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jan14

Uma “liberdade” que não liberta, mas sim aprisiona
Catracas, objetos que, alinhados bloqueando uma entrada a um lugar onde só se entra pagando, servem como grades intransponíveis a quem não pode pagar pelo acesso. Esse é só um dos tantos aspectos nada libertários do sistema que os direitistas defendem como um "sistema de liberdades".

Catracas, objetos que, alinhados bloqueando uma entrada a um lugar onde só se entra pagando, servem como grades intransponíveis a quem não pode pagar pelo acesso. Esse é só um dos tantos aspectos nada libertários do sistema que os direitistas defendem como um “sistema de liberdades”.

Exceto talvez os fascistas, a grande maioria da direita, pelo menos no Brasil, diz defender a liberdade. Os aspectos principais dessa defesa são a liberdade econômica, que consiste em o indivíduo acumular e usar seu dinheiro e sua propriedade privada como bem quiser, não ter que pagar tantos impostos e não ter a atuação da sua empresa regulada pelo Estado; o impedimento da instauração de uma ditadura socialista e a preservação da livre expressão. Mas não é difícil perceber que essa “liberdade” não é libertadora. Pelo contrário, paradoxalmente aprisiona todos os seres humanos num sistema acorrentador e castigador do qual ninguém poderá sair sem que ele seja derrubado.

 

O sistema atual, que querem conservar, não é um sistema livre para ninguém

Observando-se a vida de todos os seres humanos compulsoriamente situados dentro do sistema capitalista, notamos que nenhum ser humano aqui é realmente livre, embora, dependendo da situação social do indivíduo, possa-se desfrutar de alguns direitos. Todos, sem exceção, são ou serão obrigados a depender de dinheiro para viver, trabalhar dentro da lógica do capitalismo, obedecer a uma jornada de trabalho, ter quase todas as suas opções de lazer condicionadas ao que têm em dinheiro disponível, comprar aparelhos eletrônicos – que se tornaram essenciais à vida moderna nos últimos 20 anos -, entre tantas outras imposições.

Para os mais pobres, a liberdade é apenas uma abstração distante. Para sobreviver, têm apenas três opções que não implicam violência contra outras pessoas:  alugar sua força de trabalho para uma empresa ou pessoa física que irá explorá-los, dedicar quase todo o seu dia num pequeno negócio autônomo ou recorrer à mendicância. Menos de 1% dessas pessoas conseguirá uma ascensão social até o nível de empresários endinheirados e “bem sucedidos”, permanecendo os mais de 99% restantes atados a trabalhos que lhes exaurem a força física, a disposição mental e a maioria das suas horas de não sono.

Uma outra privação séria dessa enorme parcela da população mundial é a de opções de lazer pagas. As catracas que separam o acesso a essas atrações e o mundo exterior podem ser perfeitamente metaforizadas como grades intransponíveis a bloquear a entrada de quem não pode pagar por elas. Com sorte, uma pessoa pobre pode gastar 10 reais num cinema, num show musical ou num jogo de futebol do seu time, mas permanecerá alheia a entrar em eventos que custem, por exemplo, 50 reais.

A classe média também não escapa de uma situação de não liberdade, embora viva com grilhões um pouco maiores e menos apertados. Seu tempo fora da cama também será intensivamente ocupado, com trabalhos exaustivos, tempo perdido no trânsito, horas dedicadas ao consumo induzido pela publicidade etc. A sede por dinheiro de alguns tende a ser mais intensa do que a dos pobres, almejando ora comprar os produtos do momento, ora expandir seu negócio ou mudar de trabalho para chegar logo a uma das classes mais altas.

E mesmo as pessoas das classes mais altas não podem ser consideradas propriamente livres. São atadas à administração de suas empresas, submetidas a uma tremenda responsabilidade e ao receio constante de que o momento bom da economia acabe e seja sucedido por uma crise que pode pôr todo o seu negócio a perder caso não faça aquilo que a ideologia do livre mercado diz abominar – pedir socorro ao Estado, que tentará salvar a empresa da falência com dinheiro vindo de impostos.

E o mais aprisionador para a elite nem é isso. Ela tende a viver escravizada pela ganância, presa à sede de expansão empresarial ilimitada e dependente de um volume exagerado, mas ainda assim crescente, de recursos naturais que poderão, dentro de não tanto tempo assim, começar a faltar por causa dessa extração predatória, mesmo quando sua corporação é de serviços. E outra é que, muitas vezes, sua alma, o sentido de sua vida individual, está aprisionada na poderosa corporação que dirigem – se ela entrar numa crise grave (que pode ser uma crise econômica generalizada) e quebrar, poderá ser o fim para a pessoa.

Por tudo isso – que sequer representa todas as proibições práticas e obrigações desse sistema – não convém dizer que uma pessoa situada dentro de um sistema como o capitalismo, do qual não poderá escapar e que o matará de inanição caso não obedeça ao mandamento de ganhar dinheiro, é livre. O ser humano no máximo pode viver “solto”, e nisso se assemelha aos animais prisioneiros de fazendas pecuárias, diferenciando-se a variável que determina o quão longe ele poderá ir – enquanto a “liberdade” de movimento de um animal não humano é (de)limitada pelo número de metros quadrados do cercado onde vive cativo, o limite da “liberdade” de lazer de um humano é determinado pelo quanto de dinheiro que ele tem disponível e pela quantidade de dias autorizadamente livre dos quais poderá desfrutar.

E não só a direita deixa de se opor a isso, como também na verdade ela defende que esse sistema se torne ainda mais forte, não reconhecendo o caráter aprisionador dele. É uma séria contradição direitista dizer que “defende a liberdade” mas não reconhecer que o capitalismo inviabiliza muitas liberdades até mesmo às elites e às classes médias. Mas não é a única, havendo diversas outras contradições e incoerências no discurso de direita.

 

Os pilares principais da “liberdade” de direita implicam negar diversas liberdades

Foram citados na introdução três aspectos principais da “liberdade” defendida na direita brasileira. Cada um deles, se por um lado promete dar determinadas liberdades para alguns, retira as de tantos outros:

a) Livre mercado

Idealizado como um sistema econômico sem regulações e intervenções estatais e com impostos muito baixos, nele as corporações estariam livres para explorar seus empregados, uma vez que o Estado não iria executar leis trabalhistas. Com isso, a chance seria muito grande de muitos trabalhadores assalariados caírem em regimes parecidos com trabalho forçado, de muitas horas por dia, salários ridículos e coerção organizacional constante. Se mesmo hoje, com legislação trabalhista e códigos reguladores, muitas empresas continuam explorando fortemente seus subordinados, a situação pioraria ainda mais numa época de desregulamentação.

Além disso, num contexto de privatização generalizada de serviços públicos, a educação, a saúde, a locomoção, o próprio lazer etc. deixariam de ser direitos básicos e passariam a ser meros serviços pagos a que muitos não teriam condições de acesso.

b) Defesa de uma suposta ameaça de ditadura socialista

Essa bandeira, empunhada por uma parcela cada vez mais notável de direitistas no Brasil, tem como premissas que a nação capitalista é uma nação de liberdade e que o PT é um partido stalinista ou maoísta que está prestes a instaurar, ou já instaurou, um regime autoritário dito “comunista”. Na intenção de neutralizar essa suposta “ameaça comunista (sic)”, tem-se clamado por uma intervenção (eufemismo para golpe) militar, de modo que um regime civil-militar ou civil de direita substitua, por uma via nada democrática, a série de mandatos de presidentes petistas.

A História já mostrou que ditaduras militares podem prezar por qualquer coisa, menos por liberdades individuais e coletivas. O regime de 1964-85 foi marcado pela tortura de opositores – fossem guerrilheiros ou militantes políticos não violentos -, por censura na imprensa e nas artes, por uma forte doutrinação ideológica de cunho conservador e nacionalista nas escolas, por políticas de arrocho salarial e destruição ambiental, entre tantos outros absurdos que roubaram direitos humanos, políticos, civis e ambientais dos brasileiros.

Vale ressaltar também que essa militância golpista tem provocado um crescente ódio de ultrarreacionários contra todo partido ou grupo político que tenha sido no passado ou continue sendo hoje de esquerda, em especial o PT (um exemplo foi relatado aqui), numa clara ameaça à liberdade de expressão política – logo esta que é uma bandeira supostamente tão cara à maioria da própria direita.

c) Liberdade de expressão sem limites

Quando pessoas assumidamente de direita defendem a liberdade de expressão, costuma haver nessa defesa um fundo de reação contra críticas vindas de pessoas que repudiam piadas e declarações explicitamente sérias que depreciam minorias. Afirma-se que está sendo implantada uma “ditadura do politicamente correto”, mas tal acusação termina investindo justamente em censura moral contra a liberdade de se criticar tais discursos.

Deve-se considerar também que essa “liberdade” de expressão baseada em libertinagem e ausência de limites termina por incentivar o racismo, o machismo, a homo-lesbofobia, a transfobia, a xenofobia, entre tantos outros preconceitos, todos os quais investem em roubar direitos e liberdades das pessoas pertencentes às minorias por eles atingidas. Em outras palavras, a “livre expressão” tal como é defendida pela direita ameaça muitas das liberdades individuais das categorias historicamente oprimidas. E isso acaba inibindo até mesmo que as crenças meritocráticas direitistas funcionem com esses indivíduos com a mesma força com que funciona para quem pertence simultaneamente a diversas categorias dominantes (homens, brancos, heterossexuais, cisgêneros, de classe superior às baixas etc.).

 

Considerações finais

A “liberdade” comumente defendida na direita, ao mesmo tempo em que privilegia uma minoria dominante, suprime justamente os direitos do restante da população, sem os quais o ser humano não pode ser considerado um indivíduo livre. Aliás, nem sequer os pertencentes a essa elite podem ser considerados seres livres, já que estão reduzidos a servos da ganância, da esmagadora responsabilidade sobre suas corporações e dos colossais e predatórios gastos empresariais de recursos naturais.

E no final das contas, o ser humano, independente de quem seja, não passa de um prisioneiro sob controle coercitivo de um sistema ingenuamente defendido como “favorecedor das liberdades individuais”, tendo a continuidade de sua existência e sua integridade física e mental viabilizadas ou inviabilizadas pela quantia em dinheiro que tem ou não tem. Em outras palavras, a “liberdade” da direita conservadora e liberal não liberta ninguém, mas sim aprisiona a todos, incluindo os pertencentes à própria elite econômica.

Apesar da necessidade urgente de se lutar coletivamente pela libertação humana, seria irreal dizer que, como alternativa à pseudoliberdade prometida pela direita, a esquerda já tem pronto um modelo diverso de sistema socioeconômico e político que dê ao ser humano a autêntica liberdade de não ter sua existência e seus prazeres atados à quantidade de riqueza que tem e não viver sob coerção armada e ideologias de naturalização da dominação. Certamente demorará décadas, ou mesmo séculos, para que se descubra como a humanidade poderá permanecer livre depois que as classes e demais categorias dominadas se libertarem das explorações, das grades metafóricas intransponíveis e da associação entre a dignidade da vida humana e a quantidade de dinheiro que cada pessoa tem.

imagrs

3 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Daniel

agosto 17 2015 Responder

Post machista antifeminista apagado, e possível troll, ou mascu, banido. RFS

Fernando Soares

fevereiro 1 2014 Responder

Este seu post sintetiza de forma magistral o problema da esquerda em geral: confundir ou ignorar certos conceitos.

Você confunde liberdades positivas e negativas, desejos e imposições, e necessidades e obrigações.

Desta forma, por exemplo, uma pessoa precisar usar dinheiro em um livre mercado vira uma imposição, quando, em verdade, não é uma. Ninguém obriga ativamente você a usar dinheiro; suas próprias necessidades e desejos são o que fazem as pessoas usarem dinheiro.

Existirem catracas não é um “aprisionamento”, é uma consequência de que dificilmente o mesmo bem pode ser usado por mais de uma pessoa ao mesmo tempo. Se um teatro tem apenas 50 lugares, como é que podem entrar 60 pessoas nele?

Etc.

    Daniel Cortes

    maio 4 2015 Responder

    Fernando Soares, me ensine a viver numa cidade sem usar nem dinheiro nem passar fome que eu te dou todo o dinheiro que tenho.

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