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Em campanha publicitária, Conar avisa sutilmente que rejeitará muitas das denúncias que recebe e dá banana a denunciantes

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O Conar – Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária, entidade que teoricamente zela pela ética na publicidade brasileira, através de duas propagandas televisivas, deu uma banana a diversos movimentos sociais e deixou de sobreaviso, de forma implícita, que só vai considerar antiéticos e penalizar os comerciais e anúncios que quiser. Nas duas peças, trata com descaso e galhofa denúncias vindas de diversos movimentos sociais, destacadamente feministas, negros, ambientalistas e opositores do consumismo e violência infantis.

O primeiro comercial é de um rapaz que sobe no palco onde um palhaço chamado Peteleco se apresentava, acusando-o de fazer apologia à violência, atrair crianças com recursos visuais de estímulo irracional e fazer pouco caso da sustentabilidade ao usar uma flor que “desperdiça” água, numa clara provocação dirigida a movimentos contrários à publicidade infantil e à apologia à violência em horários de classificação etária livre. O segundo, que promove uma ofensiva falácia do espantalho contra o feminismo e o movimento negro, mostra um casal questionando as opções de alimentos de um restaurante, afirmando que eles promoveriam o racismo, o machismo e o apelo sexual.

Os dois vídeos, produzidos pela agência publicitária Dogs Can Fly (site e fanpage), convenientemente estão fechados para comentários e avaliações no YouTube, numa demonstração de que o Conar quer ser reacionário e impor critérios arbitrários de julgamento de anúncios sem que ninguém reclame. Com tais comerciais, a entidade deixa claro não só que não leva a sério muitas das denúncias dos movimentos maliciosamente satirizados como também que irá conscientemente arquivar grande parte, senão a maioria, das denúncias que estes encaminharão de agora em diante.

O Conar apela também à sua própria autoridade, colocando seus critérios, mesmo que arbitrários e grosseiramente subjetivos, de julgamento de peças publicitárias como “superiores” às motivações que levam movimentos negros, feministas, ambientalistas, anticonsumismo infantil etc. a entrarem com suas denúncias. Enfatiza presunçosamente que o telespectador “confie no Conar” – afinal, apenas por sua autoridade como único órgão regulamentador da publicidade no Brasil, ele tem, por exemplo, mais poder de encontrar machismo num comercial do que os movimentos feministas, e mais credencial para detectar incitações ao consumismo infantil do que o Instituto Alana.

E alega que “umas [denúncias] são justas, outras, nem tanto [sic]”. Em outras palavras, tacha de “injustas”, por exemplo, a maioria das denúncias feitas por movimentos feministas contra comerciais machistas-misóginos e diversas reclamações incentivadas pelo próprio Consciencia.blog.br, como o machismo e o descaso contra esposas de militares de um comercial da cerveja Skol de 2012 e o preconceito contra vegetarianos de uma propaganda da cerveja Antarctica do mesmo ano.

Com essa campanha publicitária, o Conar deixa claro, ainda que de forma relativamente sutil, que não é uma entidade com a qual os movimentos mencionados possam contar para tirar do ar propagandas machistas, veladamente racistas, pró-consumismo infantil, naturalizadoras da violência, sexualmente apelativas e apologistas da irresponsabilidade ambiental, e que, sempre que tiver oportunidade, irá não só ignorar, mas zombar, em rede nacional, das queixas de diversas categorias militantes. Com o agravante de que o próprio Conar é a única entidade a quem os brasileiros podem se queixar de comerciais abusivos, e não há nenhum órgão de regulamentação publicitária superior que possa exigir conduta ética ao Conar. Em outras palavras, aproveita-se do fato de que não é possível denunciar o Conar ao próprio Conar e, com isso, destrata, numa postura gritantemente antiética, numa versão sutil do gesto de dar uma banana com os braços, grande parte dos denunciantes, ainda mais quando estes são de movimentos sociais.

A única maneira que resta de reagirmos contra os abusos da publicidade brasileira, como minha namorada sabiamente me falou, é promover boicote, denúncias em público e escracho contra os canais de comunicação dados ao público pelas empresas anunciantes e agências publicitárias, assim como dirigir protestos ao próprio Conar por sua postura antiética, via formulário de contato (no site da entidade) e avaliação da fanpage. Foi assim que diversas empresas tiveram que voltar atrás em campanhas abusivas e se retratar.

Essa postura do Conar de arrotar autoridade e se achar acima da ética precisa de uma forte reação da sociedade.

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Leandro Michelsen

março 2 2014 Responder

Eu tenho um grave defeito: não vejo maldade à primeira vista. Mas tenho uma qualidade: não me considero facilmente influenciável. A primeira vez que vi as peças publicitárias, não percebi este objetivo escuso de alienar ou até mesmo “dar uma banana” aos denunciantes. Fiquei, portanto, muito preocupado ao ler seu artigo e decidi ir direto à fonte. No site da CONAR, tem um endereço com vários casos julgados. Garimpei alguns casos e fiquei impressionado o quanto a propaganda no Brasil é vigiada, pois constatei reclamações diversas, de consumidoras, consumidores, órgãos diversos, e até mesmo de iniciativa do próprio CONAR. Eu separei alguns casos curiosos envolvendo crianças e adolescentes para análise: o primeiro, analisado em Outubro/2006, de iniciativa do diretor executivo do Conar, refere-se à um comercial de TV do Grupo Polenhi, no qual é sugerido à criança experimentar determinado produto. Este foi arquivado por ser considerada a palavra “experimente” como uma sugestão de consumo, sem o abuso do uso do imperativo. Em outro caso, julgado em Junho/2010, também de iniciativa do Conar, refere-se a um comercial do McDonalds, onde a frase “descubra uma maravilhosa surpresa Avatar”, este foi considerado abusivo e votado a favor a eliminação da mensagem da peça publicitária. Um terceiro caso que me chamou a atenção, e foi analisado em Novembro/2010, foi de um lançador de dardos da Hasbro Brasil, onde os conselheiros consideraram que o anúncio estimulava a violência por parte das crianças e adolescentes, ao apresentá-los manuseando brinquedos que simulam armas de fogo. Pelo que eu senti, dentre estes, e outros casos de reclamações contra a discriminação, as inverdades, entre outros tantos, é que o sistema está funcionando, e o Conar está analisando e julgando os casos e em constante contato com anunciantes e comunidade. Apesar de toda a suspeita que a própria campanha do Conar levantou, não tenho dúvidas que este fato está dando oportunidade de debatermos sobre regulamentação de peças publicitárias. Apesar de meu otimismo, ainda estou de olho.

Filipe

fevereiro 26 2014 Responder

Realmente esse aviso do CONAR me chamou a atenção. Não vou julgar se estão fazendo certo ou não, pelo menos por enquanto. Quando os resultados aparecerem, aí todos saberemos se estão sendo permissivos demais. Não vejo grandes problemas com a propaganda brasileira, salvo marcas de cerveja e algumas exceções. Esses casos, creio que deveriam ser tratados com maior rigor.
Uma coisa, vc tem Vlog? Não sabia, vou dar uma olhada.

Marilia

fevereiro 26 2014 Responder

Acabei de conhecer seu blog (na verdade o seu vlog, e por ele o blog) e estou adorando. Sobre a propaganda, vi esses dias. Achei que tinha sido feito só pela AlmapBBDO, mas agora eu vi que a produção foi da Dogs Can Fly mesmo. Nada surpreendente, considerando que a CONAR é formada praticamente só por homens brancos e que a AlmapBBDO tem uma tradição de trabalhar para empresas antiéticas (já trabalharam com Veja, Marisa, etc). Eu me sinto envergonhada como designer de ser da mesma profissão que o povo dessas duas agências. Mas principalmente, eu, como ativista, me sinto silenciada e ignorada, afinal de contas como você muito bem disse, não se pode denunciar o Conar ao Conar. Foi um comportamento ofensivo, pedante, arrogante, mau caráter e infantil vindo de uma empresa que deveria servir justamente pra regular esse tipo de atitude na mídia. Parabéns e continue com o ótimo blog!

    Robson Fernando de Souza

    fevereiro 26 2014 Responder

    Obrigado, Marilia =) Bem vinda ao Consciencia.blog.br =)

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