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“Consciência humana”, consciência de ninguém
"Humanofobia" e "consciência humana": lorotas de uma falsa consciência acobertadora de preconceitos e silenciadora de minorias historicamente discriminadas

“Humanofobia” e “consciência humana”: lorotas de uma falsa consciência acobertadora de preconceitos e silenciadora de minorias historicamente discriminadas

Atualizado e editado em 20/11/2016 às 15h30

Você já percebeu algo bem curioso, que acontece sempre que estamos perto do Dia da Consciência Negra ou no dia em si?

Sempre nessa época do ano, aparecem duas (ou mais) maneiras de conservadores se oporem a esse dia, que é de imensa importância para o movimento negro e a luta contra o racismo.

Uma é o compartilhamento da infame frase “Não precisamos de um dia da consciência negra, branca, parda, amarela, albina etc. Precisamos de 365 dias de consciência humana.”, ou do vídeo da famigerada entrevista de Morgan Freeman, na qual ele diz (numa atitude passível de diferentes interpretações de linguagem verbal e não verbal) que a “solução” para o racismo seria “parar de falar sobre ele”.

Outra, que uma vez vi numa página reacionária, é alegar que “não existem” racismo, lesbo/bi/homofobia, transfobia, machismo/misoginia, intolerância religiosa etc., mas sim uma tal de “humanofobia”, uma alegada categoria de violências que poderiam ser supostamente cometidas contra qualquer ser humano.

Diante dessas atitudes, das quais selecionei a “consciência humana” e a “humanofobia” (assista aqui à minha resposta à interpretação reacionária da entrevista de Morgan Freeman), pensemos: elas vêm como uma manifestação legítima de empatia e igualitarismo?

Têm como objetivo tornar o mundo menos violento e discriminatório? Ou só foram forjadas para deixar tudo como está e colaborar para a manutenção do racismo e de outras formas de injustiça motivadas por preconceito?

 

O que realmente há por trás da atitude de “divulgar” a “consciência humana contra a humanofobia”

O nome “consciência humana” e a “oposição” à tal da “humanofobia” parecem atitudes bonitas, humanistas, empáticas. Mas se percebermos isso, isso fica só na aparência mesmo.

Longe de realçarem a necessidade de livrar o mundo do ódio contra o diferente, elas possuem objetivos nada construtivos para a luta contra esse flagelo.

Um deles é invisibilizar a existência das desigualdades raciais, de gênero e identidade de gênero, de orientação sexual etc. Outro é negar a ocorrência dos crimes de ódio como crimes de ódio, rebaixando-os a crimes “comuns” como se não tivessem nenhuma motivação em função de aversão de raça, orientação sexual, (identidade de) gênero, religião etc.

É algo parecido como rebaixar a tortura de prisioneiros políticos – que possui toda uma crueldade específica e motivações extremamente claras de intolerância ideológica – à qualidade de crime de lesão corporal comum, cometido sem nenhum plano de fundo político.

Para os defensores da “consciência humana contra a humanofobia”, por exemplo:

  • Um negro em determinada situação não foi morto pela polícia por racismo, mas sim porque era simplesmente um ser humano que estava no local errado e na hora errada;
  • Um casal gay foi torturado e morto, mesmo com visíveis indícios de crime de ódio homofóbico, por uma suposta aversão indistintamente misantrópica dos autores do crime;
  • Não há machismo e misoginia quando, diante de casos de estupro noticiados na mídia, uma parcela nada pequena da população tenta culpar a vítima por ter sido violentada e inocentar o estuprador;
  • A mulher negra ganha menos que a mulher branca e muito menos do que o homem branco por nenhum motivo além da “falta de mérito individual” – crença essa que já é, por natureza, machista e racista, ao colocar mulheres negras como “naturalmente menos capazes” de um bom trabalho do que homens brancos;
  • Negros não são ofendidos nem esnobados por empresas em favor de brancos, seja como clientes ou como candidatos a emprego, por motivações racistas;
  • Adjetivações depreciativas especificamente contra homossexuais não teriam motivações lesbofóbicas e homofóbicas;
  • Não há uma cultura quase generalizada de transfobia matando travestis e transexuais por assassinato ou indução ao suicídio, nem negando o direito de pessoas trans de serem quem elas próprias sabem que são.

Todas essas situações de intolerância e discriminação seriam motivadas por nada além de um vago, difuso e extremamente abstrato “ódio ao ser humano”, ou por aleatoriedade, ou por um puro e individual desvio de caráter da parte do criminoso – que teria um desgosto aleatório e sem motivação clara por algumas pessoas e não por outras.

Outra implicação da tal “consciência humana” “anti-humanofobia” é apagar maliciosamente as raízes históricas de panoramas tradicionais de desigualdade social e discriminação cultural.

É como se não existissem as enormes desproporções entre os percentuais de negros e brancos na população total brasileira e a distribuição dessas pessoas em:

  • Empregos subalternos (maioria de negros);
  • Empregos hierarquicamente elevados (grande maioria de brancos);
  • Mandatos e cargos em posições nos três poderes (grande maioria de brancos);
  • Habitantes de comunidades muito pobres (grande maioria de negros);
  • Moradores de bairros “nobres” e de classe média-alta (grande maioria de brancos) etc.

Esse apagamento também acoberta a existência de papéis de gênero que relegam a mulher a papéis sociais ligados à subordinação e submissão, ao estado de privação de liberdade imposto pelo companheiro ou pelo pai, à extrema vulnerabilidade a crimes de violência doméstica ou assédio sexual, à relegação à qualidade de brinquedo sexual ou motivo de repulsa masculina etc.

Tanto os problemas de relações raciais como os de relações de gênero são forçadamente tornados meros problemas de cunho individual, “casos isolados” que magicamente se resolveriam sozinhos sem a intervenção do feminismo e do movimento negro.

A essas questões, vão se somando outras, como cancelar e censurar o empoderamento de pessoas pertencentes a essas minorias.

A “consciência humana” cala, por exemplo:

  • O orgulho negro, como maneira de os negros resistirem às agressões racistas e à exclusão social e cultural dos negros e evitarem sentir vergonha de sua cor;
  • A autoafirmação feminina como maneira de fazer as mulheres não fraquejarem, perante o machismo e a misoginia que sentem na pele, e empoderá-las, de modo que reajam com autoridade contra os machistas que lhes julgam fisicamente de forma objetificadora ou condenadora e as reduzem a “bens” públicos (a serem abusadas pelos homens nas ruas, baladas, lojas etc.) ou privados (a serem controladas por seus companheiros);
  • A determinação das pessoas trans em busca do respeito incondicional à sua identidade de gênero e sua dignidade;
  • O orgulho dos afrorreligiosos, dos pagãos, dos ateus, dos judeus etc. de serem quem são e crerem no que creem, e sua luta em exigir que a maioria cristã os respeite e não lhes julgue o caráter em função de suas crenças etc.

Tudo isso mostra que defender a demasiadamente genérica e vaga “consciência humana contra a humanofobia” passa muito longe de colaborar com o desenvolvimento de uma sociedade igualitária, na qual todos os seres humanos sejam tratados com o mesmo respeito, os mesmos direitos e a devida proporcionalidade representativa nos diversos espaços sociais.

Muito pelo contrário, contribui para a perpetuação de todas as desigualdades, preconceitos, intolerâncias e violências motivadas por ódio contra minorias, sem exceção.

No fundo, essas ideias só servem para deixar pessoas em posição dominante se sentirem mais confortáveis com seus privilégios e preconceitos. Afinal, por exemplo, a negação, por um branco, da existência do racismo lhe permite acreditar que não foi agraciado com privilégios pela sociedade em que vive, como os de:

  • Não ser visto na rua como potencial bandido;
  • Ter acesso mais fácil a cursos universitários de prestígio elevado e empregos de alta posição hierárquica,;
  • Ter chances muito maiores de vir a morar um dia num bairro de classe média-alta;
  • Ter uma probabilidade muito menor de ser assassinado na rua por policiais ou por criminosos civis;
  • Ser maioria nos meios de comunicação;
  • Representar e ditar o padrão de beleza vigente etc.

E também o “inocenta” de estar incorrendo em desvio de ética, ao eventualmente tratar negros de forma negativamente diferenciada dos brancos, apoiar a repressão policial contra “rolezinhos” de shopping promovidos por negros pobres enquanto acha “bacanas” as “farras” envolvendo aglomerações de brancos de classe média, rir de piadas que depreciam e inferiorizam os negros etc.

 

“Consciência humana” é ausência de consciência. Ser “contra a humanofobia” é ser a favor da perpetuação de todo tipo de intolerância e preconceito

Forçar uma substituição imaginária do racismo, do machismo, do heterossexismo, da transfobia, da intolerância contra não cristãos etc. pela abstração genérica da “humanofobia”, e silenciar o orgulho das minorias em favor de uma imaginária “consciência humana”, só serve aos dominantes e aos preconceituosos, incluídos os autores de crimes de ódio.

Não serve em nada às minorias políticas discriminadas. Pelo contrário, cala o sofrimento, a autoestima e as demandas das pessoas que a elas pertencem.

Longe de acabar com as relações de dominação e os preconceitos, forja para a sociedade uma máscara de provedora de “igualdade universal” de condições para encobrir sua verdadeira face discriminatória, intolerante, hierárquica moral e segregadora.

Sabendo-se desses tantos problemas e interesses escusos inerentes ao seu uso, acredito que você agora perceba que a “consciência humana” é na verdade uma consciência de ninguém. Aliás, é a ausência de consciência do ser humano das categorias dominantes perante as opressões que historicamente têm marcado, há milênios, a vida dos dominados.

E a lorota de ser “contra a humanofobia” implica ser a favor de que todo o racismo, o machismo, a intolerância religiosa, o heterossexismo, a pauperofobia, o capacitismo etc. continuem existindo firmes e fortes. Ou seja, ser antiético, preconceituoso e desrespeitoso contra a maioria dos seres humanos.

Então, aproveite o Dia da Consciência Negra*, o Dia Internacional da Mulher, o Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, o Dia Mundial da Memória Trans*, o Dia do Orgulho Pagão* etc. para refletir sobre o quanto a “consciência humana” tanto não faz sentido como só faz apagar consciências legítimas.

*As três datas de observância de lutas coincidem no dia 20 de novembro

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