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jan14

Daniela Andrade: O mês da Visibilidade Trans

simbolo-trans-1Daniela Andrade, militante pela visibilidade trans e pelo fim da discriminação contra as pessoas trans, escreveu esse artigo mostrando a obviedade da necessidade de se militar por essa causa. Como leitorxs mais antigxs já sabem, o Consciencia.blog.br presta toda a sua solidariedade às pessoas trans, que lutam diariamente contra a transfobia e o cissexismo e por uma sociedade que reconheça e respeite todas as identidades de gênero.

 

O mês da Visibilidade Trans*
por Daniela Andrade

Esse é o mês da Visibilidade Trans*, comemorado mais precisamente no dia 29 de janeiro.

O Dia da Visibilidade Trans surgiu em janeiro de 2004 por conta do lançamento da Campanha Nacional “Travesti e Respeito”, do Ministério da Saúde. Nesse dia 29, representantes da Articulação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) entraram no Congresso Nacional, em Brasília, para lançar nacionalmente a campanha.

No Brasil, travestis e transexuais ainda lutam por questões fundamentais, como:

– serem chamad@s e reconhecid@s legalmente pelo nome social (em oposição ao nome registrado quando do nascimento, que frequentemente não exprime o gênero da pessoa);

– serem tratad@s pelo gênero que a pessoa exerce socialmente (e não de acordo com a genitália, já que identidade de gênero é algo construído socialmente e modificado/introjetado pelo aparelho mental, não dependendo necessariamente de significação genital) [assim: ao se referir às travestis que exercem papel de gênero feminino, apresentando-se trajadas como mulheres e nome idem, devemos dizer A travesti e flexionarmos todas as palavras no feminino, o mesmo se dá para as mulheres transexuais e, em oposição, os homens transexuais devem sempre ser tratados no masculino);

– serem vist@s como cidadãos/cidadãs plenos de direitos (como de deveres, como qualquer outro), já que pagantes de impostos;

– não serem agredid@s (verbal/fisícia e/ou psicologicamente) apenas e tão somente por possuírem uma identidade/papel de gênero não esperado pelos demais;

– não serem deslegitimad@s enquanto minoria e no que tange à TRANSFOBIA [ódio/repulsa/discriminação de pessoas trans* justamente por possuírem identidade/papel de gênero diferentes do esperado pelos demais];

– não serem vist@s e tratad@s como gays ou lésbicas automaticamente por serem trans*, já que papel/identidade de gênero NADA TEM A VER com orientação sexual;

– não serem vist@s como doentes (transtornados mentais) por serem travestis ou transexuais, no que cabem os esforços pela luta da despatologização das identidades trans*. A transgeneridade é mais uma das genuínas expressões da vivência e experenciação de gênero, e não uma aberração ou doença. A doença e o que coloca as pessoas trans* doentes é o preconceito e a discriminação que a sociedade lhes imputa diariamente;

– terem o direito à intimidade respeitad@s no que se refere aos próprios genitais. A velha, incômoda e mal-educada pergunta: “mas você se operou?” vinda de quem não possui intimidade para isso;

– a garantia de terem o gênero respeitado e não ser vist@ como mais ou menos mulher ou homem de acordo com o número de cirurgias que fez – dado que gênero não é algo que se constrói cirurgicamente;

– terem o direito de não verem suas experiências universalizadas e suas identidades encerradas e estereotipadas por conta do comportamento de alguns – afirmações falaciosas e/ou tendenciosas e/ou preconceituosas do tipo:

“toda pessoa transexual quer fazer uma cirurgia de transgenitalização”, ou “toda travesti é criminosa”;

– terem direito de acesso aos banheiro públicos conforme o papel de gênero que exercem socialmente e legitimamente – lembrando que as pessoas trans* se dirigem ao banheiro, na grande parte das vezes, como qualquer outro ser humano, pois possuem necessidades fisiológicas. Negar a entrada em banheiro por conta da pessoa ser trans* é um abuso e uma agressão descabidos. Não esquecer-se que mulheres trans* dentro do banheiro masculino possuem tanta possibilidade de serem agredidas e/ou estupradas como qualquer outra mulher. Se devemos preservar a segurança de todos, também devemos preservar a das pessoas trans*;

– terem o direito amplo e universal de acesso à cirurgias de transgenitalização no Brasil se necessitarem, dado que em todo o país, atualmente, apenas 4 hospitais públicos possuem uma enorme e extraordinariamente lenta fila de espera que demora anos para que uma pessoa consiga se cirurgiar. Cirurgia essa que tantas vezes significa a devolução de uma vida plena para essa pessoa;

– terem o direito amplo e universal de acesso à cirurgias de retirada de silicone industrial do corpo, dado que grande parte das pessoas que o possuem, fizeram uso do mesmo por incríveis pressões sociais que impediram que fossem contratadas pelas empresas formais e as obrigaram a se adequar às exigências do mercado da prostituição; também dado a deficiência/inexistência e os altos preços das cirurgias de feminilização/masculinização no país;

– passarem a ter o direito de acesso cirúrgico respeitado não mais como capricho ou estética. Possuir um par de seios para uma mulher trans*, grande parte das vezes é o mesmo que devolver um par de seios a uma mulher que o perdeu para um câncer, assim como há uma extrema importância da mamoplastia masculinizadora para grande parte dos homens trans*;

– terem acesso amplo e universal na rede pública à endocrinologistas que saibam e conheçam as especificidades do corpo das pessoas trans* no que concerne o uso de hormônios, que em grande parte dos casos readequam o corpo da pessoa de forma que ela se sinta legitimada por ele;

– terem garantida a permanência nas escolas, por meio de ações e programas que visem combater a transfobia – o respeito inclusive por professores e gestores em função da identidade de gênero e o nome social das pessoas trans*;

– terem programas que visem a promoção e inclusão de pessoas trans* no mercado de trabalho, que é extremamente preconceituoso e nega emprego para essas pessoas, dado que grande parte das vezes as associam à marginalidade e ao crime;

(…)

Se levarmos em conta que transexuais e travestis são os principais alvos de violência, discriminação e assassinatos dentro do grupo LGBT e, proporcionalmente é o grupo mais vulnerável, descobriremos que ações de proteção à segurança e dignidade dessas pessoas são urgentes.

Pela luta contra a TRANSFOBIA, pela luta da visibilidade trans.

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