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Rodrigo Guimarães Nunes: Três motivos para não dizer “nem esquerda, nem direita”
O artigo de Rodrigo Guimarães Nunes explica por que é ingenuidade acreditar que, por causa da política partidária, a distinção entre esquerda e direita acabou em todos os espaços políticos possíveis.

O artigo de Rodrigo Guimarães Nunes explica por que é ingenuidade acreditar que, por causa da política partidária, a distinção entre esquerda e direita acabou em todos os espaços políticos possíveis.

Abaixo está o trecho inicial de um texto muito bom, publicado no site da Revista Fórum, que esclarece por que a distinção entre esquerda e direita nunca desvaneceu, ao contrário do que muita gente pensa e muitos direitistas tentam fazer parecer real. Seu autor é o professor Rodrigo Guimarães Nunes, e seu artigo é importante para mostrar que não é porque os partidos políticos outrora de esquerda aderiram a práticas de direita que a divisão do espectro político perdeu seu sentido também fora da esfera do sistema político representativo.

 

Três motivos para não dizer “nem esquerda, nem direita”
por Rodrigo Guimarães Nunes

É comum que se responda à frase “nem esquerda, nem direita” com o adágio: “mostre-me alguém que não acredita em esquerda e direita, e eu lhe mostrarei alguém de direita”. Mas este não é sempre o caso, pelo menos no que toca às intenções. Se é verdade que é de má fé o uso mais comum que da frase se faz, há muita gente, talvez cada vez mais, que a usa sinceramente. Aos cínicos, não há nada a dizer; eles sabem (e nós sabemos) de que lado estão. Este texto se dirige, portanto, a quem diz a frase de boa fé, na tentativa de convencê-los de que se trata de um engano tático. Falar em “tática”, aqui, é deixar duas coisas nas entrelinhas: que há motivos legítimos que pelos quais alguns se sentem tentados a falar desta forma, e que as intenções com que o fazem são intenções das quais, em geral, compartilho. Dizer tratar-se de uma questão tática significa, portanto, fazer a pergunta: o uso desta frase é mais benéfico ou, pelo contrário, mais prejudicial a tais intenções? É aqui que se impõe a discussão.

1 – A frase é equívoca.

Seu sentido varia conforme o contexto e, principalmente, quem a usa. Ela significava uma coisa quando era usada, principalmente a partir dos anos 70 e 80, para se referir a lutas e sujeitos políticos que não eram reconhecidos por um lado nem por outro, ou cujas pautas eram, de alguma maneira, resistidas e/ou escamoteadas por ambos: mulheres, negros, índios, gays e lésbicas… Neste caso, queria dizer: “nenhum dos lados nos reconhece e luta por nós, por isso fazemos nossa própria luta”.

No surgimento do movimento ambiental, nos anos 70 e 80, ela tinha este significado e mais um, suplementar: o meio-ambiente, questão que demorou para ser incorporada à agenda tanto da esquerda quanto da direita (e que, na maioria dos casos, o foi no nível do discurso muito mais que na prática), nos diz respeito enquanto seres vivos e habitantes deste planeta, independentemente de preferência política. Logo, seria uma questão “nem de esquerda, nem de direita”, mas de todos.

Ela tinha outro sentido quando começou a ser usada por atores oriundos da esquerda histórica a partir dos anos 90. Neste caso, justificava a capitulação diante da realidade, agora aceita como absoluta e imutável, da economia de mercado e dos limites atuais da democracia representativa. Foi neste sentido – de “direita e esquerda (históricas)  não existem” – que ela foi a consigna da dita Terceira Via, isto é, a adesão, por parte de forças políticas cuja origem remonta às lutas operárias dos séculos 19 e 20, ao neoliberalismo. “Não há mais esquerda e direita”, no sentido de projetos que de alguma forma fundamental se opõe; “há apenas nuances”. O tempo fez estas nuances cada vez mais imperceptíveis, uma fratura na democracia representativa que foi exposta de forma cristalina pela crise financeira iniciada em 2008 – em que partidos “de esquerda” como Labour (Inglaterra), PSOE (Espanha) e Pasok (Grécia) estão tão implicados quanto seus equivalentes “de direita”. É este o sentido do grito de “não nos representam” que se ouve das multidões na Europa e nos EUA: a democracia representativa, nos países onde supostamente tinha atingido sua forma mais acabada, transformou-se num sistema em que todas as opções são essencialmente a mesma, e todos os partidos respondem essencialmente a um cartel de interesses corporativos financeiros, energéticos e midiáticos.

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