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maio14

A “ordem natural” que muitos conservadores não respeitam
Se os conservadores querem "respeitar a ordem", que comecem então por respeitar, em vez de tentar impedir, a mudança e a diversidade.

Se os conservadores querem “respeitar a ordem”, que comecem então por respeitar, em vez de tentar impedir, a mudança e a diversidade.

Costuma-se dizer que o conservadorismo preza pelas “leis naturais”, por aquilo que a Natureza, incluindo a chamada natureza humana, impôs aos seres humanos. Mas curiosamente dois princípios essenciais dessa “ordem natural” não são considerados por grande parte dos conservadores: a diversidade e a permanente mudança, ambas as quais regem praticamente todas as sociedades, desde as ditas “primitivas” até aquelas radicalmente modernas.

É possível, na verdade, que muitos conservadores levem em conta que a sociedade muda sim e tem a diversidade e o dinamismo em seu seio, argumentando, ao invés, que são alguns valores centrais que “precisam” ser conservados para que a sociedade não entre em colapso. Mas infelizmente esse não é o pensamento de todos os conservadores. Tanto que muitos deles insistem em barrar mudanças essenciais e rejeitam o reconhecimento de inúmeros tipos de diversidade, como se o conservadorismo em si pregasse a estagnação moral-cultural completa e a uniformidade estrita da ordem social. É a essas pessoas que este texto é direcionado.

A diversidade é algo sagrado na Natureza, seja ela humana ou não humana. Desde os milhões de espécies de seres vivos até a variedade de ecossistemas na biosfera terráquea, nada na Natureza aponta que a ordem deve permanecer a mesma para sempre. Muito pelo contrário, sem diversidade de espécies, a vida na Terra sequer existiria. E sem a diversidade atômica e subatômica no Universo, a Terra, o Sistema Solar, as galáxias nunca teriam vindo à existência, e o Universo seria um espaço meramente “vazio”.

Da mesma maneira, a mudança é algo essencial para tudo o que existe. O exemplo mais dramático de mudanças é o ciclo da vida, a qual se renova constantemente com a morte de uns e o nascimento de outros. Galáxias mudam, estrelas mudam, planetas mudam, os ecossistemas da Terra mudam de era em era, as espécies existentes mudam em evolução… O próprio Universo só existe porque se originou de uma mudança em determinada ordem vigente. Se não fosse a mudança, nada existiria. Nem mesmo os conservadores que tentam barrar a evolução dos Direitos Humanos e das políticas públicas teriam vindo à existência. Aliás, até o próprio conservadorismo muda com o tempo – o conservadorismo da década de 2010 não é o mesmo da de 1920.

Ambas as “leis naturais” não são diferentes nas sociedades humanas. Mesmo aquelas sociedades ditas “primitivas” passam por mudanças e pelo contato com a diversidade humana e não humana, mesmo que isso aconteça de forma muito lenta em algumas delas. E a modernidade é o caso mais radical da aplicabilidade dessas “leis”. Nas sociedades modernas, nada de ontem é exatamente o mesmo de hoje, e tampouco as dinâmicas sociais dispensam as diversidades étnico-cultural, racial, sexual, etária etc. e as trocas de conhecimento dentro dessa heterogeneidade.

Queiram ou não os conservadores mais radicais, a cultura muda, a moral vigente muda constantemente, a inclusão social e moral adquire contornos diferentes a cada dia que passa. E da mesma forma, não é viável deixar de reconhecer que a diversidade tanto é inexorável como é parte essencial da sociedade na qual eles próprios vivem.

Quando se tenta barrar o reconhecimento legal e cultural das diversidades em favor de, por exemplo, um único modelo de família (especificamente um pai, uma mãe e um ou mais filhos) e de casal (heterossexual monogâmico), na tentativa de estancar as mudanças e esmagar as diversidades, está-se na verdade atentando contra a ordem das coisas e, ironicamente, desrespeitando as “leis naturais” pelas quais o próprio conservadorismo diz prezar. Da mesma maneira, ao se tentar criar filhos na década de 2010 com uma disciplina típica da de 1940, está-se jogando uma chave de fenda nas engrenagens e assim comprometendo a integridade do sistema social, que exige liberdades, direitos assegurados e respeito às diferenças.

Em outras palavras, o ultraconservadorismo de tentar impedir mudanças, esmagar as diferenças e parar o relógio da cultura é um atentado contra a sociedade pela qual os próprios conservadores dizem prezar. E é atentar contra o próprio conservadorismo que preza pela ordem natural, considerando-se que essa ordem depende da diversidade e da mudança para permanecer em equilíbrio dinâmico. Portanto, quem quiser respeito à “ordem das coisas” e às “leis naturais”, terá que respeitar as diferenças e as mudanças e parar de tratar o rio caudaloso como se fosse um lago fechado.

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