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jan14

Por que a Educação Ambiental tradicional não funciona com pessoas sob vulnerabilidade social
Pessoas em situação de risco social não vão ter disposição de pensar sobre a Mata Atlântica ou a poluição dos rios enquanto estão com medo de apanhar de maridos machistas ou tudo o que querem no momento é sum simples prato de comida.

Pessoas em situação de risco social não vão ter disposição de pensar sobre a Mata Atlântica ou a poluição dos rios enquanto estão com medo de apanhar de maridos machistas ou tudo o que querem no momento é um simples prato de comida.

Agradecimento especial à minha namorada Danielle, que me forneceu a ideia central deste artigo

Fala-se muito em levar a Educação Ambiental aos mais pobres e a outras parcelas da população em situação de risco social, de modo que ajustem seus hábitos cotidianos para que estes se tornem mais “ecoamigáveis” . Mas geralmente essa EA que se sugere estender a essas pessoas, conservacionista e individualista, não é adequada à vida delas, por sua incompatibilidade com a dura (sobre)vida que levam e por ser excludente – uma vez que não reconhece seus problemas sociais e a ligação destes com a própria questão ambiental.

 

As limitações sociais da Educação Ambiental convencional e o sobrevivencialismo das pessoas em situação de risco social

Até tenta-se com alguma frequência significativa trazer conteúdo educativo com temática ambiental para as camadas mais vulneráveis da população, através de panfletos, comerciais de TV, programas televisivos e trabalhos escolares que visem alcançar os pais dos alunos que deles participam. De tempos em tempos, aumenta o conteúdo de sensibilização ambiental ao alcance das massas, de modo que “todos” possam saber que há muitos paraísos ecológicos por aí ameaçados pela ação humana e as diversas formas de poluição e de gasto irracional de recursos naturais são uma ameaça não só aos ecossistemas, mas também à qualidade de vida de todos.

Mas, pelo que se vê por aí, pouco tem sido visto de avanços nos hábitos individuais das pessoas. As ruas e galerias de escoamento pluvial continuam repletas de lixo; a poluição dos corpos d’água não diminui; as próprias galerias pluviais e canais, cuja função original seria levar a água da chuva das ruas aos rios e mares, não estão sendo menos invadidos do que antes por fluidos de esgoto e cargas de lixo; áreas florestais remanescentes próximas de áreas suburbanas continuam sendo molestadas, pouco a pouco desmatadas pelo avanço das ocupações irregulares. Ou seja, essa Educação Ambiental de massa não tem surtido muito efeito.

Isso pode ser explicado pela própria situação de risco social dessas pessoas, entre elas famílias castigadas e degradadas pela violência doméstica de homens machistas contra esposas e crianças; pessoas em estado de miséria socioeconômica; famílias em crise financeira; famílias desprovidas de bens básicos, como um lar e/ou uma roça para trabalhar; famílias com um ou mais integrantes castigados pelas drogas; trabalhadores em empregos exaustivos e mal remunerados – sejam eles formais ou informais – etc.

Elas mais sobrevivem do que vivem. Estão essencialmente preocupadas em continuar vivas e com o mínimo de integridade física e psicológica – e muitas vezes essa integridade está em falta, no caso de pessoas fisicamente desgastadas por uma vida de trabalhos pesados e mal remunerados e/ou com distúrbios psiquiátricos, como depressão, ansiedade generalizada, síndrome do pânico e estresse crônico. Muitas vezes vivem sob ameaça de policiais corruptos, traficantes, milícias e outros criminosos.

Sua “filosofia” de vida é o sobrevivencialismo, é basicamente fazer o possível para continuarem vivos, e isso lhes tira a disposição de pensar se o óleo de cozinha que jogam na pia está poluindo corpos d’água, ou se o lixo que depositam na esquina não está separado em materiais recicláveis e não recicláveis. É juntar o pouco que ganham de dinheiro para comprar um pouco de comida para a semana inteira, ou o mês inteiro. É ir à igreja com o desejo de que Deus alivie um pouco o sofrimento do dia-a-dia e livre sua comunidade do tráfico de drogas.

Pessoas nessa situação não têm como desviar, por um instante que seja, de sua preocupação em permanecerem vivos, sãos e inteiros, para pensar na coletividade, nos problemas que afligem a humanidade e a biosfera que a inclui. Não têm condições de pensar, por exemplo, que as mudanças climáticas podem causar graves danos à vida na Terra ao longo do século 21. Entre um prato de comida e um livro de ensinamentos ambientais, não vão pensar duas vezes antes de escolher o primeiro e achar que o segundo é algo supérfluo para suas vidas.

Observando-se essa triste realidade de milhões de pessoas pelo Brasil e bilhões pelo mundo, percebemos que o que o apresentador na TV fala no Dia Mundial do Meio Ambiente ou o panfleto da prefeitura ou da escola das crianças fala no Dia da Árvore entra por um ouvido ou olho e sai pelo outro. Isso porque esses ensinamentos conservacionistas e individuais não vão muito além do conservacionismo e do individualismo, não consideram a pobreza e o sistema opressor que a origina como problemas diretamente associados à degradação ambiental que os programas de TV e os panfletos institucionais tentam em vão convencer as pessoas a diminuírem.

Esses ensinamentos conservacionistas, unidimensionais que são, não enxergam as associações diretas e indiretas entre a problemática ambiental e os fatores que a perpetuam, a aumentam e inibem a tomada de consciência pela maioria das pessoas. Entre eles, estão incluídos o machismo que violenta mulheres e as faz pensar apenas em continuar vivas, a hierarquia social que joga milhões de seres humanos em favelas e em ocupações de áreas de proteção ambiental, a exploração dos trabalhadores que lhes tira o tempo de buscar conhecimento por conta própria, o sistema explorador que joga muitas pessoas no vício em álcool e drogas pesadas e/ou na criminalidade e assim destrói lares e famílias, o fato de o mesmo sistema condenar bilhões de pessoas a uma vida sobrevivencialista etc.

Todos esses problemas tanto impedem as pessoas de terem tempo e disposição para se atentarem às iniciativas convencionais de educação ambiental e atenderem a seus ensinamentos, como as condenam a uma perpétua luta pela sobrevivência na qual não têm condições de se importar se estão contribuindo para degradar o meio ambiente. Em outras palavras, miséria, opressão contra minorias políticas, injustiças capitalistas, violência policial, criminalidade, tudo isso é intimamente ligado à questão da degradação ambiental.

Enquanto essa problemática continuar reinando na sociedade, não haverá educação ambiental convencional que convença as pessoas em situação de risco social a separarem o lixo, a juntarem o óleo usado em garrafas pet, a doarem dinheiro a ONGs conservacionistas, a participarem de passeatas contra hidrelétricas invasoras e destruidoras de florestas etc. Sem direitos básicos assegurados, não poderão de jeito nenhum atuar conscientemente em prol da sustentabilidade, e, enquanto isso, continuará vigente a impressão coletiva de que “ambientalismo é coisa de classe média e de burgueses”.

 

Proposta de solução para a inclusão socioambiental das pessoas em risco social

Isso deixa mais do que claro: precisa-se superar, o quanto antes, a tradição da educação “ambiental sem ser social”, até porque o que é ambiental também é social, e vice-versa, senão não é propriamente ambiental, mas sim conservacionista. A velha educação individual-conservacionista precisa dar lugar a um novo paradigma de Educação Ambiental, revolucionário, que incorpore o legado de Tbilisi-77 e da Rio-92 e reconheça que visar uma sociedade sustentável é lutar por justiça socioambiental, por direitos humanos, sociais, políticos e ambientais para todos os seres humanos.

Para tanto, a Educação Ambiental precisa dialogar diretamente com os movimentos sociais, ouvir as pessoas – em especial aquelas em situação de risco social –, (re)conhecer as necessidades mais urgentes delas – como comida suficiente todos os dias; paz familiar; o fim do patriarcado e da violência doméstica que ele causa; e o enfrentamento das hierarquias que inferiorizam mulheres, pobres, negros, crianças, LGBTs etc. – e, finalmente, trabalhar todas as associações entre essas demandas e o ideal da sociedade sustentável.

E logo em seguida, os educadores ambientais precisarão incorporar métodos pedagógicos populares e libertários, que façam essas pessoas reconhecerem que podem sim lutar por uma vida melhor ao mesmo tempo para elas e para a coletividade, não tendo que se restringir para sempre a uma (sobre)vida extremamente sofrida e cheia de privações e violências.

Então, se tudo der certo nesse sentido, as veremos perceber que podem sim mudar sua própria vida a partir do momento em que aderirem, por exemplo, a grupos de mulheres vítimas de violência doméstica engajadas contra o patriarcado e pelo empoderamento feminino, a movimentos de sem-teto e sem-terra, a associações culturais de jovens em tratamento contra a dependência química, a cooperativas de trabalhadores, a grupos de esquerda defensores do aprofundamento da democracia e da descentralização do poder político etc.

Todos esses grupos trabalharão também questões socioambientais locais, como a poluição dos corpos d’água da região pelas casas e empresas que os margeiam, as tentativas de privatização de patrimônios ambientais, as investidas de latifundiários de se apropriarem de pequenas propriedades e desmatarem ecossistemas próximos, a concentração fundiária no município onde vivem, a falta de saneamento básico etc.

Com isso, caso tudo dê certo, veremos a ascensão de uma crescente consciência socioambiental libertária, que vai clamar pela adesão de movimentos políticos, sociais, comunitários e ambientalistas. E a Educação Ambiental revolucionária vai manter essa efervescência social-política-ambiental forte, chamar cada vez mais pessoas para adesão e aprimorar os conhecimentos daquelas já envolvidas. Os resultados serão algo que nenhum programa de TV ou campanha de panfletagem da prefeitura ou da escola do bairro sequer sonha em almejar.

 

Considerações finais

Do jeito que está sendo promovida, a Educação Ambiental, essa vinda de campanhas conservacionistas escolares, folhetos governamentais e programas de TV, nunca irá conscientizar as pessoas em situação de vulnerabilidade social. A vida delas, repleta de privações, violências e negações de direitos, dá uma prioridade praticamente exclusiva à sobrevivência, a continuarem vivas, com sanidade e com um mínimo de saúde física.

Nenhuma mulher vítima de violência doméstica irá pensar na separação do lixo enquanto treme de medo de que o marido misógino e alcoólatra mais uma vez chegue bêbado em casa e a agrida. Nenhuma criança em situação de miséria irá aceitar ganhar um livro de educação ambiental, por mais bonito que seja, quando há a opção de ganhar um almoço decente. Nenhum sem-teto poderá se preocupar em não jogar lixo no chão enquanto está vagando pela cidade depois de ter sido expulso pela polícia da praça onde havia se alojado.

Só será possível fazer essas pessoas adquirirem o mínimo de consciência ambiental quando a mesma educação que tenta lhes conscientizar da importância de contribuir para uma sociedade sustentável lhes trouxer um mínimo de perspectiva de inclusão social, através do estímulo à associação em grupos que atendam diretamente às suas tão urgentes demandas.

Em outras palavras, introdução de conhecimento ambiental sem inclusão social não dá certo. E isso os educadores ambientais precisam perceber e trabalhar, de modo que a tradicional EA focada na conservação e na ação individual cotidiana saia de cena e dê lugar à Educação Socioambiental, que inclua socialmente as pessoas, faça valer seus direitos e as transforme em atores da história socioambiental da humanidade.

imagrs

3 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Salatiel

abril 15 2015 Responder

Gostei muito de seu blog. Acredito que necessitamos pensar a EA de forma crítca e não ingênua.

    Robson Fernando de Souza

    abril 15 2015 Responder

    Obrigado, Salatiel =)

mariana fuzaro

janeiro 12 2014 Responder

Até que enfim uma consideração decente sobre o assunto. Certas pessoas parecem ignorar que, enquanto uma pessoa não tiver dinheiro para comprar comida, não vai peregrinar de ônibus para exigir seus direitos, e sem seus direitos básicos, mulheres preocupadas apenas em não irritar seus maridos, pessoas com depressão que mal conseguem levantar da cama e pessoas que não conseguem emprego por terem problemas mentais jamais poderão pensar em outra coisa senão na própria sobrevivência. depois acusam essas pessoas de serem vagabundas e irresponsáveis. Enquanto isso, ignora-se a raiz do problema, não sei se por ignorância de quem não faz idéia da situação ou preguiça.

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