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fev14

“Menos Estado, mais polícia e força militar”: uma “contradição” de direita
Desconfie do discurso de quem defende ao mesmo tempo "menos Estado" e mais polícia/exército. Discursos assim não são pela segurança e pela paz, mas sim para outra coisa.

Desconfie do discurso de quem defende ao mesmo tempo “menos Estado” e mais polícia/exército. Discursos assim não são pela segurança e pela paz, mas sim para outra coisa.

A maioria da direita radical, dos “libertários” aos fascistas, defende uma presença forte do aparelho armado do Estado (polícia e forças armadas) na sociedade, de modo a “trazer segurança”, “manter a ordem” e “proteger a soberania nacional”. Mas curiosamente uma grande parcela dos direitistas, abrangendo principalmente conservadores contemporâneos, liberais livremercadistas e “libertários”, defende simultaneamente a diminuição de quase todos os poderes e competências do Estado. Em outras palavras, temos uma suposta contradição na direita, de pedir ao mesmo tempo por menos Estado e mais controle armado estatal. Mas percebendo melhor, isso não é uma contradição, mas sim um dos propósitos centrais dessa parcela do espectro político-ideológico moderno.

Há de fato a intenção, na direita de diversos países, de tirar do Estado competências como construir e administrar patrimônio público, promover políticas equitativas de inclusão social e impedir, por via da regulação, que a “liberdade” econômica de uns passe por cima dos direitos e liberdades de outros. E ao mesmo tempo ela é munida do objetivo de convertê-lo naquilo que Marx denunciava no século 19: o braço armado da elite empresarial, existente mais para silenciar à força movimentos sociais e demandas emancipatórias do que qualquer outra função.

A dessocialização do Estado é um legado de algumas doutrinas (neo)liberais ortodoxas. Convenientemente divorciadas do liberalismo social, elas defendem a privatização de tudo aquilo que seja patrimônio público, desde empresas estatais de serviços e produtos até bens e instituições de uso comum (parques, rodovias, ferrovias, aeroportos, teatros, universidades etc.). Paralelamente reivindicam que as únicas entidades a serem mantidas “públicas” sejam a polícia, as forças armadas e os tribunais.

E nessa demanda por um Estado mais policial e militar e menos social, usa-se o pretexto de que se quer “mais segurança” e um “melhor combate ao crime”. Mas quem tem o mínimo de noção sobre as causas da violência nos mais diversos países sabe muito bem que a superexecução da lei, ainda mais isolada de políticas de diminuição radical das desigualdades sociais e esforços radicais de mudança daqueles valores culturais baseados na naturalização da violência, nunca funcionou enquanto meio de livrar uma sociedade de seus flagelos criminais. Aliás, apenas piorou o estado de crimes violentos contra a vida e a propriedade doméstica, como tem sido observado no Brasil e em países que enfrentaram ou enfrentam uma situação de não prosperidade socioeconômica.

Tal reivindicação oculta o desejo de que a polícia – auxiliada, em casos de grandes revoltas populares, pelo exército – mantenha as classes abaixo da elite “na linha”, sob controle, “cientes” de “qual é o seu lugar”. Em outras palavras, é muito menos para promover a paz na sociedade, livrando-a da criminalidade, do que para criminalizar o ativismo político de rua, calar a esquerda e deixar os interesses da elite intocados.

Apesar da aparência dada pelo nome “liberalismo” e da sua inspiração liberal-econômica, a parcela da direita que mais se posiciona contrária ao que chamam de “Estado-babá” é essencialmente reacionária, inclusive no sentido de regressista. Isso porque se posiciona contrária à expansão das atribuições do Estado, a qual se originou com a ascensão dos Estados socialistas históricos e das socialdemocracias de bem-estar social, uma conquista, ainda que reformista, obtida pelos movimentos operários dos séculos 19 e 20. E também porque, como já foi mencionado, pretende fazê-lo regredir à tradição oitocentista de ser exclusivamente detentor do monopólio do uso legitimado da força, a ser usado contra quem desafie a ordem vigente.

Nisso percebemos como esse antiestatismo seletivo é permeado de interesses elitistas e antissociais, como o de calar violentamente os movimentos populares, enterrar as demandas da esquerda pós-Guerra Fria, derrubar as políticas públicas sociais e pró-interesses coletivos e, consequentemente, deixar o terreno nacional e/ou global livre para os mandos e desmandos das classes dominantes. Notamos também como o “liberalismo” de seus demandantes nada mais é do que uma espécie de ultraconservadorismo enrustido, pouco tendo em comum, fora a doutrina do laissez faire, com a ideologia política nascida do Iluminismo que prometia, ainda que ilusoriamente, liberdade e igualdade a todos.

Então, quando virmos algum conservador ou “liberal” livremercadista levantando de dia bandeiras escritas com frases como “Menos Estado”, “Menos intervenção estatal” ou “Abaixo o Estado-babá” e de noite defendendo o reforçamento radical da polícia e das forças armadas, desconfiemos. Não é uma contradição, um tiro no pé. Por trás desse discurso “Menos Estado, mais polícia e força militar”, há interesses escusos que pouco ou mesmo nada têm a ver com trazer liberdade, paz e segurança a todos os membros da sociedade.

imagrs

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~epix

fevereiro 13 2014 Responder

Mas o que há na imagem que indica que eles apoiam o exército e militarismo em geral?

    Robson Fernando de Souza

    fevereiro 15 2014 Responder

    Na imagem em si, nada visível. Mas a página do Facebook que a criou defende o golpe militar contra o governo do PT – pelo menos uma das suas imagens golpistas foi respondida em um dos posts de coletâneas de pérolas de páginas de direita.

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