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A “liberdade” de viver preso num sistema totalitário inescapável
A "liberdade" defendida por livremercadistas, incluindo "libertários" e "anarco"-capitalistas, é idêntica à "liberdade" de um pássaro de voar e trocar de poleiro dentro de uma pequena gaiola.

A “liberdade” defendida por livremercadistas, incluindo “libertários” e “anarco”-capitalistas, é idêntica à de um pássaro de voar e trocar de poleiro dentro de uma pequena gaiola.

A liberdade talvez seja a bandeira mais alegadamente defendida pela direita, especialmente entre os liberais de livre mercado, os “libertários” e os “anarco”-capitalistas. Afirmam defender diversas liberdades individuais, como o exercício individual de todo o potencial empreendedor e o direito do indivíduo de acumular, gastar e investir suas riquezas onde e como quiser. Mas algo que não percebem é que suas bandeiras “pró-liberdade” convergem na defesa incondicional da manutenção do sistema capitalista e, por tabela, de todas as suas imposições e hierarquias. E esse sistema é bem mais próximo de um totalitarismo não estatal do que uma tradição provedora de liberdade a todos os seres humanos. Em outras palavras, os “defensores da liberdade” estão na verdade defendendo um sistema totalitário.

O capitalismo tem provado, desde o início de sua ascensão pós-mercantilista nas últimas décadas do século 18, que é perfeitamente possível a existência de um totalitarismo não centrado no poder do Estado. Esse totalitarismo, ao invés de consistir num Estado Total detentor do controle absoluto dos indivíduos e coletividades, baseia-se num Mercado Total, do qual é praticamente impossível fugir por muito tempo. Tal como o fascismo pregava “nada fora do Estado, nada acima do Estado, nada contra o Estado”, o capitalismo deixa claro: “Nada fora do Mercado, nada acima do Mercado, nada contra o Mercado”.

No totalitarismo de mercado, tudo gira em torno do dinheiro, da produção e comercialização privada de bens e da prestação de serviços direta ou indiretamente pagos. Mesmo os valores éticos e os direitos individuais e coletivos são subjugados quase todos a relações profissionais e à posse e uso de dinheiro, seja pela compra de produtos e aluguel de serviços (água encanada, saneamento básico, energia elétrica, gás, transporte coletivo etc.), seja pelo condicionamento inescapável do bem-estar social humano à posse de riquezas e à arrecadação estatal de impostos.

Enquanto isso, sociedades não capitalistas ou são destruídas por milícias a serviço de latifundiários e grandes empresas e/ou pela destruição ambiental de sua terra natal, ou são forçadas a estabelecer dependentes relações de troca, mediante uso de dinheiro, com a sociedade industrial dominante. Ou seja, depois de milênios vivendo em integridade sem a necessidade de dinheiro, terminam por se render ao Mercado Total sob pena de perecimento.

E ao mesmo tempo, mesmo aqueles grupos convictamente anticapitalistas e defensores de novos sistemas sócio-político-econômicos são obrigados a permanecer submissos à imperativa necessidade de comprar alimento, roupas, objetos eletrônicos, aparelhos de comunicação etc. e pagar impostos, serviços pagos e aluguel ou prestações de casa própria. Da mesma forma, parte essencial de seus canais de comunicação e conscientização é mantida por grandes empresas administradoras de redes sociais ou de sistemas de telecomunicações. E isso lhes impõe que continuem vitalmente dependentes de trabalhos remunerados, ou seja, do dinheiro, do capitalismo.

A criação de anarcoecovilas talvez seja pensada como uma possível solução. Mas na prática, no atual estado de coisas, tanto precisariam ser erguidas a partir da compra de terrenos suficientemente margeados por ecossistemas e corpos d’água e ter seu material de construção também comprado, como não conseguiria ser autossuficiente, improvavelmente contando com recursos, meios de produção e diversidade agrícola suficientes para permanecer livre da necessidade de comércio. E isso faria delas comunidades dependentes pelo menos de fazer compras nos municípios ao redor, logo atreladas ao sistema capitalista.

Além do mais, teriam que comprovar posse ou propriedade sobre o terreno e seriam cobrados a pagar impostos, como o territorial rural, perante o Estado submisso ao capitalismo, e a recusa a mostrar a escritura de posse e pagar as taxas implicaria, cedo ou tarde, intervenção policial e, em última análise, a morte dos rebeldes ao resistirem violentamente à prisão. Ou pior, a tentativa de se criar um “Estado” independente dentro de um Estado maior atrairia intervenção militar deste, que não admitiria violações territoriais da soberania nacional, e isso poderia implicar algo parecido com o sangrento destino final de Canudos, destruído em 1897 pelo exército brasileiro com todos os seus moradores assassinados.

Em outras palavras, o capitalismo, como sistema socioeconômico totalitário, subjuga até mesmo povos não capitalistas e movimento sociais anticapitalistas, e inibe a criação de comunidades alternativas independentes de capital. E quem tenta fugir não irá encontrar condições de sobreviver por muito tempo, já que a falta de dinheiro matará a pessoa de fome na cidade ou no campo, e os únicos locais que oferecem recursos essenciais à sobrevivência sem o uso de dinheiro são alguns ecossistemas mais ou menos isolados ainda em pé. E esses lugares, entretanto, são inóspitos demais para permitir uma vida segura, saudável e longeva de quem não se adaptou a uma vida distante e isolada de todos que ama e desprovida de recursos tecnológicos avançados. E estão cada vez menores em área e nada alheios às interferências globais humanas de degradação por meios capitalistas.

Ou seja, o status quo defendido pelos direitistas “pró-liberdade” não dá liberdades como viver sem precisar direta e indiretamente de dinheiro, recusar submissão aos modelos de vida capitalistas, usufruir da maioria dos seus direitos sem pagar por produtos e serviços públicos e privados e viver longe da influência de empresas e de instituições governamentais.

Isso é a tal “liberdade” pregada pelos liberais e ultraliberais. É ser “livre” para andar ou voar dentro de uma gaiola minúscula, de onde a fuga pode acarretar a morte por inanição ou por tiro. O ser humano sob o status quo capitalista é tão “livre” quanto um cristão diante do “livre arbítrio” dado por uma igreja fundamentalista – a pessoa pode “optar” por se submeter ou não a Deus ou ao Mercado, mas a escolha pela insubmissão será o ingresso para o inferno. É a “liberdade” de ser forçado ao papel de servo de um sistema cuja essência é o totalitarismo não estatal.

imagrs

2 comentário(s). Venha deixar o seu também.

becker

julho 10 2014 Responder

ótimo texto!!

    Robson Fernando de Souza

    julho 11 2014 Responder

    Obrigado =)

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