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jan14

Sobre o costume de tachar a humanidade de “câncer” ou “vírus” da Terra
O Agente Smith da trilogia "Matrix" dizia que o ser humano é um "vírus". Muitas pessoas infelizmente promovem a mesma comparação, com caráter misantrópico e fatalista, ao invés de acreditarem na mudança da humanidade e agirem para mudá-la.

O Agente Smith, vilão da trilogia “Matrix”, dizia que o ser humano é um “vírus”. Muitas pessoas infelizmente promovem a mesma comparação, com caráter misantrópico e fatalista, ao invés de acreditarem na mudança da humanidade e agirem para mudá-la.

Um costume corriqueiro no senso comum é apontar a humanidade como o “câncer”, o “vírus”, a “doença” da Natureza terráquea, que destrói tudo por onde passa e se propaga a outros lugares que também irá destruir. Até certo ponto, a humanidade tem sim atuado como um severo agente degradador, mas devemos ter bastante cuidado com essas comparações e suas implicações num fatalismo misantrópico, segundo o qual não haveria solução que harmonizasse a interação humanos-ambiente e a Natureza só retornaria a um estado de “paz” com a extinção humana.

Não é um problema criticar o efeito avassalador do desenvolvimento econômico e tecnológico das sociedades modernas e da pobreza que joga bilhões de seres humanos num daninho sobrevivencialismo antiecológico. Pelo contrário, isso é mais do que necessário, desde que se vislumbre que há soluções para essa problemática. O que não é algo muito recomendável, no entanto, é fazer dessa crítica um mote para a misantropia, para a desesperança na humanidade, para a falsa crença de que “não tem jeito”.

De um ponto de vista conscientizador e libertário, comparar a humanidade com o câncer e com os vírus é uma falácia de falsa analogia. Ao contrário das células tumorais e dos vírus, o ser humano não é um ser desprovido de consciência e racionalidade, e pode muito bem converter-se de agente destruidor para restaurador e harmonizador do meio ambiente e de sua relação com ele.

E também, a agência destrutiva humana tem cura, e esta não se dará pela eliminação da nossa espécie, mas sim por duas maneiras simultâneas e interligadas: a Educação Ambiental emancipadora e as lutas socioambientais pela libertação das sociedades humanas das hierarquias e sistemas de dominação. Essa libertação também irá cortar os grilhões que aprisionam o ser humano à qualidade de opressor e destruidor dos seus irmãos de vida, humanos ou não, e fazê-lo enfim reconhecer-se como irmão deles, e não seu senhor e/ou dono.

Dizer que a espécie humana é uma “doença” e seu rastro de degradação só vai acabar pela sua extirpação, tem uma consequência nada positiva. Ao invés de induzi-la a se tornar ecologicamente harmônica, a faz continuar sendo esse agente de destruição, já que considera o ser humano um incontrolável demônio destruidor e assim desacredita a Educação Ambiental e a própria capacidade humana de mudar e tornar a si mesmo um ser mais ético e fraterno. Em outras palavras, se continuamos chamando a humanidade de “vírus” ou “câncer”, desejando sua “cura” pela extinção e recusando a fé na conscientização, a devastação ambiental vai continuar acontecendo desimpedida.

Se o impacto ambiental das atividades humanas não é ainda maior do que poderia ser, isso se deve justamente àqueles que evitaram a visão fatalista e condenadora de patologizar a existência da humanidade e adotaram a postura de querer mudar essa situação ao invés de esperar a famigerada erradicação da vida humana. Devemos essa pegada ecológica menor a quem vem atuando, ao longo dessas últimas décadas, em movimento sociais e ambientalistas e promovendo uma Educação Ambiental crítica e libertária para pessoas de todas as idades.

Outro erro da postura de fatalizar a espécie humana como uma “doença” é separar forçadamente a humanidade da Natureza, ignorando que nós também somos parte dela, e não seres distintos, superiores ou inferiores perante a sua parcela não humana. Nossa existência inevitavelmente vai sempre alterar, de alguma forma, o meio ambiente, e é ingenuidade acreditar que essa modificação pode ser anulada e zerada e que a biosfera seria “melhor” sem nossa existência.

O problema não é nós existirmos e deixarmos pegadas por onde passamos, mas sim o tamanho e profundidade dessas pegadas. É a severidade dos impactos do nosso modo de vida, seja ele o consumismo das classes média e alta ou o sobrevivencialismo das populações em situação de pobreza. Isso é que precisa ser trabalhado coletivamente pelos seres humanos. O objetivo ideal não é zerarmos nossa influência sobre o meio ambiente, o que só seria possível com nossa extinção, mas sim que essa influência deixe de oprimir e destruir os seres da Natureza – ou seja, que nós deixemos de degradar a Terra e que nossa existência passe a ser uma parte necessária das tantas dinâmicas naturais que perpetuam a vida no planeta.

Considerar a destrutividade das atividades humanas modernas um problema grave é essencial para a (cons)ciência da pessoa de que algo não vai bem na relação entre nós e o mundo, mas isso não significa que seja construtivo julgar a humanidade, a partir dessa percepção, como uma força maligna destruidora que precisa ser erradicada. Se nós humanos estamos inaceitavelmente degradando a Natureza, isso não quer dizer que devemos morrer logo e livrar a Terra de nossa existência, mas sim que precisamos ser libertados, o quanto antes, dos valores, tradições e sistemas que nos fazem oprimir o meio ambiente e a nós mesmos, e nos integrar eticamente à Natureza à qual sempre pertencemos.

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5 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Walison

março 6 2016 Responder

Comentário desrespeitoso do tipo “apelo à pedra” apagado. Se discorda, discorde com respeito e qualidade, não com desdém e atitude esnobe. RFS

Eduardo Gênio

outubro 10 2014 Responder

Não sou comunista e nem socialista mas tenho que confessar que a influência negativa da humanidade na natureza é culpa principalmente do capitalismo, e não, nem toda influência que a humanidade pode fazer sobre a natureza é de fato negativa.
Os índios vivem em harmonia com com o habitat ~natural~ e sua influência na natureza é sempre positiva, mas sua influência nas sociedades humanas é quase sempre, para nós capitalistas, negativa.
Acho que a culpa é da humanidade sim, extinção já! rsrs

Conscientização humana? Desculpa mas...

outubro 10 2014 Responder

Não, não existe conscientização humana quando os seres humanos são NATURALMENTE irresponsáveis, não conseguem carregar uma responsabilidade de grandes proporções, podemos ver exemplos na história sem precisar viajar milhares de anos e voltar aos tempos “primitivos” -para acabar inclusive com o argumento de que o ser humano evoluiu e está mais consciente- no século passado, quando descobrimos a possibilidade da bomba atômica e sabíamos que ela seria o símbolo da destruição, criamos e que grande responsabilidade ein? e agora? -Já sei, vamos destruir. BOOOOOOM, Êêêê!! Que massa aquele cogumelo gigante amarelo matando um monte de gente e destruindo terra fértil!! MMUUUIITOO LEGALL!
Exemplo de como é possível conscientizar o ser humano não?
Como conscientizar alguma coisa em um mundo capitalista dependente? somos viciados em capitalismo! FODA-SE se o capitalismo está destruindo o planeta e nosso habitat natural! “”Precisamos”” (entre DUAS ASPAS) do capitalismo, precisamos do dinheirinho, precisamos do consumismo desnecessário… precisamos do desnecessário num contexto literal, claro que precisamos já que é tão desnecessário [?].

Por uma teoria lógica, sim, seres humanos são racionais e dizer que não tem jeito é uma falácia sem tamanho, porém na prática isso não funciona…
O que adianta educar uma criança sobre a natureza se quando chegar no futuro e essa criança se tornar um capitalista, vai usar (os que já existem) e criar mais produtos destruidores de habitats só para ter mais ou não perder o poderoso $$$ ?

Os cientistas e as pessoas conscientes estão preocupados com isso mas os capitalistas e poderosos querem que se dane!
Sem contar os psicopatas que continuam a nascer e possivelmente vão tomar alguns poderes no futuro, acha que um psicopata poderoso está ou estará preocupado com o “futuro do planeta e da espécie”? Não cara! poxa, não quero ser pessimista mas “NÃO TEM JEITO -acrescento- MESMO”.

A.N.

janeiro 7 2014 Responder

Isso me lembra que o Carl Segan no final de Cosmos, e em vários outros episódios, não acreditava que a humanidade iria sobreviver por muito tempo. Se você analisar friamente a história da humanidade as previsões pros próximos milênios são as piores possíveis.
Também me lembro de um post que vi na internet que mostrava fotos de Chernobyl 25 anos depois do acidente e a natureza, mesmo com toda aquela radiação, voltou a se adaptar, aparecendo inclusive grupos de lobos e cavalos selvagens. Opondo isso com o aspecto atual da humanidade dá até uma paz se pensar que a humanidade pode se destruir em alguma guerra e deixar de destruir e escravizar as outras espécies. Numa visão biocentrista, que valoriza a vida mais do que a vida da humanidade, a extinção da raça humana seria positiva pra vida do planeta.

Jhonny F.

janeiro 7 2014 Responder

Belo texto!
Só faltou falar que os principais proponentes dessas ideias são ecólogos de esquerda e Teólogos da libertação como Leonardo Boff.

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