracia a algo muito limitado, distante do seu significado original de “governo do povo”, que no final das contas exclui legalmente quase todas as prerrogativas daqueles que não estão nos Três Poderes nem gozam de poder econômico ou religioso.

Por isso, é possível dizer, sem hesitação, que, ao contrário do que vive afirmando, a direita brasileira, seja ela monarquista, defensora de uma nova ditadura civil-militar ou partidária do livre mercado e do Estado mínimo, tem demandas nada favoráveis ao aprofundamento da democratização da sociedade. Se depender dela, das duas situações seguintes, uma acontecerá: ou o povo continuará tendo poderes de decisão política extremamente reduzidos e facilmente superáveis pelo poder do dinheiro, ou mesmo o pouco de democracia existente no Brasil vai ser anulado ou reduzido à impotência total por um regime autoritário que vise, por exemplo, ampliar as liberdades econômicas e “garantir a ordem e a segurança”.

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Priscila

março 23 2015 Responder

Eu acredito que o que tem acontecido nos últimos tempos é o investimento aflorado para manter o monopólio esquerdista, ninguém tem coragem de enfrentar esse marketing ilusório de que oa esquerdistas são salvadores da pátria, os partidos desconhecem o significado “Direita”. A direita democrata na verdade seria muito boa se houvesse pessoas realmente interassadas no desenvolvimento do nosso país, todos são de centro esquerdista, que significa na verdade uma camuflagem de idéias direitistas, os interesses são egoístas visando semente benefício próprio. No Brasil não existe direita ou eaquerda e se eu pudesse dar um nome seria “ambidestro” rs

Carlos

junho 1 2014 Responder

‘Consciência’………… kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

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