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A ordem vigente considera “corretos” os “politicamente incorretos”
"Politicamente incorretos", incorretos apenas perante a ética. Para o status quo, eles são muito "corretos".

“Politicamente incorretos”, incorretos apenas perante a ética. Para o status quo, eles são muito “corretos”.

Ao longo desta década, a parcela de “humoristas” que se dizem orgulhosamente “politicamente incorretos” se tornou muito notória, com muitas pessoas os admirando e tantas outras os repudiando, com eles lhes despertando ambos os sentimentos por suas “piadas” racistas, homofóbicas, machistas-misóginas, antissemitas, especistas etc. Mas se formos pensar o termo “politicamente incorreto” ao pé da letra, perceberemos que essa categoria “humorística” é tudo menos politicamente incorreta.

O termo “politicamente correto”, originado possivelmente entre stalinistas da primeira metade do século 20, foi apropriado pelos conservadores estadunidenses dos anos 80 para os 90, como algo que remetia a “controlar o que as pessoas dizem”, em referência a quem critica fortemente discursos opressivos disfarçados de “humor” e/ou “banalidade”. Daí quem quebra as convicções daqueles que são chamados de “politicamente corretos” é visto como o “politicamente incorreto”, o que “subverte” os que, segundo alegam, tentam “acabar com a liberdade de expressão” e “doutrinar” a sociedade a um “pensamento único”.

Mas se formos pensar na expressão “politicamente incorreto” como algumas pessoas defensoras dos Direitos Humanos procuram ressignificá-la, colocando-o como “incorreto para o paradigma político vigente”, o quadro se inverte totalmente. Ela adquire assim o caráter que sempre deveria ter tido – transgressor da moral político-cultural vigente, “incorreto” para quem considera ações transgressoras como “erros” por atentarem contra “a ordem, a moral e os bons costumes”.

E nisso, os acusados, pelos tradicionalistas, de “politicamente corretos” é que se tornam os politicamente incorretos, já que, do alto de sua postura de transgressão e negação dos valores moralistas da tradição criticada, estão “errando” perante a ordem, estão sendo “incorretos” no sentido de “imorais”, violadores da ordem social-política-cultural moral(ista) em vigor. É o caso dos trabalhos humorísticos que são polêmicos por satirizarem de forma ácida – no sentido de afrontar a sensibilidade moral-tradicionalista dos conservadores – as tradições, crenças e valores morais que vigoram nas sociedades modernas, como Os Simpsons, South Park, as apresentações stand up do falecido George Carlin, os vídeos do brasileiro Rafucko e sátiras do Facebook como a “Marcha Gayzista do Capiroto Contra a Família”.

E nessa literalização do termo “politicamente incorreto”, curiosamente os “humoristas” que tanto se dizem “politicamente incorretos” são mais do que “corretos” perante os ditames da ordem sociopolítica dominante. Seu racismo, machismo, heterossexismo, transfobia, xenofobia, antissemitismo, elitismo e outros preconceitos não transgridem a moral vigente. Da mesma forma, atitudes suas, como ter orgulho de comer carne e de beber até cair e manifestar um falseável orgulho de ser branco, heterossexual, cristão e conservador não são nada subversivos e incorretos para quem é interessado na perpetuação de tradições opressoras e moralistas.

Pelo contrário, para quem quer que os valores da sociedade não mudem, a posição deles é a mais correta possível. Eles não ousam questionar os problemas éticos da atualidade, mas sim representam a resistência dos velhos costumes baseados no preconceito, na naturalização das hierarquias e violências e nas ações moralmente consagradas mas eticamente nocivas.

Aliás, é perceptível um detalhe essencial que diferencia os politicamente incorretos antitradicionalistas dos “politicamente incorretos” conservadores: enquanto os primeiros afrontam valores morais arbitrários, polemizando com tradições geralmente marcadas por hierarquias, violências e injustiças, os últimos atacam princípios éticos, dirigindo seu poder de polemizar à ofensa implícita ou explícita, às vezes já considerada penalmente como crime, contra minorias políticas diversas. Os primeiros lançam mão da polêmica para questionar, contestar e ajudar a mudar, propiciando uma atualizada visão de mundo, ao mesmo tempo em que os últimos o fazem para ofender, legitimar e conservar, herdando dos seus tataravôs brancos e ricos crenças e atitudes morais estagnadas.

É razoável percebermos, assim, que a tal “incorreção” política dos adeptos do “humor” depreciativo implica nada além de incorreção ética. Ou seja, consiste em jogar a ética no lixo e defender os “direitos” dos conservadores de manterem privilégios e opressões e discriminarem a grande maioria da população. Para o status quo hierarquista, eles estão corretíssimos. Portanto, quando encontrarmos alguém que está atirando racismo, misoginia, transfobia, especismo, heterossexismo etc. por aí e dizendo de peito aberto que é “politicamente incorreto”, perguntemos ao indivíduo no que ele está sendo “incorreto”.

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LudoFinal

junho 21 2014 Responder

Por favor, apague meus outros comentários. Agora peço desculpas pelo enorme transtorno e corrijo meus erros de grafia. Seria ótimo uma ferramenta para auto editar/apagar comentários (que expirasse, claro). Sim… Interessantíssimo e mui válido seu texto.
Em relação ao humor, creio que piadas são piadas, desde que sejam piadas, e isso pode se subjetivo.
Pra mim, humor é aquilo que me faz rir. Uma piada (e creio que muita coisa mais) tem que ser analisada dentro de seu real contexto.
Ser politicamente correto é ser uma “pessoa certinha” de acordo com os “valores morais” vigentes em uma sociedade.
Alguns desses valores hoje, no Brasil, são outros.
É mais bonito e aceitável falar algo do tipo “todos somos iguais”, “estou livre de preconceitos”,
mesmo que isso carregue grandes mentiras.
O Brasil, seja com FHC (considerado de Direita) ou Lula, e bem mais com Dilma (considerada de Esquerda) continua injusto e preconceituoso, porque a culpa é nossa.
A culpa é de todos, ricos e pobres.
A politicagem é o reflexo de uma sociedade pobre.
Até agora, só vi uma melhoria nesse significativa nesse sentido (é um começo): as relações homo-afetivas podem ser oficializadas, mas há muito por avançar.
Temos que caminhar em frente, com a mente livre, com novas possibilidades, um novo caminho, com retas e curvas, mas sem dividir a estrada da vida em Direita e Esquerda.

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