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fev14

A defesa seletiva da liberdade de expressão pela direita
A "liberdade de expressão" de algumas pessoas não só exclui, como também tenta criminalizar a liberdade dos esquerdistas de expressar suas opiniões político-ideológicas.

A “liberdade de expressão” de algumas pessoas não só exclui, como também tenta criminalizar e roubar a liberdade dos esquerdistas de expressar suas opiniões político-ideológicas.

Sabe-se que a direita brasileira, incluindo tanto conservadores e reacionários quanto liberais livremercadistas, costuma dizer-se “fervorosa defensora” da liberdade de expressão. Sempre que alguém da esquerda defende que um Datena ou uma Sheherazade da vida deveriam ficar calados ao invés de proferirem discursos contrários aos Direitos Humanos, ou que a Justiça deveria punir Malafaia, Bolsonaro e outros indivíduos por suas declarações, aparecem muitos direitistas defendendo o “sagrado” direito de se expressar, a liberdade individual de expor as ideias que bem quiser.

Mas curiosamente, é da mesma direita que se supõe defensora da livre expressão que vem muita gente que defende, por palavras ou mesmo ações, a censura, a perseguição e a ameaça contra os opositores ideológicos dos liberais e conservadores brasileiros. E tudo isso sob vistas grossas dos companheiros de ideologia mais liberalizados.

 

A hipocrisia e seletividade de muitos “defensores” da liberdade de expressão

Obviamente não é uma regra geral entre direitistas ser hipócrita em sua defesa, ou seja, militar pela livre expressão com uma mão e defender o silenciamento de esquerdistas com a outra. Mas infelizmente esse costume é comum entre gente desse lado do espectro político – o que não quer dizer de forma alguma, no entanto, que a esquerda, por sua vez, seja livre de pessoas assim.

Não é raro ver pessoas, estejam elas por trás de usuários com nomes verdadeiros, fakes, páginas do Facebook ou pseudônimos autores de blogs de direita, incidindo em um ou mais dos seguintes comportamentos:

– Hostilização pessoal, em público ou em privado, de formadores de opinião de esquerda, em razão de opiniões expostas por eles;

– Reações verbalmente violentas contra quem critica declarações de formadores de opinião de direita ou a autoridade intelectual deles, de tal forma que dão a entender que críticas contra eles não deveriam ser toleradas, tampouco permitidas;

– Tentativas de censura moral contra quem critica as “piadas” e incitações proferidas por “humoristas” “politicamente incorretos”, no mesmo sentido de desencorajar violentamente críticas contra eles;

– Apoio a ações de repressão policial contra movimentos sociais, por expressarem nas ruas reivindicações contrárias aos interesses da direita;

– Oposição raivosa contra qualquer aula escolar ou universitária que aborde correntes ideológicas de esquerda, em especial o marxismo, e defesa implícita ou explícita da censura política nas escolas e universidades;

– Defesa da extinção violenta de partidos cujos nomes remetam à esquerda política – mesmo no caso daqueles cujas práticas ideológicas majoritárias tenham se tornado conservadoras –, como o PT, o PCdoB, o PSB, o PSOL, o PSTU e o PCB;

– Defesa, na maioria das vezes implícita, da cassação da liberdade política dos brasileiros, de modo que apenas a direita pudesse se expressar e atuar e as críticas dirigidas a ela fossem censuradas e resultassem em punição legal;

– Defesa ativa da censura contra quem, mesmo sem linguagem violenta, critica ou satiriza o cristianismo em seus dogmas, mitos e contradições morais – curiosamente omitindo-se contra ofensas explícitas, verbais ou mesmo físicas, a afrorreligiosos, pagãos, espíritas, muçulmanos etc. e suas divindades e profetas;

– Oposição à (teórica) laicidade do Estado brasileiro, numa defesa implícita ou explícita da sua supressão e substituição por um Estado declaradamente católico ou pentecostal, o que cassaria a liberdade de expressão religiosa de milhões de brasileiros;

– Defesa de sistemas políticos nos quais curiosamente muitas liberdades individuais, entre elas a própria livre expressão, seriam extintas, como a ditadura militar e a monarquia com muitos poderes políticos centralizados no rei, seja pelo saudosismo do passado ou por demandar a restauração de um desses regimes;

– entre diversos outros meios de desejar silenciamento, censura e intolerância contra opositores ideológicos.

Por outro lado, os direitistas que não cometem tais ações terminam saindo como cúmplices por omissão. Dificilmente se vê por aí pessoas renomadas da direita, mesmo liberais, criticando colegas de ideologia por serem verbalmente violentos contra gente da esquerda, por ameaçarem essas pessoas, por defenderem a censura política nas escolas e nos três poderes, por apoiarem a repressão contra protestos promovidos por movimentos sociais etc.

Menos ainda protestam quando as ações e discursos de um Bolsonaro, uma Sheherazade, um Datena ou um Marco Feliciano da vida põem em risco os direitos de outras pessoas, incluídos os direitos à expressão política, à integridade física, ao julgamento imparcial em caso de cometimento de crimes, à própria dignidade humana, a não ser vítima de preconceitos como o racismo e o machismo etc. A não ser que, por exemplo, o direitista seja ateu e proteste contra as declarações de Datena ou Padre Marcelo demonizando a “falta de Deus no coração”.

É uma defesa seletiva da liberdade de expressão. Em outras palavras, defendem “livre” expressão apenas para si mesmos e aqueles que os inspiram e com quem concordam.

Rachel Sheherazade quer liberdade de expressão para fazer apologia à tortura de suspeitos, mas clamou pela repressão pública contra uma jornalista que a criticou por seu discurso. Print extraído de http://revistaforum.com.br/blog/2014/02/por-criticar-comentario-de-sheherazade-jornalista-e-ameacada-de-morte/

Rachel Sheherazade quer liberdade de expressão para fazer apologia à tortura de adolescentes suspeitos de crimes, mas clamou pela repressão pública contra uma jornalista cujo “crime” foi criticá-la por seu discurso. Em outras palavras, ela diz “Gente, estão ameaçando minha liberdade de expressão! Tirem a liberdade de expressão de quem me critica!” Print extraído de http://revistaforum.com.br/blog/2014/02/por-criticar-comentario-de-sheherazade-jornalista-e-ameacada-de-morte/

 

Liberdade de expressão não é um direito absoluto

Aviso: Este artigo não tem uma opinião formada sobre o especismo e o carnismo, sobre se conviria criminalizar a curto ou médio prazo apologias à produção e consumo de produtos de origem animal e a outras atividades baseadas em exploração animal.

Vale frisar aqui que não é injusto defender a liberdade de expressão, e que as ações pró-censura de grande parte da direita brasileira não invalidam essa causa. Porém essa liberdade não é uma libertinagem. Não é um direito absoluto, que está acima de outros direitos fundamentais do ser humano e de outros sujeitos de direito.

A dignidade da pessoa humana é algo ao qual nenhum outro direito pode ser superior. Isso motiva a criminalização de ações como o sacrifício religioso de seres humanos, a incitação ao bullying, a apologia à tortura mesmo contra suspeitos de crimes hediondos, os discursos de ódio (racista, homo-lesbofóbico, misógino, intolerante religioso, classista, xenofóbico etc.). A “liberdade” de ameaçar as liberdades saudáveis (aquelas que não ameaçam nem comprometem os direitos fundamentais alheios) de outrem não é considerada liberdade, nem perante a lei, nem perante a Ética.

Portanto, piadas machistas e/ou racistas, discursos de ódio contra pobres, apologias à tortura – seja de criminosos ou de inocentes –, atentados contra a honra de uma ou mais pessoas inocentes etc. não fazem parte da liberdade de expressão. Um “direito” que tira direitos fundamentais dos outros não pode ser encarado como direito. O direito de se expressar politicamente – defendendo, por exemplo, que o Estado Mínimo ou a democracia direta popular é o melhor sistema político possível e tentando justificar racionalmente seu argumento – não é o direito de defender a supressão da universalidade dos Direitos Humanos.

Em outras palavras, a maior parte da direita está defendendo a “liberdade de expressão” errada.

Leonardo Sakamoto expõe suas opiniões e é respondido com ofensas e ameaças por reacionários que, supostamente, dizem "defender" a livre expressão.

Leonardo Sakamoto, conhecido formador de opiniões de esquerda, expõe suas opiniões e é respondido com ofensas e ameaças por reacionários que, supostamente, dizem “defender” a livre expressão.

 

Considerações finais

Defender a liberdade de expressão é essencial para os militantes políticos não autoritários, mas a direita está falhando contundentemente nisso. Sua bandeira de livre expressão tem uma de suas metades cortada fora, e a metade que sobrou é rasgada nas bordas, considerando-se tanto a atitude de milhares de direitistas autoritários, de reagir violentamente perante o usufruto da liberdade de expressão pelos esquerdistas e defender censura contra os mesmos, como a omissão dos direitistas mais liberais em denunciar os abusos de seus parceiros de ideologia.

Para muitos da direita, embora não todos, a “liberdade de expressão” só deve existir em contextos em que o discurso pode trazer humilhação, violência e supressão de direitos a pessoas indesejadas – em especial aquelas que pertencem a minorias políticas e são de esquerda –, ou seja, para suprimir as liberdades dos outros. E isso se reflete na seletividade com a qual defendem esse direito. Isso torna a defesa deles da livre expressão, embora não a causa em si, inválida.

Portanto, a quem se declara de direita e defensor da liberdade de se expressar, pergunto: Você a defende para todos os seres humanos, incluindo pessoas de esquerda? Defende também o direito das pessoas de criticar a opinião dos direitistas, mesmo se essa crítica (des)qualifique o discurso deles como “reacionário”, “fascista”, “homofóbico”, “machista” e “racista”? Defende a liberdade de expressão política dos socialistas, comunistas (que não são todos defensores do sistema político cubano e soviético) e anarquistas? Apoia a liberdade de manifestação política dos movimentos sociais de esquerda nas ruas? Aceita que se estude livremente correntes políticas ou interdisciplinares de esquerda nas instituições de ensino?

Se você respondeu “não” a uma dessas perguntas, convém repensar se realmente defende a liberdade de expressão.

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10 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Alex

junho 10 2014 Responder

Caro manipulador da informação, como você me diz que o tal Luiz defende a liberdade de expressão ?

José

fevereiro 12 2014 Responder

Sim. Mas com uma grande diferença. Enquanto que o positivismo despreza tudo aquilo que não pode ser determinado pela ciência positiva é possível ser empirista em termos de epistemologia e acreditar que todo o conhecimento parte da experiência ao mesmo tempo que se reconhece que nem todo o conhecimento pode ser provado pela experiência e nem por isso deixa de ser conhecimento.

Um bom exemplo disso é a experiência moral do ser humano.

Valores éticos\morais partem da experiência humana mas é impossível usando a somente essa experiência determinar qualquer verdade em ética e nem por isso o ser humano deixa de poder descobrir esses valores nem de refletir racionalmente sobre os mesmos.

A diferença entre as duas correntes filosóficas é portanto muito significativa.

José

fevereiro 12 2014 Responder

“E você acha que sua visão em relação à associação entre conhecimento e ideologia não é um reflexo de sua ideologia política?”

Não porque eu não tenho ideologia politica. A ideologia é sempre a tentativa de reduzir a realidade numa única e inflexível visão dogmática do mundo nesse sentido não é muito diferente de uma religião.

Com a diferença que num Estado Secular a religião é matéria de Direito privado e só adere a ela quem quer não tendo(ou não devendo ter)a religião poder politico.

Quanto ao positivismo creio que está a fazer algumas confusões. Primeiro é falso dizer que o positivismo é de origem liberal. Os primeiros liberais eram empiristas seguiam a tradição inglesa que se desenvolveu em oposto ao racionalismo cartesiano influenciado pelas ideias de David Hume e John Locke. Portanto é falso o positivismo é uma herança do racionalismo e não do empirismo de onde nasceu a clássica tradição liberal.

Por exemplo as experiencias nazistas do doutor Mengele
tinham o seu próprio método perfeitamente definido que era executado com um frio racionalismo e muitas dessas experiencias produziram realmente conhecimento…

Agora como é evidente é inaceitável do ponto de vista ético que essas experiências tenham sido realizadas.

Mas lá está isso não invalida apenas reforça a minha posição. O conhecimento é independente de valores.

    Robson Fernando de Souza

    fevereiro 12 2014 Responder

    E o positivismo não tem caráter empírico? Não valoriza a observação como meio maior de se obter uma “verdade”?

José

fevereiro 12 2014 Responder

1-Esqueceu-se de dizer que Althusser era marxista. E que uma das prioridades do marxismo sempre foi o controlo do ensino. A visão de Althusser em relação ao Estado não é mais do que um reflexo da sua ideologia politica.

2- Esclareço que não sou positivista. Precisamente porque acredito que existe conhecimento que não pode ser determinado pela ciência positiva. A escola de Frankfurt é de inspiração marxista logo as conclusões a que chegou não possuem validade para quem rejeita o marxismo como filosofia.

Reafirmo o conhecimento não depende de valores. Um professor de matemática que importa se é comunista , liberal , ateu ou crente quando ensina os seus alunos a contar? Nada. O próprio conhecimento exige um despojamento nos valores. Porque a ciência apenas se pode pronunciar sobre coisas objetivas e o marxismo não é ciência são apenas ideias e nem todos partilham essas ideias.

Saber que a terra é redonda não depende de qualquer ideologia nem valor. Não é o conhecimento que depende de valores mas sim a sua aplicação. Conhecer teoricamente o modo de fazer uma bomba é algo moralmente neutro. Usar uma bomba é que já não. Ai já entra sobre alçada da ética.

3-A “ordem vigente” geralmente é espontânea o marxista caracteriza-se por ter perdido essa noção de espontaneidade e portanto acha que a ordem pode ser transformada consoante aquilo que ele pensa que é o correto.

Portanto a neutralidade politica de um professor é algo que deve ser defendido não só em relação ao marxismo mas de toda e qualquer ideologia incluindo a liberal. O que não é capaz de separar as sua visão subjetiva do mundo da objetividade que se espera de um ensino secular será sempre um mau professor e alguém que eu não queria com professor dos meus filhos.

    Robson Fernando de Souza

    fevereiro 12 2014 Responder

    Pelo visto você está se fechando a tudo que o marxismo diga, e está insistindo na crença positivista – que tem origem liberal – de que conhecimento pode vir despojado de valores e pressuposições ideológicas. Quando alguém se fecha desse jeito, não dá pra continuar argumentando até que quebre essa resistência interna.

    “A visão de Althusser em relação ao Estado não é mais do que um reflexo da sua ideologia politica.” – E você acha que sua visão em relação à associação entre conhecimento e ideologia não é um reflexo de sua ideologia política?

José

fevereiro 10 2014 Responder

“Escola sempre foi um instrumento político de disseminação de ideologia”. Não de ideologia politica. A escola deve ser isenta de qualquer promoção de ideologia politica e\ou de religião. Porque não é esse o seu papel. Numa democracia considera-se o cidadão como o principal ator pelo menos a nível politico e para se ser um cidadão é preciso entre outras coisas ter autonomia para se fazer essas mesmas escolhas de que falas. Algo de que manifestamente crianças e jovens carecem.

Portanto conhecimento politicamente não neutro é que é doutrinação e não adianta fingir o contrário. Porque o conhecimento não depende de valores ao contrário da politica.

    Robson Fernando de Souza

    fevereiro 11 2014 Responder

    Pelo contrário. Sugiro que vc leia o livro “Aparelhos Ideológicos de Estado” de Louis Althusser. Ele relata como as escolas francesas de sua época tinham formas indiretas e diretas de inculcar a ideologia política dos capitalistas nas crianças e adolescentes.

    Além disso, a alegação de que “conhecimento não depende de valores” é um mito herdado do positivismo, refutado pelos teóricos sociais da Escola de Frankfurt. Todo conhecimento, em última análise, tem valores dissolvidos em si.

    Não existe neutralidade política nem no ensino. A própria tentativa de ser neutro é um consentimento da ordem vigente.

José

fevereiro 10 2014 Responder

Respostas de um individuo de “direita”

1- Sim claro.
2- Sim desde que sejam pacificas.
3-Não. Quer sejam ideias da direita ou da esquerda. A escola deve ser pre-politica e isenta de ideologia o professor está lá para ensinar de forma imparcial não para promover as suas visões particulares do mundo a jovens facilmente impressionáveis

    Robson Fernando de Souza

    fevereiro 10 2014 Responder

    “A escola deve ser pre-politica e isenta de ideologia o professor está lá para ensinar de forma imparcial não para promover as suas visões particulares do mundo a jovens facilmente impressionáveis” – Escola sempre foi um instrumento político de disseminação de ideologia. Acreditar que a escola pode ser isenta de ideologia é um mito datado do positivismo, que pressupõe um conhecimento politicamente neutro mas foi refutado. Ou a escola promove doutrinação e ensinamentos estanques, ou promove o senso crítico e a curiosidade de seus alunos, de modo a conhecerem o mundo e as teorias que o explicam e tirar deles suas próprias conclusões – e não é a primeira opção que a esquerda libertária defende.

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