25

jan14

O problema de desejar segurança sem paz

rota-pcc

É comum, entre pessoas com mentalidade conservadora, exigir-se “mais segurança” a todo custo, mesmo que seja muitas vezes uma exigência paliativa, que apenas dê sensação de proteção. Geralmente demandam mais polícia, quali e quantitativamente falando, e negligenciam a cobrança por políticas de inclusão social e a necessidade de se substituir a cultura de violência e egoísmo por uma de paz e empatia. Mas a História nos tem ensinado que só aumentar o poder policial, sem esvaziar os motivos e o valor subjetivo das ações violentas, é inócuo em diminuir as agressões e atentados contra a vida humana (e a não humana). Pelo contrário, pode tornar ainda pior o cenário de violência e criminalidade vigente. Em outras palavras, o securitarismo conservador, por demandar segurança sem paz, torna a sociedade em geral ainda mais vulnerável aos crimes violentos, e não mais segura.

É paradoxal querer que a violência na cidade e no campo diminua sem que os motivos de sua existência sejam erradicados. Não é diferente de desejar uma sociedade solidária que valorize o “ser” ao invés do “ter” sem que se questione o capitalismo que, o tempo todo, incita a competição, inclusive predatória, e a sobrevalorização do acúmulo de posses materiais.

Um exemplo disso é o tráfico de drogas. Se há gente comercializando ilegalmente drogas pesadas, é porque existem causas tanto para ser considerado atrativo vendê-las como para que continue havendo demanda por elas. Numa sociedade ideal, ninguém veria motivos para se tornar traficante, nem para produzir ou comprar heroína, crack, cocaína etc. É ingenuidade acreditar que a pura força policial vai, por si só, esvaziar a motivação dos produtores e traficantes de narcóticos em continuar com seu “trabalho” e a dos usuários em comprá-los e consumi-los.

Entre os motivos que levam pessoas a trabalhar com drogas pesadas e/ou consumi-las, estão a falta de perspectivas de trabalho suficientemente remunerado e protegido por direitos, a necessidade psicológica de se aliviar o sofrimento de uma vida cheia de privações – como a de afeto familiar e a de condições socioeconômicas de ter uma vida minimamente digna –, a imagem do crime e do porte de armas enquanto meio de o indivíduo adquirir o mínimo de poder e capacidade de reação perante uma sociedade que sempre o rejeitou, a escassez de acessíveis opções de lazer e meios de manifestação cultural – os quais poderiam aliviar muito as angústias de uma vida sem amor nem perspectiva e dar uma oportunidade de ganhar uma razão de viver e uma fonte não violenta de renda –, o valor capitalista de colocar o ganho de dinheiro acima de qualquer princípio ético etc.

É absurdo acreditar que, sem que essas causas deixem de existir, o narcotráfico, junto com todas as violências inerentes à sua amoralidade e ilegalidade, vai deixar de ser atraente e vai sucumbir apenas pelo fato de ser ilegal e punido com prisão – ou com pena oficiosa de morte – pela polícia. É o mesmo que crer que a ação dos parabrisas, de enxugar o vidro dianteiro do carro, vai fazer com que a chuva pare e nunca mais volte a cair.

Outro caso a ser enfatizado é o estupro. A sociedade machista-patriarcal incentiva que homens assediem e violentem sexualmente as mulheres, através da inferiorização moral da mulher, da objetificação sexual do corpo feminino, da cultura de responsabilizar a vítima e inocentar o estuprador, do tratamento da mulher como posse de um homem ou propriedade pública dos homens, entre tantos outros meios que tornam a violência sexual socialmente aceita entre os homens machistas. Não adianta a polícia prender, digamos, algumas centenas de estupradores quando milhões foram ensinados que estuprar é “certo”. Tampouco funciona tentar acabar com o crime de estupro sem que os homens aprendam a respeitar de verdade as mulheres e a considerar antiética e condenável toda e qualquer violação dos direitos delas.

Da mesma forma, os assaltos – frequentemente associados com a compra e consumo de drogas pesadas –, os estelionatos, os furtos e roubos etc. têm causas sociais, e também culturais, que não vão ser eliminadas com ação policial. Como foi dito, o securitarismo pode, por alguns instantes, drenar o vidro do carro, mas não irá acabar com a existência das chuvas, nem mesmo impedir que, uma fração de segundo depois, mais gotas caiam em cima do vidro.

Sem políticas de inclusão social e cultural e sem uma educação que mude valores corrosivos, a tendência é que cada vez mais pessoas sejam submetidas a vidas repletas de privações e ódios e socializadas na cultura de violência e, como consequência lógica, engrossem o número de cometedores de crimes. E esse crescimento polícia nenhuma vai ser capaz de deter por conta própria.

Se por uma lado restringir-se a demandar “mais segurança”, “mais polícia”, “mais rigor da força da lei”, “menos respeito e mais dureza contra os vagabundos (sic)” é inócuo em diminuir aceitavelmente a ocorrência de crimes contra a vida, por outro lado dá à polícia um poder tamanho que passa aos policiais a sensação de estarem acima da lei. Afinal, se as leis ocasionalmente funcionam, é em função do trabalho deles, são eles que as fazem acontecer, e nada os impedirá de levar às últimas consequências o atributo de impositores da lei.

Recebendo poderes ainda mais radicais do Estado – como no caso da PM de São Paulo, que recentemente recebeu a promessa de que o poder público vai “premiar os policiais que vão além (sic) do cumprimento do seu trabalho” no cumprimento de metas de diminuição de homicídios, roubos e furtos de veículos e assaltos –, os policiais tenderão a usar a força de maneira ainda mais descabida, considerando-se que tudo que têm para diminuir a violência civil são justamente a força física dos músculos e das armas e a consequente capacidade de instigar o terror psicológico.

Somando-se à socialização de grande parte deles numa cultura repleta de valores violentos, preconceituosos, egoístas e até mesmo sádicos, isso abre o caminho para casos nada isolados de abuso de autoridade e outras violências que farão dos próprios policiais agentes do crime. Daí é de se esperar a ocorrência de mais expedições de extermínio, prisões e assassinatos arbitrários – inclusive de pessoas inocentes –, violência de fundo racista e classista, aplicações clandestinas de pena de morte etc.

Com isso, temos uma sociedade não só com mais criminosos civis, mas também com mais bandidos de farda, além de um sistema sociocultural que incita o tempo todo que se promova a violência para se exercer poder sobre outras pessoas, obter-se bens materiais, vingar-se da rejeição social e/ou familiar, livrar-se da miséria etc. Saem perdendo, com isso, todas as classes sociais, mas as mais pobres perdem muito mais, por serem as vítimas “preferidas” da maioria dos criminosos militares e civis. Como esperar menos crimes violentos diante disso?

Desejar segurança é uma demanda válida, mas expressar esse desejo através do securitarismo, por clamar por segurança acima de tudo, é um erro grave. É reivindicar ordem sem que sejam sequer tocados os motivos da desordem. É querer ver a não violência acontecer espontaneamente numa sociedade dirigida por valores violentos. É demandar segurança sem paz. Portanto, a atitude de todo aquele indivíduo de gritar por mais polícia e mais repressão contra o crime e, ao mesmo tempo, defender a conservação do sistema vigente e de seus cruéis valores acaba sendo, em parte, responsável pela perpetuação e agravamento do quadro de violência em sua cidade, sua região e seu país. Em outras palavras, desejar segurança sem cultivo da paz é contribuir justamente para a piora da insegurança.

imagrs

Seja a primeira pessoa a comentar

Sua opinião é bem vinda, desde que respeitosa. Fique à vontade para comentar abaixo