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Daniela Andrade: Grandes perguntas da humanidade sobre o direito das mulheres trans ao uso do banheiro

simbolo-trans-1Mais um texto da ativista pelos direitos das pessoas trans Daniela Andrade, agora sobre os questionamentos transfóbicos sobre o direito das mulheres trans a usarem o banheiro feminino:

 

Grande perguntas da humanidade [sobre o direito das mulheres trans ao banheiro]
por Daniela Andrade

A maioria esmagadora das vezes que vejo alguém reclamar dizendo que uma travesti ou uma mulher trans não pode usar o banheiro feminino, é um homem.

1 – Por que os homens querem protestar em relação a algo que quem são as maiores interessadas são as mulheres, sendo que muito se vê mulheres dizendo não ter qualquer preocupação de uma mulher trans ou travesti partilhar o mesmo banheiro?

2 – Para esses homens, todas as travestis e mulheres trans são estupradoras em potencial e, para colocarem seus desejos de estuprar mulheres em ação, estão querendo usar o banheiro masculino pois, possuem um pênis. Primeiro é mentira, por que nem todas possuem um pênis, depois que: eles estão se entregando e com isso dizendo que não confiam em ninguém que tenha um pênis, logo, nem neles mesmos ou será que a única pessoa que tem pênis e dá para confiar é quem emite uma opinião dessa? Devem imaginar que o pênis é uma entidade que age por conta própria, que aliás, é o pênis que deve coordenar os movimentos de quem o possui. E que, a única função de um pênis é essa: penetrar.

3 – Quando é para rifar o direito de uma mulher trans ou travesti usar o banheiro feminino, demonstram extrema preocupação com estupros. Moramos em um país em que o número de estupros superou o de homicídios. O que esses mesmos homens têm feito para reduzir os estupros, por exemplo, eles têm instruído seus amigos homens para respeitarem a liberdade sexual das mulheres e, não chamarem de puta, vadia e similares quando uma mulher resolve ter tantos homens em sua vida quantos ela achar necessário? Eles têm instruído seus amigos homens que, se uma mulher está com roupa curta, isso não significa que ela quer transar com qualquer um e, dado que um homem com roupa curta não é lido dessa forma, por que uma mulher deve ser lida assim? Eles têm instruído seus amigos homens que a culpa do estupro NUNCA é da mulher? E que uma mulher alcoolizada não está em condições de consentir com um ato sexual? Eles têm instruído seus amigos homens que quando uma mulher disser não, é realmente não, e que eles não devem insistir? Eles tem instruído seus amigos homens a não descreditarmos de cara a denúncia de uma mulher que foi estuprada?

Eu não vejo tanta preocupação em educar seus amigos homens contra o estupro como vejo quando o assunto é mulher trans ou travesti usando o banheiro feminino; logo, no mínimo, a preocupação é leviana e desonesta nesse caso, ou ainda, é uma desculpa para retirar direitos de uma população que eles sequer consideram gente, aliás, retirar os direitos que essa população já não tem.

4 – Se só quem tem vagina pode usar o banheiro feminino, quem ficará na porta pedindo para as pessoas abaixarem a calcinha para mostrarem qual genital possui? Há diversas decisões judiciais no país que deferiram a alteração de documentos para mulheres trans e travestis mesmo sem terem se submetido à cirurgia de trangenitalização, de forma que consta em todos seus documentos que são do sexo feminino. Isso significa que, o estado brasileiro aos poucos e ainda de forma manca reconhece que genital não define gênero de ninguém. Gênero é constructo e não informação anatômica.

5 – Se mulheres trans e travestis usam o banheiro para estuprarem mulheres, onde estão as estatísticas de estupros de mulheres cis causados por mulheres trans e travestis?

6 – Sabendo que no banheiro feminino todo mundo faz suas necessidades em cabine privativa às portas fechada, e no banheiro masculino homens urinam a descoberto usando o mictório, forçar uma travesti ou mulher trans a usar banheiro masculino constrange a travesti ou mulher trans e o homem que está ali usando o mictório. Ademais, a mesma possibilidade de uma mulher cis tem de ser agredida sexualmente dentro do banheiro masculino, tem a mulher trans ou a travesti. Porém, a preocupação é só para manter a segurança da mulher cis, por que será?

7 – Mulheres trans e travestis não estão querendo usar terceiro banheiro, em sua imensa maioria, pois não são pessoas com doença infecto-contagiosa que precisam ser afastadas do convívio com os demais. E, sem falar que, mulheres trans não se reconhece como pertencente a um terceiro gênero, mas sim, mulheres. Terceiro banheiro é apartheid, como há não muito tempo fizeram com os negros.

8 – A dignidade da pessoa humana é um preceito fundamental do estado democrático de direito que deve ser assegurado a TODAS as pessoas, e lembrando que travestis e mulheres trans são pessoas. Respeitar a dignidade da pessoa humana é respeitar a identidade de gênero reivindicada por cada pessoa também.

9 – Se um homem estiver a fim de estuprar mulheres, a melhor estratégia seria colocar roupas femininas, acessórios, maquiagem: enfim, caracterizar-se como mulher e passar a frequentar banheiros femininos públicos de grande circulação de pessoas? Sem falar que sabemos que o grande número de estupros são praticados por homens da própria família ou de convívio próximo da vítima.

10 – Por que a preocupação excessiva com a segurança das mulheres aparece quando é para dizer que mulheres trans e travestis não tem qualquer direito de reivindicar-se como mulheres e/ou serem tratadas como qualquer mulher? Somos o 7o país do mundo que mais mata mulheres vítimas de violência doméstica, a lei Maria da Penha não conseguiu diminuir os números da violência contra a mulher, nesse caso, ao que se vê pelos números e estatísticas, a preocupação em manter a mulher em segurança, desaparece e nada de efetivo se faz.

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