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abr14

Daniela Andrade: O desrespeito assassino contra as pessoas trans

simbolo-trans-1Daniela Andrade, ativista pelos direitos das pessoas trans, escreveu no Facebook mais esse ótimo artigo, que alerta para a gravidade do paradigma atual de desrespeito assassino contra elas.

 

O desrespeito assassino contra as pessoas trans*
por Daniela Andrade

Mulheres trans* são assassinadas quando descobertas como trans*, foi o que aconteceu com Luisa Mouraria em São Vicente, há mais de 10 anos, seu então namorado ao descobrir que ela era trans*, planejou e executou com um parceiro a morte dela, com requintes de crueldade. Ambos estão em liberdade. Foi o que aconteceu com Nicolly Borges, em Curitiba. Foi o fim que levou centenas de milhares de mulheres trans*.

Enfim, é obrigação da pessoa trans* afirmar e reafirmar sua intimidade, pois a pessoa trans* não deve ter direito à privacidade. Ditou a sociedade cis que se a pessoa trans* não andar com um letreiro luminoso dizendo que é trans*, significa que ela está enganando as pobres pessoas cis. Afinal de contas, mulheres trans* não são consideradas mulheres de verdade, mas farsas, engodos, equívocos; ousaram ser quem são, fugindo e transgredindo as regras de gênero violentas impostas e naturalizadas dentro da sociedade e para tal, muitas de nós irão pagar com a própria vida. Crime dos mais graves para essa sociedade cis: ser trans*.

E aí o que vemos na tv? Troça, piada com o caso. Vamos sempre reforçar que mulheres trans* não são mulheres, não tem o direito de terem suas identidades de gênero respeitadas, a dignidade da pessoa humana respeitada; vamos colocar sempre as mulheres trans* em diversos quadros e apresentações nos programas televisivos de forma a reforçar o convencimento de que as mulheres trans* vivem de enganar, e quem vive de enganar só pode mesmo ter um destino: o castigo, ainda que como castigo sejam punidas com a própria morte. Mas até aí, tudo bem, não há problema que as mulheres trans* sejam assassinadas, não há problema que sejam mortas com requintes de crueldade: não consideram que foi gente que morreu, eram culpadas por natureza, culpadas por existirem. E como portadoras da culpa, a morte deve servir de alerta a todas as demais: não tentem ser quem são, morram em vida mas vistam a camisa de força de gênero, aquela que reforça constantemente o binarismo e o paralelismo entre genital, sexo e gênero.

Se as mulheres trans* forem assassinadas, iremos enterrá-las como homens gays, diremos que foi morte de um homem gay, somaremos número à morte de gays no país e nada diremos sobre transfobia e cissexismo. Afinal de contas, mulheres trans* não são mulheres de verdade, não é mesmo? Virarão um mero número estatístico e cinco minutos após, as pessoas já voltarão de volta às suas vidas de condenações às identidades trans*. É preciso que as pessoas trans* aceitem, nem que seja à força, vendo suas parceiras de luta serem assassinadas, que ela não têm o direito à vida e tampouco à morte, pois até após suas mortes, terão suas identidades de gênero desrespeitadas.

De verdade mesmo é a constante objetificação, animalização, exotismo e retirada diuturna de direitos das pessoas trans*: elas que se submetam às rígidas regras criadas pelas pessoas cis que definem por meio de verificações anatômicas quem tem o direito de ser considerada e respeitada como mulher e quem não tem. E sabemos, as pessoas cis é que detém o poderio e o conhecimento da toda poderosa ciência biológica, se elas decidiram assim, ai de nós que nem consideradas gente somos, ou ainda: quase mulheres, quase homens, quase teríamos o direito de sermos respeitadas como gente – mas resolvemos pagar o preço de ser quem somos, e para isso não há perdão.

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Alessandro

abril 13 2014 Responder

Olha, nada justifica a violência, muito menos um assassinato brutal como esses, mas eu acho que a pessoa trans tem sim a obrigação de avisar a(o) companheirx sobre sua situação; uma vez que vão ter um relacionamento é dever de ambos ser honesto e avisar tudo que pode interferir no romance, ainda mais uma coisa séria dessas.

Então, os caras foram assassinos cruéis e erraram por isso, mas as mulheres trans também erraram, a pena foi desproporcional ao crime (no caso em questão, a pena deveria ser acabar com o namoro e nunca mais falar com elas) mas os dois foram errados.

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