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O humanismo seletivo da direita no Brasil
A direita se fantasia de "humanista" só em situações nas quais há a oportunidade de ganhos políticos.

A direita se fantasia de “humanista” só em situações nas quais há a oportunidade de ganhos políticos.

Atualizado em 01/04/2014

A direita brasileira, dos conservadores aos “libertários”, incluindo desde a mídia de grande porte e seus colunistas até políticos e donos de páginas facebookianas e blogs, costuma muito posar de “humanista”, como se incluísse verdadeiramente entre suas bandeiras causas como o combate à corrupção e ao preconceito, a oposição à miséria de uma grande parcela dos brasileiros, a defesa das liberdades democráticas e a promoção da paz. Mas olhando direitinho sobre quando e como essas bandeiras são sacudidas, percebemos que esse “humanismo” direitista é seletivo e só “funciona” quando a intenção é opor-se à esquerda e suas lutas e divulgar as ideologias de direita como “melhores” que as de esquerda.

É bastante perceptível que a direita age como “humanista” geralmente quando o problema abordado pode ser demagogicamente explorado, por render ganhos políticos e inspirar críticas verossímeis a falhas confirmadas ou apenas supostas vindas da esquerda. Nos demais casos, igualmente sérios ou ainda mais graves mas que não despertam os mesmos interesses, vira as costas.

É extensa a lista de evidências fortes de “humanismo” seletivo e politicamente interesseiro vindo da direita:

– Respeito à vida, só de fetos e embriões de gravidez indesejada, de policiais e de “cidadãos de bem” conservadores. Civis em situação de vulnerabilidade social, incluindo as mulheres que sofrem com gestação involuntária, são ignorados, ou mesmo atacados com adjetivos como “vagabundos(as)”, “promíscuas” e “preguiçosos”, ao mesmo tempo em que se defende pena de morte, legalmente regulamentada ou clandestina, contra alguns tipos de “vagabundos”;

– Repúdio a genocídios e terrorismos de Estado, somente quando eles foram ou são causados por regimes de esquerda autoritários. Nem uma palavra sobre assassinatos em massa em ditaduras de direita e em países capitalistas ditos “democráticos”, tampouco de autoria de Estados que promovem intervenções militares invasoras em outros países – mesmo no caso dos regimes nazi-fascistas, cujas atrocidades só são lembradas quando usadas para comparações com as promovidas por ditaduras socialistas. Muitos direitistas, aliás, não só dispensam qualquer sentimento de indignação para violências de Estado em grande escala vindos de regimes de direita como também tentam minimizá-las e justificá-las – sendo isso comum, por exemplo, para tentar legitimar os assassinatos promovidos por Estados como o Brasil da ditadura militar, o Chile sob o domínio de Pinochet e os EUA em suas invasões a países do Oriente Médio;

– Comoção com trabalho escravo(?), só para com médicos cubanos e outras pessoas cujos empregos são atrelados a Estados socialistas. Pouco se fala sobre situações comprovadas de escravidão moderna, como boias-frias submetidos a trabalho degradante em grandes fazendas e costureiras que trabalham com renda ausente ou baixíssima para empresas terceirizadas a serviço de grandes grifes;

– Rejeição a alianças diplomáticas, só de países com regime oficialmente socialista. Protesta-se com força contra as parcerias entre o Brasil e países como Cuba e Venezuela, mas silencia-se perante acordos feitos com nações vítimas de tirania como a China e a Arábia Saudita;

– Ordem e paz, só para as classes média e alta. A reivindicação de ordem não costuma ser estendida a comunidades castigadas pela violência policial e comunidades indígenas, quilombolas ou camponesas, frequentemente assoladas por pistoleiros a mando de latifundiários ou mesmo por policiais;

– Contra a corrupção, só se os corruptos forem do PT ou de algum partido considerado (verdadeiramente ou não) de esquerda, como o PCdoB e o PSOL. Pouco ou nada se dedica a criticar escândalos aprontados por gente de partidos como o PSDB, o PMDB, o PSD, o DEM e o PR, como os casos do “Trensalão” e o “Mensalão do DEM”;

– Falar de inclusão das mulheres e negros em posições sociais de poder e prestígio, só quando se tenta argumentar que a mulher e o negro “já têm” acesso fácil a status elevados, dependendo apenas do esforço meritório do indivíduo negro e/ou feminino, e “provar” isso com casos na verdade excepcionais, como Margaret Thatcher, Angela Merkel, a ex-ministra do STF Ellen Gracie Northfleet, Joaquim Barbosa e Machado de Assis;

– Preocupação com a miséria, só de habitantes de países sob regime político socialista. Ou então, ao explorar o problema da miséria no Brasil para atacar os governos federais do PT como “incapazes” de resolvê-lo. E é uma “preocupação” que não se empenha em buscar soluções políticas de inclusão social, fora dizer que, por exemplo, o “desenvolvimento” econômico faz grandes empresas gerarem empregos;

– Liberdade de expressão e de manifestação política, só para gente de direita, incluindo “humoristas” “politicamente incorretos”. É comum que muitos dos mesmos “defensores” dessas liberdades sejam contra a crítica a esses “humoristas” e a favor da censura contra ideologias de esquerda, mesmo que essas críticas e abordagens ideológicas sejam feitas sob as bênçãos da livre expressão e da livre consciência política;

– Democracia, só nos moldes determinados pela ideologia liberal-conservadora, e elegendo só direitistas – ou no máximo aceitando representantes de centro dentro de partidos como o PSDB, o PMDB e o DEM. Inclusive muitos conservadores são contra o aumento das prerrogativas democráticas dos eleitores e a radicalização da participação dos mesmos nas decisões políticas tomadas pelo poder público;

– Oposição a ditaduras, só se elas tiverem inspiração de ideologias esquerdistas, como na União Soviética, em Cuba e na Coreia do Norte. Ditaduras de direita, como as diversas que existiram na América Latina no século 20, não só são poupadas de críticas como também costumam ser “justificadas”. Além disso, muitos opositores de ditaduras de esquerda defendem um golpe militar no Brasil, com o alçamento ao poder de alguém da direita radical, seja um ditador civil, um militar tirano ou uma junta de militares, depois da derrubada, por exemplo, de Dilma Rousseff;

– Liberdade, apenas de conservadores manterem seus costumes, por mais opressores e prejudiciais a outrem que sejam, como contar e rir de “piadas” preconceituosas e aproveitar-se da “liberdade” econômica para violar direitos alheios. São desprezadas, ou mesmo negadas, liberdades como a de homossexuais de demonstrarem afeto em público e se casarem, a de pessoas trans de serem quem são, a de pessoas pobres de frequentarem o espaço universitário sem serem estudantes desses locais, a de artistas de rua de se apresentarem em diversos lugares públicos de cidades como São Paulo, a de trabalhadores de fazerem greve e protestos de rua, entre outras. Essa é uma das bandeiras mais falsamente apropriadas pela direita;

– Oposição (?) ao preconceito, só na tentativa de colocar opressores na qualidade de oprimidos. Quando o movimentos negro, o ativismo não heterossexual e o feminismo agem criticando homens brancos heterossexuais preconceituosos, sofrem, em resposta, acusações como “racismo reverso”, “heterofobia” e “femismo/misandria”. Tenta-se negar a existência de uma cultura de racismo, heterossexismo e misoginia no Brasil, afirmando-se ao mesmo tempo que tudo não passaria de “humanofobia” e falta de “consciência humana”, e que deveria haver “igualitarismo” ao invés de feminismo;

– Defesa da igualdade, só para rejeitar políticas de equidade e inclusão social e dizer que minorias políticas discriminadas já seriam iguais perante a lei e, portanto, não precisariam de medidas afirmativas. Em outras palavras, a única “igualdade” defendida é aquela que se opõe à equidade, ou seja, a igualdade em amparar com a mesma “neutralidade” pessoas historicamente tratadas como desiguais – como mulheres negras pobres e homens brancos ricos;

– Oposição à intolerância religiosa, só quando cristãos são vitimados por elas. Nega-se apoio a ateus, afrorreligiosos, espíritas, muçulmanos, judeus, pagãos etc. que lutam contra a intolerância vinda de cristãos;

– Ativismo político, só quando os privilégios do “ativista” estão sendo postos em xeque e prestes a serem eliminados em prol da justiça social ou convertidos em direitos universais concretizados. Uma das grandes razões do aparecimento de tantas páginas conservadoras e assumidamente reacionárias no Facebook é o inconformismo perante a durabilidade da estadia do PT no comando do governo federal. Enquanto isso, o mesmo ativismo não é visto opondo-se, por exemplo, aos quase 20 anos de governos consecutivos do PSDB no estado de São Paulo, tampouco aos escândalos de corrupção e abusos durante os mandatos de governadores como Mario Covas, Geraldo Alckmin e José Serra;

– Repúdio ao nazismo e ao fascismo, apenas na intenção de compará-los ao socialismo autoritário do século 20, tão tachado de “comunismo”. Não falam uma vírgula contra neonazistas e neofascistas – pelo contrário, não faltam direitistas simpatizantes ou mesmo aliados de neofascistas assumidos, e seu silêncio perante crimes e discursos de ódio vindos de neonazistas é sepulcral;

– Comoção com mortes em contextos políticos, só quando elas foram supostamente causadas por gente de esquerda. Quando pessoas morrem nas mãos, por exemplo, da PM, a omissão é constrangedora. Vide o caso emblemático do cinegrafista Santiago Andrade, cujo assassinato tem-se tentado atrelar de forma manipulada e forçada às ações de adeptos da tática Black Bloc e recebeu, muito menos pela perda trágica e violenta de um ser humano do que pela atribuição de sua autoria a “vândalos de esquerda”, a comoção de diversas páginas de direita. Enquanto isso, diversos jornalistas e cinegrafistas foram mortos ou seriamente feridos sem ser por supostos indivíduos do BB, mais da metade deles injuriados ou assassinados por policiais militares, mas seus casos tiveram como resposta dos conservadores nada mais do que silêncio.

Esses exemplos, que, mesmo numerosos, ainda assim não englobam a totalidade de casos flagrantes de humanismo seletivo vindos da direita brasileira, mostram como ela só pega em bandeiras humanistas em situações nas quais é possível promover politicagem pró-direitista e/ou antiesquerdista. Lembramo-nos aí que é uma necessidade distinguir entre os humanistas autênticos, que realmente desejam o triunfo da ética, e os indivíduos que se mascaram de humanista em algumas situações mas, no fundo, não dão a mínima para a miséria de bilhões de pessoas e colocam-nas muito abaixo de seus interesses políticos egoístas.

Com isso, torna-se imperativo que se aborde essa direita que se disfarça de “humanista”, com questionamentos como: “Você tem essa mesma dedicação humanista quando [mencione aqui uma ou mais situações que não puderam ser politicamente exploradas]? Se sim, mostre quando teve.”; “Você é contra ditaduras em qualquer situação ou só quando a ditadura é de esquerda?” ou “Você que diz defender a liberdade, me conta como reage quando vê gente pedindo golpe militar ou a censura do marxismo nas escolas, e quando vê cristãos fanáticos depredando terreiros de umbanda.”

Leia aqui uma lista mais abrangente de contradições, incoerências e hipocrisias que mostram mais aspectos do falso humanismo da direita brasileira

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5 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Filipe

fevereiro 20 2014 Responder

Perguntei sobre Black Blocs porque não tenho mesmo muitas informações sobre o assunto. Só não entendo o que são depredações simbólicas, pois sempre vi depredações como algo ruim, não importa feito por quem. Me lembra a farra do boi, tradição local onde ocorrem pequenas depredações e desrespeito à propriedade e que graças a Deus está sendo extinta.

    Robson Fernando de Souza

    fevereiro 21 2014 Responder

    1. Depredações simbólicas ocorrem contra símbolos do capitalismo, em especial bancos, já que lucram bilhões de reais/dólares/euros/etc. explorando as pessoas. Se depredações são “sempre” algo ruim, o que você diria se depredassem a sede do DOI-CODI na época da ditadura?
    2. Pra você o grande problema da farra do boi é não a tortura de animais, mas sim a depredação de propriedade?

      Filipe

      fevereiro 21 2014 Responder

      1 . Sim, depredações são sempre ruins. Acontece que no caso do DOI-CODI eram feitas torturas, enquanto que em Bancos, não. É bem diferente. Há formas melhores de resolver, até porque quebrar patrimônio dos Bancos prejudica a própria população, que usa seus serviços. Há uma diferença entre o que nós achamos errado e o que a Lei e até o senso comum define o que é errado. É preciso pensar nessas definições e é o que venho fazendo.
      2. Na farra do Boi, tudo é ruim. Tenho familiares que quase se machucaram; terrenos são invadidos; direitos são desrespeitados. Sem falar no sofrimento do animal. A minha Igreja faz um trabalho de conscientização, inclusive lutando contra a cultura local.

Filipe

fevereiro 19 2014 Responder

Olá Robson.

Mais um texto que me leva a refletir. Confesso que é muito difícil não tentar impor o que é certo para mim às outras pessoas. Como também é difícil tentar defender certas posições hoje em dia.
Duas dúvidas:
Como vc vê o movimento dos Black Blocs?
Você acha que tanto a direita quanto a esquerda, se extremadas, levam à ditadura?

    Robson Fernando de Souza

    fevereiro 20 2014 Responder

    1. A compreensão sobre a atuação do Black Bloc tem sido gravemente atrapalhada pela mídia reacionária que temos. De tática de protesto baseada em defesas contra a violência policial e depredações simbólicas de símbolos do capitalismo, o BB tem sido forçadamente “divulgado” pela mídia como um “grupo organizado” cujo objetivo seria a nera depredação aleatória, a “violência gratuita” e a “busca de adrenalina” por indivíduos “baderneiros”. Quem quiser entender de verdade o BB, terá que fugir da mídia como o diabo foge da cruz.
    2. A direita extremada pró-ditadura já está em ação, nas páginas de onde eu retiro as coleções de pérolas reaças. Se a direita assumidamente autoritária dá à luz regimes fascistas e ditaduras militares, a direita “libertária” ameaça originar plutocracias corporativas nas quais o Estado nada mais será do que o braço armado das grandes empresas e tudo será comandado pelas empresas dotadas de poder econômico e político. Já da esquerda, só vejo possibilidade de ditadura a partir de interpretações pró-autoritárias do marxismo, que deram origem ao bolchevismo soviético, ao stalinismo, ao maoísmo e a outras vertentes ditatoriais de regime socialista.

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