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fev14

O falso maniqueísmo entre “cidadãos de bem” e “vagabundos”

perola-rolezinho

É tradição entre a direita conservadora brasileira fazer uma divisão maniqueísta da sociedade entre “cidadãos de bem” e “vagabundos”. Mas quem percebe direito quem realmente são os que se dizem da primeira categoria e quem é jogado na segunda, percebe que tal maniqueísmo é nada mais que uma lenda urbana que não faz sentido. Ou pior, que muitas vezes os “cidadãos de bem” poderiam ser chamados, a partir da própria “lógica” que usam, de “vagabundos” e muitos dos chamados “vagabundos” são na verdade pessoas inocentes que passam longe de atentar contra a vida e integridade alheia.

Nessa crença que divide a sociedade entre “bons” e “maus”, os primeiros seriam pessoas “cidadãs” que “pagam impostos”, “respeitam as leis”, “lutam para vencer na vida” e se dizem “incapazes” de cometer qualquer crime ou dano contra outras pessoas e também contra animais não humanos. E os segundos seriam inimigos da ordem, ameaçadores da vida alheia, preferidores de “caminhos fáceis”, como a criminalidade ou o recebimento de benefícios financeiros pelo Estado, sendo muitos deles autênticos demônios do mal que deveriam ser presos, torturados pela polícia e/ou mortos.

Mas não é difícil desmontar essa dicotomia forçada. Para isso, basta lembrar que todos os brasileiros estão propensos a cometer crimes, contravenções ou infrações em algum momento de suas vidas sem ao menos perceberem, ainda que muitos de tais delitos sejam também ações antiéticas.

Diversos costumes tradicionais incidem em violação de algum artigo de alguma lei, como, por exemplo, comprar CDs piratas no camelô, jogar lixo no chão, incidir em violência verbal contra outras pessoas (mesmo de dentro da família), “desrespeitar” a bandeira nacional ao usá-la como manto em protestos, não cantar o hino nacional em ocasiões solenes, sonegar impostos, avançar o sinal vermelho, transportar pessoas na parte externa de uma pick-up ou caminhonete, negligenciar algum direito de um ou mais funcionários de sua empresa etc. Isso é o bastante para mostrar que todo “cidadão de bem” corre o risco constante de violar alguma lei, e o fará sem perceber em algum momento da vida, e isso irá invalidar sua alegação de que “respeita as leis”.

Aliás, é visível que muitos dos direitistas que se dizem “cidadãos de bem” e opositores dos “vagabundos” têm uma concepção bastante deturpada do que é ser “do bem”.  É muito comum que esse tipo pessoa incida em preconceitos raivosos e atos de discriminação, como o ódio contra não heterossexuais, o racismo, o machismo misógino, a transfobia, o preconceito contra nortistas e nordestinos e contra imigrantes latinoamericanos, a intolerância religiosa contra minorias – em especial afrorreligiosos, espíritas, pagãos e ateus –, a discriminação e repulsa contra pessoas pobres, o capacitismo etc.

E em muitos casos, há o explícito apoio a autoridades intelectuais ou políticas conhecidas por propagar e incitar um ou mais desses preconceitos. Diversas páginas assumidamente de direita do Facebook não deixam este texto mentir, como é possível perceber em parte nas coleções de pérolas extraídas dessas fanpages disponíveis aqui no blog.

Somando-se a isso, muitos deles cometem crimes e infrações ainda mais graves do que os que foram descritos mais acima. Não é raro ver autoarrogados “cidadãos de bem”, por exemplo, comprando produtos contrabandeados, dirigindo embriagados, subornando policiais rodoviários e agentes de trânsito urbano para não pagar multa, promovendo crimes contra a honra de adversários políticos – difamação, calúnia e injúria –, agredindo pessoas em bares ou danceterias, ameaçando de morte pessoas com quem brigam em algumas ocasiões, entre outros crimes previstos em lei.

Também não são incomuns atos de assédio e agressão contra mulheres por parte de homens heterossexuais que tanto se dizem “do bem”, como cantadas nas ruas e nas baladas; agressões verbais, psicológicas ou mesmo físicas contra suas namoradas, esposas ou noivas; hostilização contra mulheres e garotas vítimas de estupro e/ou vazamento de conteúdo íntimo e inocentação e solidariedade aos agressores; entre outros abusos de caráter misógino.

Outra atitude marcante de muitos ditos “cidadãos de bem” é a de não só atentar contra a lei que tanto dizem venerar e respeitar, mas também exigir a suspensão da própria ordem legal vigente, o intitulado Estado Democrático de Direito. E isso acontece quando ora demandam um golpe militar que novamente enterre o pouco que há de democracia no Brasil hoje, ora exigem implícita ou explicitamente o fim da liberdade política e de expressão das pessoas de esquerda e a censura ao estudo de ideologias esquerdistas nas instituições de ensino, ora incitam que a própria Constituição e o próprio Código Penal sejam desvalorizados em prol de execuções sumárias por parte da Polícia Militar – execuções essas que não raramente deixam de distinguir entre criminosos civis procurados e pessoas inocentes –, ora apoiam ações de tortura e extermínio por policiais etc.

Por outro lado, entre os “vagabundos” tão mal falados entre essa gente, não há apenas criminosos de alta periculosidade, ao contrário do que se possa acreditar num primeiro momento ao se pensar sobre quem seria “vagabundo”, mas também toda a sorte de pessoas indesejadas pelos que se autodenominam “cidadãos de bem”.

Não é nada raro ver sendo rotulados como “vagabundos”, postos lado a lado com criminosos civis perigosos, pessoas como jovens pobres participantes de “rolezinhos”, funkeiros, esquerdistas, feministas, ateus, indígenas, homossexuais militantes, sem-terras e sem-tetos, beneficiários do Bolsa Família, usuários de drogas ilegais, entre diversas outras categorias de pessoas que estão longe de enveredar para uma vida de cometimento de crimes contra outrem.

E por outro lado, não é costume dos “cidadãos de bem” tachar de “vagabundos” também os defensores do ódio contra homossexuais e pessoas trans, policiais torturadores, ditadores de direita, militares que participaram ativamente de torturas e perseguições políticas na ditadura de 1964-85, homens brancos ricos envolvidos em crimes de grande evidência, comentadores de notícias os quais vomitam toda uma variedade de preconceitos e ódios contra minorias, autores de matérias jornalísticas que desrespeitam pessoas trans, “humoristas” que incitam o bullying e o preconceito, empresários que superexploram os funcionários da base hierárquica da empresa, latifundiários que empregam trabalho escravo e/ou matam opositores através de pistoleiros, entre tantas outras pessoas inegavelmente muito mais nocivas à integridade física e psicológica alheia do que, por exemplo, usuários de maconha e funkeiros.

Diante de tantos abusos por parte dos que tanto fazem questão de se autorrotular “cidadãos de bem” e “honestos pagadores de impostos”, percebemos como não faz nenhum sentido o maniqueísmo entre eles e os “vagabundos”. Tanto muitos dos chamados “vagabundos” são muitas vezes pessoas discriminadas e injustiçadas, desprovidas de qualquer intenção de cometer crimes contra a vida, contra a honra alheia ou mesmo contra a propriedade, como muitos dos próprios que tanto se arrogam “do bem” costumam violar a lei e até mesmo incidir em comportamentos obviamente perigosos a outras pessoas.

Em outras palavras, essa dicotomia maniqueísta é tão vazia de sentido e coerência que muitos “vagabundos” são na verdade pessoas éticas que prezam por fazer o bem, e grande parte dos “cidadãos de bem” têm atitudes que fazem deles piores até mesmo do que muito “vagabundo” autor de crimes hediondos por aí.

Nota: Algumas pessoas questionaram o uso das expressões “de bem” e “do bem” como se tivessem o mesmo significado, alegando elas que têm sentidos diferentes, sendo “do bem” algo tendente à concepção moral de origem cristã e “de bem” a expressão que melhor descreve a hipocrisia dos “cidadãos de bem”. Mas diante de notícias como essa, convém concluir que, quando alguém se autoarroga “cidadão de bem”, esse “bem” realmente tende a derivar do moralismo cristão, do maniqueísmo também cristão que imagina uma separação entre “seres do bem” e “seres do mal” e convenientemente bota o arrogante indivíduo como se fosse um “guerreiro do bem contra as forças do mal”.

Portanto, argumento aqui que “de bem” e “do mal” têm o mesmo significado nesse contexto da arrogância de quem se intitula “cidadão de bem” ou “pessoa de bem” mas ao mesmo tempo defende tortura, preconceitos, ódio contra minorias e outras excrescências e é conivente perante tantas pessoas muito mais perigosas do que mesmo a maioria dos “vagabundos” condenados por crimes.

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12 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Marco

novembro 1 2014 Responder

Não é correto colocar tudo no mesmo saco. Bandido é bandido e gente honesta é gente honesta. Se um cara bate em mulher ou humilha homossexual, não pode ser considerado cidadão do bem, independente de sua posição social, se paga imposto, se tem ou não família…mas, faça-me o favor: Não compare um cidadão que trabalha e batalha com bandidos que roubam e matam por aí. Entenda que quando digo cidadão do bem, não sãos os ricos não. Me refiro a todos, desde pedreiros, operários, até empresários e industriais de boa índole, que têm ética, uma palavra que os cidadãos no mal (bandidos e vagabundos) não conhecem.
Não misture as coisas senão quem vai prosperar são só os do mal.

    Robson Fernando de Souza

    novembro 2 2014 Responder

    Marco, vc trouxe aqui justamente a divisão maniqueísta do povo refutada pelo artigo.

Ronaldo

abril 24 2014 Responder

Não posso nem devo ser o meu semelhante. Não estou aqui para empurrar ninguém. Troquei minha raiva e meu choro pela paciência e pelo entendimento.

Ronaldo

abril 24 2014 Responder

Quando evoluiremos socialmente? Sem bons referênciais? Sêres humanos, assumam sua mente, pensem, se puderem! O acaso, a força, o poder e a opressão são coisas de animais acéfalos que tratam o próximo pior que mineral!

destro

março 13 2014 Responder

típico post de canhoto. não tenho ficha criminal, pago imposto e respeito as leis. sou cidadão de bem, não cometi crimes, não dependo de bolsa família e vale crack.

canhoto tem que viver com canhoto, lamentando por igualdade e assim que assume o poder esquece de todo o discurso.

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