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fev14

A esquerda é muito mais do que só socialismo ditatorial
Derrube-se a crença de que esquerda se resume a ditaduras socialistas, como o stalinismo.

Derrube-se a crença de que esquerda se resume a ditaduras socialistas, como o stalinismo.

É praticamente de lei, entre a direita brasileira, tachar toda a esquerda nacional e internacional de “comunista” – e/ou “petralha” em determinadas situações. E esse “comunismo” é convenientemente manipulado ao ponto de se tornar sinônimo de “totalitarismo de esquerda”. Tal menção ao “comunismo totalitário” é basicamente fundamentado na ignorância sobre a existência de muitas outras correntes ideológicas de esquerda, incluindo diversas vertentes de socialismo que diferem dos modelos ditatoriais que existiram no século 20.

Quem realmente tem um mínimo de entendimento que seja sobre o que é a esquerda política, já sabe que o socialismo autoritário, expresso em ideologias como o stalinismo, o maoísmo e o leninismo, é apenas uma diminuta parcela de um universo inteiro de visões de mundo esquerdistas, que vão das mais autoritárias às mais libertárias. Inclusive diversas delas são ferrenhamente críticas das ditaduras de esquerda do século passado e dos poucos que restaram e entraram século 21 adentro.

Esclareça-se então que existem diversos socialismos, assim como diversas maneiras teoricamente previstas de se alcançar a utopia comunista, na qual não haverá nem Estado nem hierarquizações entre seres humanos. Temos como exemplo o ecossocialismo, o socialismo democrático, o socialismo utópico (o de Saint-Simon, Fourier e Owen), o anarcossocialismo, o socialismo libertário (que muitas vezes é sinônimo de anarcossocialismo), entre outros.

É necessário também notar que há muitos socialistas democratas empenhados na radicalização e aprofundamento, nas tomadas de decisões políticas, da participação popular, abolindo as limitações do sistema político partidário representativo eleitoral. Ou seja, são socialistas que não só discordam veementemente das correntes autoritárias do século 20 como também atuam em prol da democratização intensiva, da prevalência dos interesses coletivos e populares sobre os interesses privados das elites econômicas e políticas.

Aliás, no passado até o liberalismo e o republicanismo eram considerados de esquerda, uma vez que visavam combater os privilégios hereditários e religiosamente “justificados” de classes como a nobreza, o alto clero católico e a aristocracia. E até hoje correntes políticas derivadas de ambos são consideradas de esquerda em países como os Estados Unidos, vide o exemplo do liberalismo social estadunidense, que se opõe ao conservadorismo moral e religioso, muito embora sejam consideradas de centro ou mesmo centro-direita em países como o Brasil.

Deve-se ressaltar também a existência da socialdemocracia, corrente política de centro-esquerda derivada do movimento socialista do século 19 e do começo do 20. Ela prega basicamente reformas no sistema social vigente, de modo a garantir, por exemplo, a inclusão equitativa de todas as pessoas entre os beneficiários do modelo de sociedade vigente, o reforçamento dos serviços públicos (educação, saúde, transporte, segurança etc.), a redistribuição de renda, a regulação do mercado e a amenização das desigualdades inerentes ao capitalismo. E se opõe à direita liberal-econômica e conservadora.

E além dos socialismos democráticos e libertários e, até certo ponto, da socialdemocracia e do liberalismo social dos EUA, também existe o anarquismo, ou melhor, as diversas correntes anarquistas. Temos como exemplo o anarquismo coletivista, o anarquismo intersecional, o veganarquismo, o ecoanarquismo, o anarcafeminismo, o anarcocomunismo, entre outras vertentes.

Os socialismos pós-Guerra Fria e o anarquismo constituem formas de ser anticapitalista e subverter a ordem vigente sem precisar apelar para o socialismo autoritário que vigorou na União Soviética, na China e em países da Europa Oriental e ainda resiste em Cuba e na Coreia do Norte. E a socialdemocracia e o liberalismo social estadunidense são correntes alegadamente de esquerda que questionam a necessidade de se permitir a prevalência do modelo (neo)liberal de sociedade capitalista.

Portanto, é claro, para todo aquele que tem noções básicas sobre diversidade política, que ser de esquerda não é o mesmo que defender ditaduras socialistas, da mesma forma que direita não é só livre mercado e Estado mínimo, nem só conservadorismo, nem só fascismo. Quem insiste em equivaler política de esquerda com regimes como o cubano e o soviético, está incidindo em falácia e deve, o quanto antes, rever seu preconceito político.

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