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jan14

Reflexão socioambiental sobre uma discussão do caso de Parelheiros, em São Paulo
Vargem Grande, bairro do distrito de Parelheiros, extremo sul de São Paulo

Vargem Grande, bairro do distrito de Parelheiros, extremo sul de São Paulo

Pouco tempo atrás, eu fui ler uma discussão, num fórum de internet cujo tema é transporte ferroviário, sobre se o distrito de Parelheiros, no extremo sul da cidade de São Paulo, deveria receber uma extensão da Linha 9 do sistema metropolitano paulista de trens urbanos, que atualmente vai até o distrito de Grajaú, e a expansão dos serviços de infraestrutura (água, eletricidade, esgoto, transporte público etc.). Alguns disseram que sim, já que a população distrital já passa dos 150 mil habitantes e assim se tornou permanente, enquanto outros frisam que não deveria, por aquela comunidade se tratar de uma “invasão” de área de preservação ambiental e o ideal seria todos serem despejados de lá para que a área onde hoje moram fosse devolvida à floresta.

A argumentação dos que tacham Parelheiros de “invasão que deveria ser desapropriada” caracteriza o que se chama de “ecofascismo”, ou “ambientalismo” autoritário, que consiste em separar violentamente as causas ambientais de seu background social e impor à força uma ordem ecológica tal que não reconhece a humanidade como uma parte sua. Trata o ser humano como uma parte inferior da vida na Terra, ao invés de igual aos demais seres, como um câncer em crescimento que deve ser extirpado, e usa uma concepção naturalista, totalmente não humana, de Natureza e meio ambiente.

Nada mais inadequado para se abordar o problema ambiental. A origem da comunidade de Parelheiros teve raízes socioambientais, e sua resolução deverá ter caráter socioambientalista. Não é com a negação da cidadania aos habitantes dali que o problema ambiental daquela região vai ser solucionado.

Forista esbanja ecofascismo, lamentando que o governo promova infraestrutura em bairros originados de ocupação irregular de áreas florestais. Clique na imagem para vê-la em tamanho completo

Forista esbanja ecofascismo, lamentando que o governo promova infraestrutura em bairros originados de ocupação irregular de áreas florestais. Clique na imagem para vê-la em tamanho completo

Não conheço o suficiente o conjunto de problemas socioambientais dos moradores daquela região, mas posso dizer, com algum embasamento, que o melhor a se fazer será transformar o distrito em questão numa experiência de comunidade sustentável, pela qual tanto os habitantes locais se beneficiem com os serviços ambientais disponibilizados pela Mata Atlântica do entorno da Serra do Mar como as atividades humanas dali beneficiem, de alguma forma, o ambiente como um todo, ou pelo menos os impactos ambientais negativos da ação antrópica local sejam reduzidos a um patamar mínimo, criando uma simbiose entre as parcelas humana e não humana da Natureza local.

Desejar a desapropriação de Parelheiros é não só um ecofascismo que, caso fosse posto em prática, ameaçaria a dignidade e os direitos dos seus moradores, como também um notável elitismo, tendo uma grande carga de ódio de classe, já que dificilmente os mesmos ecofascistas que são contra a permanência dos moradores ali teriam essa mesma posição se houvesse ali um bairro “nobre”, um agrupamento de mansões e casarões habitados por pessoas endinheiradas.

Os defensores da extinção do bairro falam, nesse fórum, que devem ser impedidos novos assentamentos em zonas de preservação ambiental, mas ignoram as causas deles. Se por um lado a ocupação de áreas de mata precisa ser prevenida ou bastante controlada, pelo outro deve-se saber que esse problema tem origem social e não há medida governamental possível que impeça isso sem tratar a raiz do problema, que é a debilidade das políticas públicas de habitação, inclusão social e gestão de unidades de conservação.

Se há moradores ocupando ilegalmente áreas verdes, não é por perversidade ou psicopatia ambiental da parte deles, mas sim porque não há oportunidades de moradia e trabalho em locais legalizados que beneficiem essas pessoas. E se essa ocupação tem proporcionado desmatamento, poluição e outras formas de degradação ambiental na localidade, é porque os ocupantes não tiveram contato com uma Educação Ambiental orientada para o usufruto racional e sustentável dos recursos naturais locais, tampouco foram capacitados para trabalhos silvicultores que ao mesmo tempo promovam a manutenção da integridade do ambiente local e lhes deem sustento financeiro.

Mais ecofascismo, com direito a reacionarismo, chamar os parelheirenses de "invasores" e lamentando a resistência dos moradores perante ações de "reintegração de posse" de terrenos ociosos. Clique na imagem para vê-la em tamanho completo

Mais ecofascismo, com direito a reacionarismo, chamar os parelheirenses de “invasores” e lamentando a resistência dos moradores perante ações de “reintegração de posse” de terrenos ociosos. Clique na imagem para vê-la em tamanho completo

Desejar que a força policial despeje os parelheirenses na base da violência, em nome da preservação ambiental e da restauração integral da mata atlântica da localidade, é cair no vício de considerar “natural” e “ambiental” apenas aquilo que não é humano – a flora, a fauna silvestre e os elementos abióticos (ar, solo e água) – e alienar o ser humano da qualidade de parte integrante e dependente da Natureza.

Além disso, tal desejo, se fosse realizado, não só seria uma violenta violação dos Direitos Humanos daquelas pessoas e uma negação idem da cidadania e dignidade delas, como também passaria muito longe de resolver o problema das ocupações ilegais e desordenadas de áreas florestais em São Paulo. Se o uso da força contra ocupações irregulares nunca conseguiu resolver tal problema, agravando-o e transferindo-o para outras regiões ao invés, isso não será diferente se o pretexto usado passar a ser a preservação ambiental. Os moradores iriam ficar desabrigados e desamparados e nada, nada mesmo, impediria que outras pessoas ocupassem o local.

Na inviabilidade ética e prática de desapropriar o distrito de Parelheiros e impedir pela força novos assentamentos clandestinos em áreas verdes, cabe ao poder público paulista(no) aprender como se promove políticas socioambientais e se leva a sério o triângulo da sustentabilidade ambiental-social-econômica, e então implantar um plano piloto de economia local sustentável, pelo qual todos ali envolvidos sejam beneficiados, desde os moradores até a fauna e flora locais.

O mesmo também precisa desenvolver uma política permanente de habitação popular, o que incluiria desde a construção de novos conjuntos residenciais até a ocupação de domicílios ociosos, assim como desenvolver de forma inclusiva e não elitista a economia local e o lazer ao ar livre no entorno dessas residências, para que só assim a população paulistana não sinta mais a necessidade de se assentar irregularmente em áreas de preservação, e os habitantes de Parelheiros sejam totalmente incluídos na infraestrutura urbana de São Paulo.

Outro forista deseja desocupação completa do bairro e desrespeita frontalmente os parelheirenses. Clique na imagem para vê-la em tamanho completo

Outro forista deseja desocupação completa do bairro e desrespeita frontalmente os parelheirenses. Clique na imagem para vê-la em tamanho completo

Outro lamenta que a Prefeitura de São Paulo tenha construído uma parte da infraestrutura básica para o distrito, ao invés de ter expulsado todos os milhares de moradores e lhes deixado desabrigados e sem norte. Essa é a face mais absurda do "ambientalismo" autoritário, que separa violentamente o ambiental do social e promove o ódio aos pobres. Clique na imagem para vê-la em tamanho completo

Outro lamenta que a Prefeitura de São Paulo tenha construído uma parte da infraestrutura básica para o distrito, ao invés de ter expulsado todos os milhares de moradores e lhes deixado desabrigados e sem norte. Essa é a face mais absurda do “ambientalismo” autoritário, que separa violentamente o ambiental do social e promove o ódio aos pobres. Clique na imagem para vê-la em tamanho completo

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Tatiana Guimarães

setembro 18 2015 Responder

O povo fala demais! Pra começar, o bairro não é “invadido”, foi loteado pelo proprietário anterior, sendo COMPRADO. Não posso falar por todos, mas garanto que a maior parte pagou e, estamos falando de muita gente! O bairro é novo e têm de tudo nele. Desde farmácias, mercados à lojas de roupas e calçados… Existem construções de casas muito confortáveis e bonitas no Vargem Grande. Muitos moram por opção, pois é distante do Centro, da poluição, do trânsito, enfim…um bairro tranqüilo, com ares de interior. Sou contra ” pessoas ” que se consideram a inteligência em pessoa ao falarem de um lugar que nem conhece, que nunca passou perto. Temos que manifestar nossas opiniões e convicções sobre lugares que conhecemos, que já visitamos, pelo menos. Aqui é tão ruim que estatisticamente falando, cresce à cada dia a procura por terrenos e casas para moradia própria… Porquê será???

A.N.

janeiro 4 2014 Responder

“Não conheço o suficiente o conjunto de problemas socioambientais dos moradores daquela região, mas posso dizer, com algum embasamento, que o melhor a se fazer será transformar o distrito em questão numa experiência de comunidade sustentável”

Isso não dá certo, isso não será feito, e a se esperar alguma resolução do governo do estado ou da prefeitura nesse sentido, toda a mata de São Paulo sumirá. Na Serra também pode-se ver muitas e muitas áreas de invasão de Mata Atlântica.

Daí você me diz: “Trata o ser humano como uma parte inferior da vida na Terra, ao invés de igual aos demais seres”. Ah, claro, e deixar as pessoas invadir lá, tomar a casa de outros animais e defender somente os humanos não é ecofascismo?? Os humanos que invadiram são os agressores, tem que se defender o que está sendo agredido, não pode se defender, está em menor número e corre risco de sumir: os traços de resto de mata que sobraram no estado de SP. Você tem uma visão muito antropocentrista nesse texto. Mesmo que se faça alguma educação ambiental (que não tenho fé que acontecerá, como não tenho fé que o Estado algum dia terá de fato alguma preocupação séria ecológica), isso não é nem de longe algo bom pra mata, seria apenas uma destruição “menos pior” pra vida natural que já existia e foi agredida.

    Robson Fernando de Souza

    janeiro 4 2014 Responder

    “Ah, claro, e deixar as pessoas invadir lá, tomar a casa de outros animais e defender somente os humanos não é ecofascismo?? Os humanos que invadiram são os agressores, tem que se defender o que está sendo agredido, não pode se defender, está em menor número e corre risco de sumir: os traços de resto de mata que sobraram no estado de SP. Você tem uma visão muito antropocentrista nesse texto.”

    Você leu (e compreendeu) o texto inteiro?

      A.N.

      janeiro 5 2014 Responder

      Eu sei que você “namora” com o anarquismo. Você confia mesmo no Estado pra tomar essas medidas que propôs?? Por exemplo “se leva a sério o triângulo da sustentabilidade ambiental-social-econômica, e então implantar um plano piloto de economia local sustentável, pelo qual todos ali envolvidos sejam beneficiados, desde os moradores até a fauna e flora locais.”

      Pra mim, o Estado nunca fará isso, a única forma de o Estado salvar pro futuro o pouco que resta de mata é usando a força pra impedir a ocupação. Realmente, é das piores soluções que tem, mas ou faz-se isso ou perder-se-á toda a mata dali, porque qualquer outra solução séria não será adotada. É uma visão pessimista, mas eu considero realista.

        Robson Fernando de Souza

        janeiro 5 2014 Responder

        A reivindicação ao Estado é algo mais pro ideal mesmo, que os movimentos ambientalistas deveriam se empenhar diuturnamente em fazer. E os movimentos ecoanarquistas hoje ainda são diminutos e malvistos demais pra tomar qualquer providência de tornar Parelheiros um modelo experimental de comunidade sustentável.

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