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abr14

Por que a direita falha em combater a tradição brasileira da corrupção
Uma das razões por que a direita é inócua em agir contra a cultura de corrupção política é forçar a crença de que o PT seria o grande covil da corrupção no Brasil.

Uma das razões por que a direita é inócua em agir contra a cultura de corrupção política é forçar a crença de que o PT seria o quase único covil da corrupção no Brasil e ignorar a existência de corrupção endêmica em partidos como o PSDB, o DEM, o PR, o PP etc.

Obs.: Este artigo não está dizendo que a esquerda brasileira não tem corrupção. Responder a este artigo alegando que “também tem corrupção na esquerda” é uma atitude falaciosa e não contesta o tema do texto.

Uma das bandeiras que a direita brasileira mais reivindica para si é a oposição à corrupção, a denúncia de que o estado de coisas nos poderes legislativo e executivo de Brasília e das demais cidades brasileira não é dos melhores. Mas quando vemos como ela (tenta) defende(r) o fim da corrupção no Brasil, percebemos que, dotada de uma militância rasa, seletiva e passional, mostra-se não só incapaz de erradicá-la, como também ajuda a perpetuá-la enquanto costume.

Muitas pessoas da direita se dizem “paladinos” “combatentes” anticorrupção, mas tudo o que fazem é manter a realidade como está, tanto falhando em combater a corrupção como promovendo-a por consentimento, cumplicidade ou mesmo participação ativa. Percebe-se isso por várias posturas, tanto entre políticos direitistas como entre muitas outras pessoas com posição ideológica similar:

1. A impressão de que só existe corrupção no PT e sua base aliada aparentemente esquerdista. A direita brasileira dá um foco exagerado ao PT, como se esse partido fosse o inventor e solidificador do costume político da corrupção no Brasil. Em menor escala, aponta casos de corrupção em partidos similares, como o PCdoB e o PSB. Mas “se esquece” de denunciar que também há casos de corrupção, muitos deles envolvendo ainda mais pessoas e cifras, em outros partidos, como o DEM, o PSDB, o PMDB, o PTB, o PR, o PP etc.

2. A aparente incapacidade de fazer autocríticas. É difícil encontrar militantes de direita admitindo a existência de corrupção política dentro de partidos e movimentos direitistas ou de centro-direita. Partidos e grupos militantes historicamente envolvidos com a satisfação dos interesses de grandes empresas, propriedades rurais e igrejas-empresa recebem pouca ou nenhuma atenção dos direitistas “anticorrupção”. Além disso, não há o costume de se fazer e se encorajar denúncias internas de corrupção em movimentos conservadores, “libertários” ou liberais.

3. Visão ingênua, rasa e historicamente ignorante sobre a tradição da corrupção no Brasil. Costuma-se acreditar que a ditadura militar foi uma “era dourada” na qual a corrupção era devidamente prevenida, combatida e punida, o que a História do Brasil costuma refutar rapidamente. Da mesma forma, muitos tanto creem que a corrupção política é um problema de indivíduos, que seria sanado com impeachment e punição penal contra eles e sua substituição por pessoas “não corruptas”, como ignoram que a corrupção é um costume sociocultural e coletivo com raízes no início da era colonial. Outro sintoma de ignorância político-histórica é acreditar que uma intervenção militar golpista poderia “acabar com a corrupção”, crença baseada tanto no mito da transparência do regime militar e das forças armadas como no desconhecimento da profundidade da tradição corrupta brasileira.

4. O desconhecimento da inerência da corruptibilidade ao sistema sociopolítico vigente. Esquece-se, entre a maioria dos direitistas, que o sistema político vigente no Brasil, baseado em autoritarismo, “democracia” restrita ao voto, relações de mandonismo e submissão, privilégios, falta de transparência nas decisões políticas etc., facilita enormemente a ocorrência de casos nada isolados de corrupção. O agravante é que muitos direitistas defendem a conservação desse estado de coisas, acreditando ingenuamente que é possível sua existência sem o corrompimento de mais e mais políticos.

5. A associação entre alguns valores caros a partes da direita e a corruptibilidade. A direita não admite, mas é dedutível a associação entre diversos valores exaltados por muitos direitistas – desde conservadores e livremercadistas a “libertários” – e a perpetuação da corrupção. Alguns exemplos são o individualismo exacerbado, que pode levar a pessoa a se desprover do senso de empatia e do respeito ao próximo e usar a máquina pública para satisfazer interesses privados em detrimento das necessidades públicas; a cultura de hierarquia e autoridade/submissão, suscetível a favorecer abusos por parte de pessoas em alta posição na pirâmide política; e a submissão dos valores éticos ao poder econômico, que também favorece o acúmulo de riquezas a todo custo, ainda que através do roubo de patrimônio orçamentário público.

6. O desconhecimento sobre a existência dos corruptores. A militância anticorrupção na direita tem uma outra falta grave: não costuma denunciar os corruptores, aqueles que corrompem muitos dos políticos corruptos comprando-os para legislarem ou governarem em prol de determinados interesses privados. Da mesma forma, desconhecem que muitos dos corruptores são grandes empresários cujos interesses são apaixonadamente defendidos por muitas pessoas de direita.

7. A passionalidade e a falha em apontar soluções. A oposição direitista à corrupção costuma ser muito passional, carente de uma análise racional do problema. Também falha em apontar soluções que cortem pela raiz o costume de políticos corromperem-se ou serem corrompidos, preferindo ao invés apelar para soluções “mágicas”, rápidas, simples e apoiadas por demandas vingativas e raivosas, como um golpe militar ou a pena de morte, como se elas fossem suficientes para acabar com a multicentenária cultura de corrupção.

Portanto, se alguém acredita que determinada região do espectro político é a que melhor combate a corrupção, os fatos mostram que essa região não é a direita. Ela não só falha em levantar e sacudir essa bandeira como mantém a ordem corruptiva vigente. Pense-se também depois de perceber isso: como uma corrente ideológica que prega a conservação ou o fortalecimento do estado de coisas em vigor poderia eliminar um problema que na verdade é sintoma dele?

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