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abr14

Daniela Andrade: Sobre a transfobia de quem nega que mulheres trans são mulheres

simbolo-trans-1Consciencia.blog.br traz mais um texto de Daniela Andrade, ativista pela visibilidade das pessoas trans e contra a transfobia e o cissexismo. Os textos dela são essenciais para se inteirar sobre essas pessoas que costumam hoje ser tratadas como “seres desumanos”, privados de direitos e com sua respeitabilidade não reconhecida.

Sobre a transfobia de quem nega que mulheres trans são mulheres
por Daniela Andrade

Como mulher trans a gente passa a vida ouvindo que somos enganos, mulheres incompletas, homens disfarçados. Nossa vida está sempre por um quase: por um quase nos consideram homem, por um quase nos consideram mulher, por um quase nos consideram gente.

As exigências da feminilidade, do ser mulher são sempre assustadoramente distantes para que consigamos alcançar. Por mais que você se produza, que você se modifique, que seu corpo se transforme em outro, jamais você será vista como suficientemente mulher para a sociedade. Afinal de contas, você não nasceu com uma vagina, logo, jamais poderá adentrar o grupo das mulheres. Ficará ali do lado de fora, esperando que alguém abra a porta, sofrendo com os reveses das intempéries.

Curiosamente, mesmo as pessoas que dizem gostar de você ou te amar estão sempre comparando você com as mulheres cis para desmontar (ou tentar) a sua mulheridade, ainda que aqui e no caso se trate de uma mulheridade muito particular – como aliás inclusive acredito que se dê com a mulheridade das mulheres cis, ainda que a sociedade tente o tempo todo enclausurar essas mulheres também dentro de uma camisa de força de gênero com normas ditatoriais.

Quantas vezes ouvi de namorados que por que comigo era assim, se com as namoradas cis eram assado? Por que comigo não podia tocar assim se todas as namoradas cis deixavam. Por que eu me comportava assim se todas as namoradas cis não se comportavam. Por que eu não modificava meu corpo para que ele se parecesse com das namoradas cis. Quando eu teria o corpo e a postura das mulheres cis para que ele pudesse passear-me à luz do dia, mais livres dos olhares, dos questionamentos, das reprimendas.

Enfim, sempre há uma consideração a fazer quando se é mulher trans com o intuito de deslegitimar a sua vivência de mulher, o seu reconhecimento como mulher: não estão suficientemente adequados para o padrão cis de ser mulher: único vigente normativamente.

Não é que eu era diferente das OUTRAS namoradas, era que eu era diferente das mulheres cis e isso era algo impactante que, a qualquer momento viria à tona, na forma de cobranças ou desapontamentos.

Se tive de sofrer com as violências e agressões praticadas pela família, pela escola, pelo bairro, também precisei conviver com elas por aqueles e aquelas que se diziam ou se mostravam afins. A sua auto-estima é construída à força e a reboque de muito sofrimento e sentimento de solidão. O sentimento de não pertencimento acompanhou-me pela vida afora como se fosse um destino: eu sabia que havia falhado para o mundo, mas também sabia que o mundo falhava para mim.

A gente vai ficando mais dura, esperando de qual lado é que vai vir a pancada, a pedra, o xingamento, o escarro, o desmerecimento, a deslegitimação e o esvaziamento da sua pessoa.

A nossa auto-estima é um amontoado de “você jamais será mulher”, “você faça o que quiser, você não é mulher”, “você não se parece com uma mulher”, “você não se comporta como uma mulher”, “você não poderá jamais engravidar”, “você nunca saberá o que é gestar um bebê”, “você nunca poderá me dar filhos”, “você não menstrua, você não é mulher”, “cadê seus ovários, seu útero? como pode se dizer mulher?”.

Aprendi que para ser mulher precisa ser tudo aquilo que nunca fui e que jamais serei, por mais que eu me enfeitasse e mudasse, não contaria com o “selo de fábrica”. Selo esse que precisa da aferição de uma sociedade preocupada demais em defender com unhas e dentes a tal da “mulher biológica”; como se a biologia sozinha fosse a ciência toda poderosa capaz de dizer para mim o que sou e o que devo ser – enfim, vamos abstrair que estamos falando de um monte de probabilidades e arautos construídos por pessoas cis, o qual resolveram dar o nome de biologia. Chegam a tal ponto que nem parece que estamos falando de ciência, mas de religião, com todos seus cernes dogmáticos irrefutáveis e intocáveis.

Confrontar essas certezas absolutas e estanques da sociedade cisnormativa é proibitivo, é perigoso, é preciso uma eterna e diária coragem e paciência. É isso, para que eu pudesse e conseguisse me afirmar e reafirmar como mulher desprendida das regras, conceitos, hipóteses e normas biológicas e sociais, tive que confrontar as minhas próprias certezas o tempo todo. Por que eu me dizia mulher? Que mulher era essa? O que significava esse ser mulher em mim?

Quantas vezes dormi tentando responder essa pergunta, alguns dias achando-me com mais certezas, outros com mais dúvidas e, a posteriori, uma vida regada a sofrimento de manhã, à tarde e à noite: a sociedade não tinha tempo para esperar a resposta.

Como persegui a minha essência, como esse sentimento de não pertencimento podou tanto da minha sociabilidade. Precisando sobreviver em um meio extremamente hostil, também soergui as muralhas ao redor de quem fui e de quem sou, da minha toda própria maneira de ser mulher. Em que pesem as dilações e furtivas escapadas de dentro do meu castelo, na tentativa de capturar as borboletas que sobrevoavam os leões, a vida aqui dentro era um pouco menos violenta.

Ser mulher nascia de uma certeza de não ser homem, aliás, muito cedo os homens haviam me expulsado de seus grupos: eles sabiam, eu sabia que não éramos existência afins. Quem eu era? Uma pergunta. Respondi-me um dia, receosa, com muito medo de me aproximar de uma verdade, a minha verdade: uma mulher. Mas então, percebi que também desse grupo eu estava impedida de adentrar. Tive de construir – ou reconstruir – a minha própria e individual humanidade sem leme para me guiar, sem norte, não podia ser um modelo de mulher, pois eu estava muito aquém de todos eles.

Um dia descobri como quem encontra água no deserto: eu não precisava dos modelos, eu podia ser a mulher que eu havia criado para mim, em toda sua particularidade, em toda sua especificidade

Ter sido enxotada do grupo das mulheres inclusive por grande parte das mulheres me fez ser o que sou: igual a ninguém. Hoje sei, ser mulher é também ser eu, sou o meu próprio, criativo, individualíssimo e ideal modelo de ser mulher para mim mesma.

Soa-me um pouco menos sofrido hoje que ontem precisar conviver em um mundo de tantas regras, laudos, pareceres, averiguações, de tanta dependência de ter sempre um outro que ateste por nós aquilo que somos, de tantas provas que precisamos emitir apenas para continuar respirando. A cada dia liberto-me um pouco mais da prisão para onde me mandaram desde sempre, a pior prisão: a que te impede de ser você mesma.

imagrs

3 comentário(s). Venha deixar o seu também.

elizabeth magalhaes lima

julho 13 2014 Responder

Marica,13/07/14
bom dia! desde já sou sua fã espero que me aceite.bjs.

ClaraSol

abril 25 2014 Responder

Comentários transfóbicos, por mais bem educados que sejam, não são permitidos aqui, mesmo disfarçados de “opinião pessoal”. Respeito é bom e todo mundo, incluindo mulheres trans, gosta. RFS

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