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fev14

Sobre o uso da expressão “direitos dos manos” por opositores dos Direitos Humanos
Uma das pérolas de páginas de direita respondidas aqui no blog usando a expressão "direitos dos manos"

Uma das pérolas de páginas de direita respondidas aqui no blog usando a expressão racista “direitos dos manos”

Muita gente costuma usar o termo “direitos dos manos” com a premissa de que os grupos de defesa dos Direitos Humanos têm o costume de privilegiar os “direitos dos bandidos” sobre os de suas vítimas – e falam como se o bom trato legal e penitenciário de detentos não influenciasse na diminuição da criminalidade e no desempoderamento da cultura de violência vigente. Não percebem, no entanto, que estão incidindo em racismo e preconceito de classe ao associar uma tribo urbana majoritariamente de negros pobres, a tribo dos manos e minas, à autoria de crimes como assaltos, narcotráfico e homicídios.

Manos (palavra que significa “irmãos”) e minas são jovens das periferias de algumas cidades brasileiras, a grande maioria negros, com usos e costumes peculiares, como o gosto por rap, hip-hop e funk e o uso de roupas como bermudões e calças folgadas. Têm uma rica gíria (aqui tem uma amostra de seus jargões), que inclusive expressa o quanto são apegados à amizade e à parceria – à brodagem, como muitos deles falam – e também à música. E inclusive muitos encontram nas manifestações culturais, com destaque para a música e a arte de grafite, e práticas esportivas, como o futebol e o basquete, oportunidades para se afastarem das privações sociais a que são submetidos nas favelas e sofrerem menos preconceito e discriminação.

Para a infelicidade deles, existe o preconceituoso vício de associar a figura do mano com a criminalidade, muito embora haja criminosos civis de todas as tribos urbanas. Isso porque se costuma associar crimes como assaltos e tráfico de drogas à figura do rapaz negro pobre, que, segundo a imaginação meritocrática, determinista, racista e elitista do senso comum, seria “mau de nascença” e teria “preguiça” de buscar qualidade de vida por meios legais.

E nesse costume nefasto, atribui-se a autoria desses tipos de delitos aos manos, imaginados como se tivessem uma probabilidade muito maior de recorrer à sua prática do que rapazes brancos de classe média, por serem considerados “preguiçosos” e “vagabundos” – tanto no sentido de “vadios” como no de “criminosos”. Com isso, muitas vezes o mano é costumeiramente confundido, ou mesmo prejulgado, como criminoso em potencial ou ativo.

Paralelamente, é costume os opositores da causa dos Direitos Humanos – muitos deles, aliás, internalizadores de fortes racismo e elitismo – associarem-na às supostas defesa inocentadora de criminosos civis e omissão perante as vítimas deles. E nisso, com a associação imaginária da figura do mano com o cometimento de crimes nas ruas, tacham os DH de “direitos dos manos”.

Mal percebem esses opositores que estão banhando sua já preconceituosa posição com racismo e preconceito de classe, ao popularizarem e banalizarem a mencionada expressão e, com isso, piorarem a já gritante situação de discriminação e marginalização contra a tribo urbana dos manos e minas. Ao mesmo tempo em que se colocam contrários à atuação das ONGs de DH, em se tratando do trabalho de converter o sistema penitenciário brasileiro de vingador a regenerador e criticar as ações assassinas promovidas pela Polícia Militar, roubam de muitos inocentes, os manos da periferia, os mesmos Direitos Humanos.

Com isso percebemos como o discurso da oposição reacionária ao trabalho de defesa dos DH não só atrapalha o tratamento da violência urbana, como também criminaliza uma parcela grande, em número e notoriedade, da juventude negra brasileira e incita atentados racistas contra a integridade e mesmo a vida dos jovens negros da periferia urbana brasileira. Então, a quem insiste em usar o termo “direitos dos manos” para desmerecer os Direitos Humanos, fica o aviso: apenas parem, e em seguida reconheçam seu racismo e elitismo internalizados.

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Daniel de Oliveira Santoro

julho 20 2014 Responder

Bem colocado o texto, até concordo que a expressão é racista e generalista, mas gostaria de entender de que forma todos os membros da sociedade são diretamente protegidos pelos Direitos Humanos, já que essa expressão visa entender que todos os humanos são diretamente visados pelo órgão. Se ele visa diretamente apenas os transgressores periféricos (ou os injustamente acusados assim) entendendo que ele não teve outro caminho ou militar a correta ideia de que isso é uma generalização preconceituosa, não seria mais correto que o órgão fosse intitulado Direitos dos Réus, Direitos dos Marginalizados ou outro nome menos generalista que indicasse seu foco e causasse menos confusão? Deixo bem claro que o teor da minha questão é puramente analítico e a crítica é construtiva, sem a finalidade de ofensa, se alguém se sentiu ofendido peço já desculpas.

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