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Falácia de redução à ditadura socialista
Para quem usa a falácia de redução à ditadura socialista, até os esquerdistas pró-democracia direta são "comunistas totalitários".

Para quem usa a falácia de redução à ditadura socialista, até os esquerdistas pró-democracia direta são “comunistas totalitários”.

É um lugar-comum direitistas acusarem todo e qualquer esquerdista de supostamente compactuar com as ditaduras socialistas no século 20, em especial a soviética, a cubana e a norte-coreana. Para muitos deles, defender qualquer ideia de esquerda, como a coletivização da propriedade dos meios de produção, a conversão do Estado de repressor do povo em grande entidade servidora dos interesses populares controlada pelos trabalhadores e a democratização do sistema político para além dos limites do modelo representativo, seria atestar uma promíscua simpatia com tudo de ruim que aconteceu naqueles países. Isso caracteriza a falácia lógica de redução à ditadura socialista, que também pode ser conhecida como falácia da ditadura socialista ou, dependendo do caso, falácia de Cuba ou falácia soviética.

Essa falácia é uma mistura de vários tradicionais tipos de falácia lógico-argumentativa – falácia do espantalho, non sequitur, petição de princípio, inversão do acidente, redução ao absurdo, falácia da bola de neve, falsa dicotomia, falsa causa, apelo ao medo e apelo à consequência. Por definição, consiste em:
a) o argumentador reduzir toda e qualquer ideologia de esquerda, incluindo correntes democráticas e libertárias como o anarquismo e as vertentes socialistas pró-democracia direta, ao socialismo ditatorial do século 20, ou lhes imputar as mesmas consequências negativas das ditaduras socialistas da época;
b) imputar a toda e qualquer reivindicação de esquerda a indesejada consequência da instauração gradual ou abrupta de uma ditadura socialista de molde maoista ou stalinista;
c) considerar toda e qualquer pessoa convictamente de esquerda defensora ou cúmplice do socialismo autoritário e de suas consequências negativas.

Adota uma das estruturas lógicas abaixo:

a) X é uma ideologia de esquerda
Esquerda = Ditaduras socialistas + suas consequências negativas
Logo, defender X implica defender as ditaduras socialistas e suas consequências negativas

b) A é uma reivindicação ou bandeira de esquerda
Esquerda = Ditaduras socialistas + suas consequências negativas
Logo, defender A implica como consequência a instauração de uma ditadura socialista + todas as suas consequências negativas

c) N é uma pessoa de esquerda
Esquerda = Ditaduras socialistas + suas consequências negativas
Logo, N defende e compactua com as ditaduras socialistas e suas consequências negativas

Alguns exemplos de aplicação dessa falácia:

1. “Você é de esquerda, deve adorar a Coreia do Norte, Cuba, a União Soviética e outras tiranias comunistas (sic).”

2. “O governo do PT tá sustentando vagabundos com o Bolsa Família. Daí pra confiscar os bens dos empresários e sair doando pros pobres, estatizar suas empresas à força e tornar o Brasil uma nova Cuba, é só um pulinho.”

3. “Você diz defender bandeiras de esquerda. Será que defende o regime comunista (sic) de Cuba e da Coreia do Norte?”

4. “Graças a esquerdopatas (sic) como você, o Brasil tá correndo o sério risco de virar uma nova Coreia do Norte.”

5. “Você que critica tanto a direita e diz defender poder e liberdade pro povo, não sabia que o comunismo (sic) da sua amada esquerda é um regime tirano que matou mais de 100 milhões de pessoas? É isso que você quer pro Brasil, uma tirania comunista (sic) genocida?”

6. “Quando você critica o livre mercado, tá querendo o quê? Que o mundo todo seja igual a Cuba e à Venezuela, onde o povo morre de fome, é executado se discordar do comunismo (sic) e não tem nem papel higiênico?”

7. “Todo esquerdopata (sic) é um comunista viúvo da União Soviética.”

Segundo essa falácia, até mesmo os anarquistas e os socialistas pró-democracia direta, nenhum dos quais leva ao pé da letra a expressão “ditadura do proletariado”, seriam na verdade defensores apaixonados do socialismo autoritário que marcou diversos países no século 20 e ainda sobrevive em alguns Estados. Independentemente de a pessoa defender, por exemplo, a extinção do Estado repressor leão de chácara das grandes corporações, a igualdade de renda e a valorização da solidariedade e da coletividade as quais preservariam as liberdades individuais que fossem compatíveis com o bem-estar coletivo, todas as suas bandeiras teriam o cheio de um “comunismo” totalitário orwelliano.

Além disso, qualquer conquista da esquerda, como o desarmamento da população civil; a instauração de políticas sólidas de equidade; a taxação de grandes fortunas; a criminalização do machismo/misogonia, da transfobia e da homo/lesbofobia e a radicalização da democratização do sistema político, seria um passo adiante rumo a uma perversa ditadura “comunista” marcada pelo totalitarismo, por epidemias de fome, pelo genocídio da população, pelo assassinato deliberado de qualquer pessoa que ouse se expressar em discordância com o regime, pela censura aos valores conservadores e liberais etc. Em outras palavras, paradoxalmente a conquista e garantia de direitos e de políticas públicas sociais significaria uma posterior supressão total dos direitos básicos do ser humano.

É notório que o uso da redução à ditadura socialista revela uma franca ignorância política do seu usuário sobre os tantos aspectos que tornam o universo ideológico da esquerda muito mais do que apenas uma única categoria socialista baseada em ditadura. Reduzir todo indivíduo e ideia de esquerda à qualidade de mancomunado com o socialismo histórico é demonstrar que desconhece, ou não entende, as teorias sociopolíticas marxista e anarquista, a suscetibilidade destas a inúmeras interpretações diferentes, a grande diversidade de ideologias de esquerda contemporâneas, a robusta variedade de vertentes autointituladas socialistas – o que inclui o anarcossocialismo, o socialismo democrático, o socialismo utópico, o socialismo ricardiano, o socialismo francês clássico etc. –, a existência de todo um espectro dentro da esquerda que vai das correntes mais autoritárias (como o stalinismo e o maoismo) até as mais libertárias (como as diversas vertentes do anarquismo) etc.

Fica claro que reduzir toda uma galáxia a um único planeta é uma falácia. E o uso dessa falácia, expressadora da falsa crença de que tudo e todo mundo que seja de esquerda tem afinidade com os regimes socialistas autoritários do século 20 e suas consequências negativas, é baseado em ignorância política e na má vontade de ao menos saber o que é a esquerda política. Apenas quando seus usuários adquirirem o mínimo de conhecimento e entendimento sobre o que as diferentes correntes de esquerda têm pensado e defendido desde o colapso soviético, se darão conta de que estão usando uma falácia política que mistura diversas falácias lógico-argumentativas e, portanto, não sendo fiéis à realidade política contemporânea.

 

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11 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Beto Fernandes

julho 12 2016 Responder

A culpa disso é da ditadura e sua O$PB.

Oneide Teixeira

agosto 21 2015 Responder

Mostre me qual corrente de esquerda não é baseado no marxismo.
Socialismo sempre vai resultar em uma ditadura.

    Robson Fernando de Souza

    agosto 21 2015 Responder

    Anarquismo (todas as suas vertentes), socialdemocracia, socialismo utópico etc.

Marcos

julho 29 2015 Responder

Não existe socialismo sem regime ditatorial porque esse modelo é um crime e todo crime só se consegue a força, ninguém vai doar sua propriedade, seu capital. Então não é falácia nenhuma quando dizemos que pessoas de esquerda apóiam as ditaduras, é fato, uma coisa leva a outra.

    Robson Fernando de Souza

    julho 30 2015 Responder

    Parabéns por cometer exatamente a falácia que o texto descreve, ao reduzir toda e qualquer esquerda a socialismo ditatorial. Isso sem falar nas outras falácias nas quais vc cai (pergunte quais são e responderei).

André Rosas

maio 16 2015 Responder

Quanta desonestidade intelectual!! Explicitar tecnicas de manipulação do discurso nao os fazem intelectualmente superiores à direita, muito pelo contrario, demonstram ser tão inseguros quanto.

Marcelo

julho 29 2014 Responder

Com a devida permissão, não diria “todo e qualquer esquerdista”, mas boa parte daqueles que alimentam o politicamente conveniente simpatiza e/ou simpatizou com algum tipo de regime autoritário.
Gostaria de aproveitar o ensejo para solicitar aos pensadores do blog que citem um exemplo de nação que tem o anarquismo como forma de governo, por exemplo.
Se não for pedir demais, pelo menos dois exemplos de entidades servidoras controladas pelos “interesses dos trabalhadores” (peço que não usem os sindicatos como exemplo – pelo menos em um sistema como o brasileiro).
Gostaria, sinceramente, que os nobres autores deste artigo vivessem, de fato, em uma sociedade “igualitária” como a cubana. É sério senhores, vivam a experiência. Desejo, de todo coração que vivam isso. Sem hipocrisias.
Uma coisa é combater um capitalismo selvagem, controlar o livre mercado e a desregulamentação. Mas combater a livre iniciativa, as liberdades individuais (liberdades que lhes permitem, inclusive, pregar a intolerância a quem ouse discordar do que pensam) jamais devem ser suprimidas em nome do seu “coletivo”.
É certo que existem diferentes “níveis” de esquerdistas – como também existem diversos “níveis” de direitistas. A tolerância recíproca (com pouca, alguma, ou nenhuma coisa em comum),é um dos requisitos para se ter um país efetivamente democrático.
Agora, uma coisa é certa. De minha parte, jamais concordarei com a “tolerância” dos intolerantes do politicamente conveniente.

Danilo Henrique

janeiro 29 2014 Responder

Com certeza, reduzir todo o discurso da esquerda ao “comunismo totalitário” do século XX é uma precariedade intelectual semelhante àqueles que não sabem distinguir o liberal clássico de um conservador.

Existem diversas ramificações nos discursos da dita “esquerda” e devem ser analisadas de forma mais ampla.

No entanto ressalvo que a esquerda mantém um valor em geral: A sobreposição de valores humanos abstratos e coletivos aos valores materiais e individuais!

Acredito que qualquer refutação das teses da esquerda deva levar em consideração as refutações lógicas desse valor, e o que passar disso deve ser feito analisando a vertente específica que está em discussão!

Professor Morôni

janeiro 23 2014 Responder

Nós da Esquerda Democrática passamos muito por isso… =(

Kreator

janeiro 23 2014 Responder

Muito bonito o texto, mas a questão principal é, como promover a igualdade econômica sem um poder ditatorial, sem fazê-la à força?

É infantil acreditar que num “Socialismo Democrático” os proprietários dos meios de produção (usando jargão marxista) abrirão mão do que possuem, pacificamente, bem como as pessoas razoavelmente instruídas abrirão mão de ascender socialmente via acúmulo de riqueza.

Segundo a maior parte dos liberais, taxados simplisticamente de “direitistas”, o livre-mercado é um requisito básico para que as pessoas sejam livres e qualquer ataque às liberdades econômicas (via Comunismo, “Socialismo Fabiano” ou Social Democracia) é rechaçada com bastante hostilidade, pois mesmo a simples cobrança de impostos para uma bem-intencionada “redistribuição de renda” é considerada roubo de trabalho, de novo, feita à força por um Estado.

Como sem um Estado autoritário, forte ou ditatorial, convencer essas pessoas a desistirem do que acreditam, desistirem de suas posses ou parte de seu trabalho?

A mesma redução simplista às supostas várias vertentes da Esquerda política que teu texto afirma existir também acontece do outro lado do espectro político, com a mesma proporção, com a mesma ignorância.

    Robson Fernando de Souza

    janeiro 23 2014 Responder

    Essa questão é discutida há décadas, e há pessoas que mostram possíveis soluções, mas estão longe da unanimidade. E isso não é algo que vai ser resolvido numa revolução de poucas semanas de duração, mas sim, talvez, ao longo dos próximos séculos ou décadas, caso a humanidade sobreviva.

    Se bem que, arriscando aqui estar incorrendo em tu quoque, o capitalismo não precisa nem mesmo do uso da força pra aprisionar as pessoas no seu sistema. Ou precisa, através da polícia e dos capangas e pistoleiros a serviço de latifúndios e empresas.

Sua opinião é bem vinda, desde que respeitosa. Fique à vontade para comentar abaixo