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A direita brasileira atenta contra a implantação da meritocracia que ela própria diz defender

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A direita brasileira moderna, exceto talvez alguns grupos neofascistas e/ou ultraconservadores, costuma se dizer defensora da meritocracia, da atitude do indivíduo de lutar para ascender socioeconomicamente e “vencer na vida” graças ao seu próprio esforço. Pelo menos perante a visão de mundo acostumada com o capitalismo, é um ideal “muito bonito” e, segundo algumas pessoas, todos deveriam lutar pela concretização de uma utopia na qual não existisse nenhuma outra maneira de crescimento pessoal fora o valoroso esforço meritocrático, que seria iniciado em condições igualitárias de oportunidade por cada ser humano. Mas na verdade o que a direita brasileira, pelo menos uma parcela enormemente significativa dela, defende é algo distante de uma utopia socioeconômica meritocrata.

Deixe-se claro, antes de prosseguir, que este artigo não defende a meritocracia como um ideal pelo qual a sociedade deveria se guiar para alcançar um estado generalizado de justiça social e a universalização das condições dignas de vida. Há diversos pontos a serem questionados sobre ela enquanto utopia ou suposta realidade, como a impossibilidade de 100% das pessoas serem beneficiadas pela ascensão social meritocrática, a necessidade de hierarquias inerente a ela, a oposição entre meritocracia e igualdade de direitos e de condições de vida, seus conflitos com formas avançadas e radicalizadas de democracia, o estímulo à segregação moral da sociedade entre os “fracassados” e os “bem sucedidos”, seu fracasso enquanto ferramenta de combate à pobreza em todas as sociedades capitalistas, entre tantos outros. Mas as discussões sobre essas questões são assunto para outras ocasiões mais propícias.

Este texto, longe de se posicionar a favor da meritocratização da sociedade e da economia e consentidor da ordem social capitalista, mostra como a posição da direita sobre a meritocracia, mesmo a partir do próprio ponto de vista capitalista, é falha e também hipócrita. Denuncia como as colocações dela entram em franca contradição com a imaginada utopia na qual o mérito do esforço individual seria o bastante para “subir na vida”.

A meritocracia pressupõe que todos os seres humanos, independente de classe social, gênero, raça e etnia, nacionalidade e presença ou ausência de deficiências, tenham condições, ou pelo menos oportunidades suficientes, de iniciar uma trajetória de vida marcada por planejamento, estabelecimento de metas, aquisição constante de conhecimento profissional, esforço permanente em prol do crescimento pessoal, superação de dificuldades, enfrentamento de situações de crise etc.

Essa autêntica aventura de “caça ao tesouro” proporcionaria que, a partir de dado momento, o indivíduo tivesse alcançado um muito desejado estado de êxito socioeconômico e prestígio elevado. Esse estado seria atingido quando a pessoa se tornasse, por exemplo, presidente de uma das maiores e mais prósperas corporações do seu país ou do mundo, uma professora universitária renomada e conhecida em todo o planeta, o melhor atleta de sua modalidade esportiva do mundo, uma das poucas cantoras a vender mais de 50 milhões de álbuns ao longo da carreira etc.

E tudo seria começado de baixo, com trabalhos desde a base da pirâmide social, estudos disciplinados e graduais progressões funcionais de emprego e de grau de instrução, até chegar aos sonhados cargos elevados do mais alto prestígio e da mais rica remuneração. Ou, no caso de artistas, dedicação diuturna ao seu trabalho, ascendendo desde as obras de arte mais baratas ou as apresentações nas casas de shows mais simples até os maiores festivais de música ou eventos de exposição artística do seu país ou do mundo. Ou então, no caso dos esportistas, dos resultados mais modestos em torneios locais até o acúmulo de troféus e medalhas de ouro da mais alta patente para o mundo dos esportes.

No entanto, essa utopia meritocrática, de origem liberal, entra em clara contradição com diversos outros princípios ideológicos da direita liberal-conservadora brasileira. Seus posicionamentos tanto legitimam que permaneça havendo pessoas com muito menos oportunidades e condições do que outras de iniciar uma trajetória meritória de vida, como concordam que não seja feito nada para se corrigir as desigualdades de oportunidade e condição que impedem a efetiva meritocratização da economia brasileira.

São comuns na direita brasileira as posturas racistas (e, curiosamente, ao mesmo tempo negadoras da existência do racismo no Brasil), machistas, heterossexistas, transfóbicas, elitistas, capacitistas, religiosamente intolerantes, gordofóbicas etc., que claramente têm como consequência histórica a dramática redução das chances das vítimas desses preconceitos de “vencerem na vida” segundo a lógica capitalista meritocrática. Em outras palavras, graças à mesma direita que tanto se diz meritocrata, uma mulher trans negra, muito pobre, lésbica, gorda e cadeirante tem apenas uma ínfima fração das condições e oportunidades que um homem cis branco, de classe média-alta, heterossexual, dentro dos padrões de beleza e sem deficiências tem de escalar a pirâmide social.

E para agravar a situação, essa mesma direita costuma ser radicalmente contra políticas sociais afirmativas, que corrijam as desigualdades sociais as quais impedem a consolidação da plena possibilidade de todo mundo competir, de forma justa e em condições não díspares, na luta meritocrática pela ascensão socioeconômica e pelo alcance da “glória” de uma carreira próspera.

A direita brasileira comumente se posiciona contra o combate aos preconceitos mencionados, visto que é contrária e hostil aos movimentos feminista, negro, não hétero, das pessoas trans etc., sendo a maioria dos direitistas brasileiros os primeiros a demonizá-los e difamá-los, e nega a existência desses preconceitos, reduzindo-os todos a problemas individuais relativos a um difuso “ódio de uns seres humanos contra outros seres humanos”.

E também lutam ferozmente contra qualquer iniciativa de combate direto à pobreza por parte do poder público. Vociferam constantemente contra o Bolsa Família, o ProUni, as cotas raciais e sociais, a assistência social de jovens e adultos em situação de risco social (por exemplo, pertencentes a famílias fustigadas pela violência doméstica, suscetíveis a serem aliciados pelo narcotráfico, usuários de drogas pesadas ou relegados ao estado de mendicância) e qualquer outra política pública que faça pessoas de categorias políticas desprivilegiadas melhorarem de vida, ainda que minimamente, com a ajuda do Estado.

E da mesma forma, costumam defender a privatização de todos os serviços públicos (exceto a segurança pública), mesmo aqueles constitucionalmente considerados direitos – como a educação escolar e a saúde. Ignoram, ou por desconhecimento ou por não se importarem mesmo, que a consequência dessa desestatização quase total, que tornaria pagos serviços hoje gratuitos, seria a quase completa supressão de qualquer condição das pessoas das classes mais pobres de se profissionalizarem e aproveitarem as oportunidades trazidas pela economia, e isso as incapacitaria de qualquer tentativa de iniciar uma trajetória de ascensão social.

Ou seja, sua “defesa” de que a economia brasileira seja baseada na mais pura meritocracia, sem que o Estado interfira nela e supostamente dê chances “adicionais” aos mais pobres de “se darem bem na vida”, não faz sentido. Isso porque contraditoriamente, ao mesmo tempo em que se dizem meritocratas, opõem-se visceralmente a qualquer reforma social que acabe com os empecilhos históricos, culturais e econômicos de consolidação de uma economia meritocrática e uma sociedade ideologicamente norteada pela luta disciplinada e esforçada pela mobilidade social.

Em outras palavras, a maneira como “defendem” a meritocracia impede que ela própria se instale no Brasil. Se por um lado promovem essa falsa defesa, por outro perpetuam que apenas alguns poucos, de preferência pertencentes a categorias sociais dominantes e já bem posicionados na hierarquia socioeconômica desde sempre, tenham livre acesso às oportunidades que a economia brasileira ou internacional provê. Sua postura, na prática, é em prol da manutenção da tradicional ordem nacional de hierarquização social rígida, privilégios de nascença para poucos e mobilidade social menos que mínima. Ou seja, na supremacia do poder socioeconômico hereditário de uma ínfima minoria e na perpetuação da pobreza e subserviência da grande maioria.

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Ronaldo

maio 2 2014 Responder

Prezado Robsom,
não sou filiado a nenhum partido político, nem a qualquer órgão de classe. Estou nesta situação porque não gosto de grupos autoritários que passam por cima da consulta permanente aos seus filiados (por plebscitos de assunto; consulta às bases). Se os políticos insistem em serem altoexecutivos (autonomos na representação de outros) e o próprio filiado (ou o cidadão comum) prefere não reinvidicar a inclusão de seu pensamento (ou opinião) na pauta ou senso do grupo, o que esperar disto tudo?
Vejo você generalizando comportamento de grupos (de direita, de esquerda, conservadores). A generalização é uma coisa muito difícil de ser feita. Melhor seria dizer (estatísticamente) como “a maioria” de tais grupos. Infelizmente a maioria do povo brasileiro não vê partidos, más sim, líderes que resolvam por eles os seus problemas. Isto me deixa tríste e me faz dizer: que a questão política brasileira está a deriva (dependente de poucos e da sorte ou do azar)! Quem dera, um dia, possamos sair deste círculo vicioso e tivessemos pensamentos convergentes!
Quanto a questão da discriminação de grupos, prefiro que não houvesse nenhuma delas, más, sim bons valores morais (o homem tem perdido o significado maior das coisas e, passado questões secundárias para o primeiro lugar). Não estou impondo meu pensamento, só tentando enteder e contribuir com algum nexo.

Ju

abril 14 2014 Responder

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