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[OFF] Leitor anônimo: Como a universidade desestimula alunos de ciências humanas nos estudos

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Recebi ontem o depoimento abaixo, de um leitor anônimo, que pediu para ser chamado apenas de S. Ele descarregou, nesse texto que vale muito a pena ser lido, compartilhado e comentado, sua decepção com a pedagogia dos cursos de ciências humanas da universidade pública onde ele estuda e de tantas outras pelo Brasil. E eu me identifiquei bastante com muito do que S. fala em seu relato.

Boa leitura. E se você for docente de universidade, convido à reflexão sobre como você pode ajudar a mudar essa realidade e não deixar que os sonhos de muitos alunos morram e os de outros sejam seriamente interferidos.

 

Como a universidade desestimula alunos de ciências humanas nos estudos
autor anônimo

Sou um estudante de uma universidade pública da região Sudeste. E neste depoimento nem identifico a instituição nem cito qualquer nome, tanto por bom senso como porque os problemas que descrevo aqui não são específicos de uma instituição, mas sim do sistema universitário público – e talvez as faculdades privadas também, mesmo as mais bem conceituadas – como um todo. Também preferi não me identificar, por precaução, uma vez que temo que se discuta mais minha “inconveniência” como um círculo que não se encaixa na mesa de quadrados e decidiu manifestar sua insatisfação com o sistema do que as limitações do sistema em si e as necessidades dos alunos enquanto indivíduos dotados de suas próprias habilidades e fraquezas peculiares.

Manifesto aqui como a universidade tem mais me atrapalhado do que ajudado e incentivado em meus estudos e meu aprofundamento com o meu curso – que também não revelo, mas é da área de humanidades, categoria que inclui História, Geografia, Filosofia, Ciências Sociais e outras cuja presença depende da instituição. E como a didática da grande maioria das disciplinas que cursei, estou cursando ou vou cursar não me tem sido proveitosa e encorajadora.

Felizmente não me desanimei com a área de conhecimento que eu escolhi, continuo identificado com o curso e pretendo concluí-lo apesar das dificuldades e inadaptações. Mas infelizmente a universidade, assim como a maioria dos meus professores, não tem me incentivado a estudar e me manter firme na minha vocação, que é ser professor universitário – um docente determinado a questionar as tradições didáticas e institucionais e ajudar meus futuros alunos a realmente gostarem de estudar o que estudam.

Desde antes do vestibular que me fez entrar na universidade onde estou, já me encantava com a ideia de ler livros de disciplinas como Sociologia, Antropologia, História, Filosofia, Política etc. Mas ao passar dos primeiros períodos, me desanimei de me interessar mais profundamente por algumas dessas áreas do conhecimento. A didática tradicionalista e a qualidade tosca das aulas de alguns professores que eu tive me desestimularam seriamente, e até hoje não me sinto animado o bastante para aprender mais sobre tais disciplinas.

Alguns professores, eu reconheço, são muito esforçados e, para quem já é adaptado e acostumado com a didática tradicional das ciências humanas, são considerados excelentes. Mas em sua maioria, pelo menos perante o que tenho vivenciado nesses anos de universitário, por “melhores” que sejam, não conseguem se desvincular dessa tradição didático-pedagógica da universidade, marcada por problemas como:
– o professor estar no pedestal de grande detentor do conhecimento, contrapondo-se aos alunos tratados como meros papéis em branco nos quais ele escreve seus conhecimentos;
– aulas expositivas com uso da voz mais alguns poucos recursos audiovisuais ocasionais (geralmente powerpoints e um ou outro filme ou documentário);
– participação voluntária dos alunos (nas aulas expositivas) restrita a comentários relativamente curtos ou perguntas – o que às vezes nem é tão voluntário assim, já que alguns professores dão notas aos alunos dependendo da participação e uns outros têm uma postura tão severa quando perguntam algo aos alunos que eles se sentem psicologicamente coagidos a responder e participar;
– escassez de dinâmicas de grupo e outras atividades que envolvam troca grupal de conhecimento;
– seminários (com ou sem relatórios), resenhas e provas como métodos quase onipresentes de avaliação;
– aulas confinadas nas quatro paredes de salas onde ventiladores e ar-condicionados funcionam mal;
– interação zero entre a sala de aula e o outro lado dos muros e cercas do campus, pelo menos no caso das disciplinas sem carga horária prática;
– interação zero também entre as diferentes salas de aula, parecendo que cada sala é um mundo distinto, uma dimensão espaço-temporal na qual se desconhece a existência de outras dimensões;
– transmissão de conhecimentos de tal forma que não sabemos adequadamente como aplicá-los em nossa visão de mundo e nas nossas relações sociopolíticas com o nosso próximo e o restante da sociedade;
– estudos induzidos não por incentivo, mas por pura coerção: se você não estudar tal autor, corre o alto risco de tomar pelo menos uma nota baixa;
– estímulo zero às emoções dos alunos, exceto o medo (de ser repreendido pelo professor ou de tirar notas baixas) – creio que o estímulo às emoções positivas dos alunos nas aulas poderia ajudar muito no aprendizado, mas isso costuma ser negligenciado;
– aproveitamento ínfimo dos conhecimentos que os alunos trazem de sua vivência – vi exceções em algumas aulas de disciplinas ligadas a licenciaturas, nas quais se falava muito dos problemas das escolas públicas brasileiras e do que cada aluno vivenciava em seu dia-a-dia de contato com aquelas escolas, mas muito pouco além disso –, com o já mencionado tratamento dos alunos como tábulas rasas;
– contribuição direta ínfima das aulas para a socialização da pessoa no meio universitário – a organização de grupos de seminários, no primeiro período, tem uma probabilidade relevante de plantar amizades, mas isso é uma contribuição bastante indireta;
– disciplinas introdutórias nas quais não aprendemos, por exemplo, o que é o estruturalismo das ciências sociais, o construtivismo da pedagogia, o behaviorismo da psicologia, a Escola de Anais da historiografia etc., por mais que ouçamos falar dessas correntes teóricas ao longo de todo o curso – só aprendemos essas correntes de forma aprofundada, não tendo o direito de começar do básico e ir gradualmente aos conteúdos mais profundos;
– eventualmente o professor falar da problematização feita por intelectuais como Foucault e Bourdieu sobre o ensino formal, mas reproduzir, em suas práticas, exatamente aquilo que esses autores criticam;
– incentivo quase nulo à criatividade dos alunos, no caso das disciplinas teóricas e de muitas que têm carga horária prática;
– subutilização de inteligências humanas como a emocional, a interpessoal e a naturalista, que possivelmente seriam muito úteis na aquisição e reforço de conhecimentos;
entre tantos outros.

Não culpo os professores por, em sua maioria, estarem confinados nessa tradição, já que foram ensinados a vida toda que isso seria o único ou melhor sistema de ensino possível. Mas eu sinceramente gostaria que começassem a se questionar e tentar, ainda que arrastando lentamente seus pés, dar passos fora do quadrado onde a universidade enquanto entidade abstrata os enfiou.

Quanto a nós alunos, como foi mencionado, não somos incentivados, mas sim obrigados, coagidos a estudar pela instituição. Nos é diariamente ensinado na universidade que ler não é um prazer, um hábito muito gostoso e muito saudável, uma atividade para a vida inteira, mas sim uma obrigação, um fardo, um imposto, algo que temos que fazer contra a nossa vontade para memorizar temporariamente certos conteúdos, sob pena de notas baixas, reprovação e não conclusão do curso.

Acabamos tendo que aprender por conta estritamente própria que ler livros de ciências humanas pode ser uma delícia, mesmo que algumas vezes tropecemos com autores de linguajar difícil. Também é na base do “se vira” que dominamos as técnicas mais adequadas para se assimilar os conteúdos e levá-los conosco por toda a vida – sequer isso nos é devidamente ensinado pela universidade, o que coloca muitos alunos em desvantagem, já que não chegaram à universidade sabendo, por exemplo, que é necessário reler um autor várias vezes ao longo de alguns anos para fixar seus ensinamentos. Como é que a pessoa pode se sentir incentivada a continuar adorando ler diante de tudo isso?

Além disso, muitos de nós temos sérias dificuldades de aprender nesse sistema, nesse paradigma didático. Se alguns se sentem bem em serem controlados, no que devem estudar e, por privação de tempo livre, no que devem fazer fora do campus, pela universidade através das aulas, tantos outros, como eu, não se encaixam nisso.

Eu sempre tive meu próprio jeito de aprender: lendo livros e artigos por conta própria, com pouca ou nenhuma intermediação de professores. Mas pessoas como eu não são estimuladas a aprimorar essa habilidade. Pelo contrário, são prejudicadas com a imposição de estudos obrigatórios e as tantas coerções, como a de ler os conteúdos dados pelas ementas disciplinares e comparecer às aulas. Perdemos um valioso tempo no qual poderíamos estar aprendendo uma disciplina filosófica, política ou sociológica que amamos, mas estamos sendo coagido a ler, digamos, sobre interacionismo simbólico – sem sequer sermos orientados sobre como podemos utilizar as teorias interacionistas simbólicas em nossa visão de mundo, nossa posição de atores sociais, nossa vida.

Isso felizmente não me derrubou do curso, mas me deixou até hoje com um sério déficit de aprendizado perante as expectativas curriculares. Curiosamente costumo tirar notas excelentes, variando entre 8 e 10, mas no final das contas, se me for dada uma prova surpresa no primeiro dia de aula de um semestre sobre o que eu (deveria ter) aprendi(do) no período anterior, minha nota seria deplorável.

Isso porque, como tanto não fui ensinado nas aulas que devo reler várias vezes o que estudei para fixar o conteúdo como, mesmo depois de ter aprendido isso com minha namorada, a rotina universitária me impede de fazer essas releituras, termino esquecendo de quase tudo poucos dias depois das provas, mesmo que eu tenha tirado 10 nelas. Ou seja, as avaliações que me submetem não avaliam meu aprendizado, mas sim minha capacidade de memorizar por algumas horas uma determinada carga de conteúdo e dispô-la com o encadeamento linguístico e interpretação esperados pelo professor. E em memorizar por poucas horas textos resumidos e dispô-los com minhas próprias palavras numa prova, eu vejo que sou bom.

E um último problema – embora não o último da vasta lista de deficiências e limitações do sistema pedagógico universitário dominante – que quero falar aqui é a grave desvalorização da Educação Ambiental nas ciências humanas de muitas universidades, exceto talvez a Geografia. Li nos Parâmetros Curriculares Nacionais – os quais, embora sejam aplicados ao ensino básico, poderiam muito bem ser estendidos pelo menos aos cursos superiores de humanidades e às disciplinas humanas de outros cursos – sobre a importância da EA no ensino, mas isso é seriamente negligenciado em cursos superiores nos quais o meio ambiente não é necessariamente o tema central.

Em nenhuma disciplina até hoje, exceto uma eletiva cujo tema é desenvolvimento e sustentabilidade, vi assuntos ambientais, tampouco socioambientais, sendo explorados. Nem mesmo nas disciplinas introdutórias de disciplinas como Sociologia. Por omissão, “aprende-se” ali que meio ambiente não tem “nada a ver” com História, Sociologia, Antropologia, Política, Filosofia etc. e suas teorias e práticas, e que é um tema tão irrelevante para a maioria das disciplinas curriculares de humanidades que merece nada mais do que silêncio e costas viradas. E como agravante, nem mesmo as disciplinas pedagógicas das licenciaturas de ciências humanas de algumas universidades, como a minha, abordam a EA em suas ementas.

Desgosto, desestímulo, desencaixe. Esses são minhas sensações perante esse modelo de pedagogia universitária que tem ministrado para mim e mais milhares de outras pessoas cursos que, ao menos teoricamente, têm o poder de fazer o ser humano aproveitar seu potencial de ser pensante e questionador. Como eu disse no começo deste depoimento, a universidade não conseguiu derrubar meu sonho de ser professor universitário na área de conhecimento que estou cursando, mas está me prejudicando seriamente na assimilação de conhecimento. Por isso escrevi este texto, de modo a inspirar mais pessoas a deporem também, seja revelando-se, seja no anonimato – desde que anônimos e não anônimos não apontem nomes de pessoas e instituições. A hora é essa para se começar a questionar esse modelo pedagógico que está destruindo os sonhos de uns e atrapalhando o talento de outros, e reivindicar sua derrubada.

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3 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Weslley

junho 9 2015 Responder

Acredito que não devemos generalizar esses problemas para todas as disciplinas do currículo universitário, mas acredito que em todas as áreas do conhecimento e em todas as universidades, sejam elas públicas ou privadas, temos testemunhado acontecimentos como os mencionados aqui. Esses problemas são crônicos e remetem a formação humana, de profissionais que estarão em até cinco anos atuando na sociedade como profissionais competentes e detentores de conhecimento, não apenas teórico, mas preferencialmente prático.

Considerando as licenciaturas, minha área de formação, precisamos melhorar urgentemente o processo de ensino e aprendizagem. Se quisermos uma educação básica melhor, devemos ter professores mais bem preparados para ensinar nesse ou naquele nível de ensino. Tais profissionais são formados nas Universidades, por professores que na maioria das vezes nunca lecionaram no Ensino Fundamental ou Médio e não possuem prática suficiente para transpor os limites entre o que é abordado na teoria e o que realmente acontece na prática. Esses professores terminam a graduação “deficitária” como aqui apresentada, seguem para uma ou duas especializações stricto sensu, como mestrado e doutorado, passam em concurso e começam a dar aulas no Ensino Superior sem qualquer experiência, porque não podemos dizer que os estágios curriculares são significativos o bastante e dão conta de constituir base sólida para o ensino como um todo e não desse ou daquele conteúdo em específico. O que geralmente ocorre são aulas simuladas e potencialmente tradicionais. Desta forma, os professores precisam se adequar melhor em relação à teoria e principalmente sobre a prática pedagógica, visto que a prática é o diferencial entre ser professor.

Há muitas variáveis envolvidas na educação brasileira, principalmente em relação às políticas públicas que norteiam a educação, como a falta de estrutura das escolas públicas e das universidades, a carência de formação continuada e a baixa remuneração atribuída aos profissionais da educação, principalmente aqueles da educação básica que vivem o chão da educação brasileira e não pesquisam e tão pouco conseguem transpor, didaticamente, os conhecimentos publicados pelos pesquisadores, isso quando essas pesquisas chegam até os professores da Educação Básica, porque quem leciona na Universidade é pesquisador e poucos são professores. Assim como nosso colega S, muitos de nós ficamos indignados pelo tempo perdido com algumas disciplinas que só nos ajudam a não sermos criativos e a seguir um modelo previamente estruturado, sem deixar “fluir” os conhecimentos que possuímos e que poderíamos aglutinar o que sabemos aos novos conhecimentos aprendidos na academia.

Como professor da educação básica, os conteúdos “aprendidos” na Universidade não me ajudaram muito, pois esses conteúdos não são essencialmente os que devo ensinar aos meus alunos. Consequentemente, acabam sendo esquecidos com o passar do tempo, pois como não são vivenciados e postos em prática, perdemos a destreza de efetuar corretamente um cálculo matemático ou um comentário mais apropriado e com propriedade sobre temas da Filosofia, História, Geografia, por exemplo.

Fica aqui meus comentários.

Obrigado pela oportunidade!

Abraço e sucesso a todos.

Gabi

junho 29 2014 Responder

Olá, tudo bem? Eu amei esse depoimento, no momento sou estudante de ciências sociais e estou no último ano e estou extremamente frustada, e faço das palavras desse post as minhas , é muito complicado mesmo, eu tinha uma noção completamente diferente do que seria o curso, entrei com 17 anos e esperava que iria melhorar mas nada. No entanto, o que mais me frusta é que pouco se fala da intervenção na sociedade sabe? só estuda-se , pesquisa-se, para quem? onde iremos trabalhar e contribuir para a sociedade ? a quase obrigação de seguir a carreira de licenciatura, e ainda o fato desse curso ter bloqueado minha criatividade, num mecanicismo de análise dos autores, e repetição do que eles falam, um fardo. Estou me formando porque quero concluir a faculdade, e logo após quero seguir minha vida com alguma pós que me proporcione alguma base para atuar na sociedade sem ser militante ou professora apesar de respeitar muito essa profissão, não quero ser professora por gosto pessoal e não identificação. Eu precisava desabafar e adorei o blog. Obrigada.

Ronaldo

maio 4 2014 Responder

O prezado colega de internet, que te entregou este texto, falou muito sobre a didática desesestimulante usada no ensino brasileiro. Concordo com tudo o que foi dito. São aulas estáticas (sem a dinâmica do diálogo e pensamento transcendente), tudo muito quieto (do giz no quadro e alunos anotando). O aluno devia estudar em casa (a pauta) e debater e por em prática na escola. Nada de ficar anotando resumo feito pelo professor!
Gostaria de acrescentar o outro lado da moeda: o do professor.
Já fui professor em um curso de extensão universitária. Era um curso técnico para pessoas de nível primário. Os professores eram amadores, ou seja, eram alunos de vários cursos da universidade. O entrosamento entre nós esbarrou em um monte de tropeços: priorizamos as burocracias; não dedicamos nenhum tempo para planejar em grupo o curso; muitos colegas nem compareciam às reuniões; muitos não discutiam nada, impunham seu modo e reclamavam não ter tempo (cada um para o seu lado). Em fim, do mesmo jeito acontece nestas escolas (desconexão e interêsses egocêntricos) !

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