13

abr14

A cobra que engole a si mesma: a contradição da “liberdade” econômica

cobra-liberdade-economica

Dentre as “liberdades” individuais defendidas pela direita, a principal e suprema delas é a econômica. Consiste em acumular livremente riquezas, gastá-las ou investi-las como quiser e expandir o tamanho e o lucro de sua(s) empresa(s) à vontade sem nenhuma interferência do Estado, assim como não ter parte significativa de sua renda e lucro suprimida pelo pagamento de impostos. Mas uma observação atenta nos faz concluir que essa “liberdade” tanto serve apenas para poucos como implica a não liberdade econômica de muitos.

Há vários indícios de que a liberdade econômica não é tão liberdade assim. Um exemplo é o quanto cada indivíduo tem de liberdade para acumular dinheiro e investir capital e tempo para adquirir habilidades empreendedoras e criar um negócio fadado a evoluir de micro para grande empresa.

É absurdo crer que, num país cuja economia é de livre mercado e cujo Estado seja mínimo, um trabalhador braçal que ganhe 500 dólares por mês por uma jornada semanal de 54 horas tenha condições de levantar, apenas com seu esforço individual, um negócio promissor e muito lucrativo. Mal consegue pagar por itens básicos como alimentos e roupas e serviços como água e esgoto, luz, telefone, gás, saúde e transporte, e seu tempo fora do trabalho é inteiramente gasto no ônibus (ida e volta), nas refeições de casa, no descanso acordado e no sono.

É improvável que pessoas nessas condições consigam juntar dinheiro para, por exemplo, cursar Administração de Empresas ou Gastronomia – pagando por mensalidades, livros, documentos, impressão de trabalhos acadêmicos, restaurante universitário e transporte coletivo – e paralelamente investir na abertura de uma lanchonete com possibilidades plenas de expansão e consolidação de marca no mercado.

Tantos outros casos de limitação da mobilidade social ascendente surgem quando se privatiza o ensino básico, profissionalizante e universitário. É lotérica a probabilidade de crianças muito pobres, cuja família não tem condições financeiras de mantê-la bem alimentada e saudável, conseguirem passar, digamos, 18 anos de sua vida em escolas e faculdades privadas bem reputadas. Com isso, é improvável que terminem esses estudos e ostentem as mesmas habilidades empreendedoras ou gerenciais de filhos de pais endinheirados, que nunca tiveram problemas com o usufruto de serviços essenciais privados nem precisaram comprometer um pedaço enorme de cada dia com trabalhos subalternos de esforço intensivo.

Outro problema da defesa da “liberdade econômica”, a qual implica a não intervenção estatal na economia, é a supressão de direitos trabalhistas. Estes, pelo menos teoricamente, dão aos trabalhadores da base hierárquica das empresas uma margem mínima para o estudo profissionalizante e ao acúmulo de capital suficiente, este que lhes permitiria investir na criação de negócios próprios ou em habilidades favoráveis à ascensão funcional na empresa à qual servem. Sem essa ajuda, permanecerão presos em empregos cuja remuneração mal pode pagar por serviços e bens de primeira necessidade, e cuja jornada de trabalho os impede de estudar e de estar descansados e relaxados para desenhar projetos profissionais dotados do objetivo de fazê-los “vencer na vida”.

Ao mesmo tempo que seu trabalho árduo dá lucros às camadas mais altas da hierarquia empresarial, eles próprios são desprovidos da capacidade de usufruir da liberdade econômica. Em outras palavras, a “liberdade econômica” defendida pelos livremercadistas termina por e negar, e não potencializar, a própria liberdade econômica a grande parte da sociedade. Ela nada mais é que um privilégio ao qual a esmagadora maioria da população pobre nunca terá acesso.

Esses problemas, que sequer são os únicos da defesa direitista do livre mercado, mostram como a liberdade econômica de molde “libertário” é uma contradição por si só. É a cobra do “Não pise em mim” engolindo a si mesma a partir do rabo. No final das contas, o que os livremercadistas acabam defendendo de fato é a supressão da liberdade econômica da maioria da população em favor da dos grandes empresários. É a transformação desse tipo de “liberdade” em privilégio, em liberdade de uns poucos de dominar e explorar os muitos outros.

imagrs

3 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Felipe

novembro 11 2015 Responder

Queria debater sobre o exemplo do trabalhador que recebe 500 dólares, minha intenção não é ofendê-lo.
Para começar, analisemos o caso inicial: livre mercado, sem imposto sobre seu trabalho e imposto baixíssimo sobre produtos consumidos: na sua visão, um trabalhador que receba 500 dólares terá dificuldade de sustentar a sua família.
Agora, vamos imaginar que existem leis trabalhistas, tomarei como sendo as leis brasileiras: no Brasil, o trabalhador recebe aproximadamente 35% do que seu empregador gasta com ele. Tomarei como sendo 30% somente, para não ser tão radical. Fazendo uma conta simples, teremos que o trabalhador que antes recebia 500 dólares, agora receberá somente 350 dólares. Pois bem, não creio que com 350 dólares ele conseguirá sustentar sua família. Mas digamos que ele consiga, e ainda lhe sobre 50 dólares ao final do mês.
Agora, pegaremos o caso acima, e vamos considerar que todo produto que o trabalhador gastou tenha imposto de 20% em média imbuído, algo semelhante ao Brasil. Se antes ele gastava 300 dólares, agora é legl gastará 20% a mais, ou seja, 360 dólares, algo que ele não conseguiria pagar, já que seu salário é de somente 350 dólares.
Para mim, parece claro a inconsistência do seu exemplo, espero que possa me esclarecer melhor seu ponto de vista, desde já, agradeço.

    Robson Fernando de Souza

    novembro 11 2015 Responder

    Olá, Felipe. Não se preocupe, a discordância é muito bem-vinda por aqui (desde que não incite preconceito e intolerância nem seja agressiva).

    Sobre esse caso, acho que você acaba colocando o imposto como única variável que torna um salário baixo ou suficiente. Não levou em consideração questões como o preço dos produtos, as condições do trabalho que o trabalhador exerce (em especial se o trabalho que ele exerce realmente só vale 500 dólares, ou poderia valer mais se a cúpula da empresa quisesse), o poder de compra daquele dinheiro, ente outros.

    A depender dessas condições, 500 reais pode ou ser um salário muito bom num contexto de moeda forte, poder de compra alto e mercado que (idealmente) sabe se regular e ser ético, ou pode ser irrisório e insuficiente pra uma vida familiar ou individual razoável. E em grande parte dos países ditos desenvolvidos, precisaria haver uma deflação tremenda pra esse dinheiro ser suficiente e permitir, por exemplo, que o trabalhador faça cursos de graduação e pós-graduação, cursos complementares e poupe pra fins de investir num negócio próprio com chances elevadas de prosperar e se tornar uma grande corporação.

    Abs

THIAGO

novembro 27 2014 Responder

Já cheguei a tentar argumentar no sito do Mises Brasil, apontando algumas das contradições que vc elencou, mas esse povo… simplesmente há algo muito errado com ele… :(

Sua opinião é bem vinda, desde que respeitosa. Fique à vontade para comentar abaixo