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maio14

Comportamentos recorrentes na direita reacionária brasileira
Desequilíbrio entre razão e emoção, uma das características muito comuns entre grande parte da direita autoritária brasileira. É visível como não se consegue defender ideias reacionárias sem vociferar ódio rosnante contra a oposição.

Desequilíbrio entre razão e emoção, uma das características muito comuns entre grande parte da direita autoritária brasileira. É visível como não se consegue defender ideias reacionárias sem vociferar ódio rosnante contra a oposição.

Que a direita autoritária-reacionária, de cunho golpista e protofascista e carregada de ódio contra minorias políticas, está numa perigosa trajetória de crescimento no Brasil, já não é nenhuma novidade. Apesar disso, a esquerda brasileira parece perdida diante disso, sem saber como trabalhar de forma conjunta e sistemática para deter, por vias democráticas e educativas, a ascensão desse “movimento” reacionário. Tendo isso em vista, vale, até para ajudar a esboçar planos de enfrentamento político-ideológico, tentar entender um pouco como direitistas dessa estirpe têm agido.

Diversas características podem ser observadas no comportamento de quem vive considerando o PT uma “corporação comunista (sic) diabólica”; demandando o recrudescimento do autoritarismo sociopolítico da polícia militar e das forças armadas; vomitando preconceito contra pobres, mulheres, homossexuais, pessoas trans, ateus, criminosos recuperáveis etc.; incitando a cultura da “justiça com as próprias mãos”; exigindo sutilmente a censura da esquerda na política e no ensino, entre outras atitudes. É imprudente acreditar que 100% dos reacionários seguem 100% dos comportamentos abaixo, mas é verossímil pensar que cada um desses indivíduos segue pelo menos cinco das posturas listadas a seguir.

Dentre os comportamentos recorrentes entre a direita autoritária brasileira, estão:

– Visão de mundo dicotômica e maniqueísta. Para essas pessoas, o mundo pode ser explicado por rígidos binarismos, como: “cidadãos de bem” 100% bondosos e respeitadores da lei vs. “vagabundos” 100% malignos nascidos para escolher roubar e matar; direitistas “guerreiros da luz” vs. esquerdistas “soldados das trevas”; livremercadistas e conservadores vs. petistas “comunistas”; cristãos “benignos” de direita vs. “profanos malignos” de esquerda; heterossexuais e homossexuais em guerra mútua; ordem pública impecável vs. caos e desordem generalizados, entre outros;

– Demandas apressadas por soluções mágicas, fáceis e rápidas contra problemas complexos de tratamento gradual. É o que se vê quando muitos direitistas reivindicam, por exemplo, a derrubada do PT e/ou a intervenção (golpista) militar como grandes soluções para a corrupção, a brutalização da violência policial como a “melhor providência” para acabar com o crime, o silenciamento à força dos movimentos sociais e das demandas das classes mais pobres como meio de “resolver” os desequilíbrios da sociedade, imposição de disciplina militarista para os estudantes para acabar com a violência nas escolas e o desinteresse pelos estudos etc.;

“Humanismo” seletivo e interesseiro. Costuma-se na direita brasileira empunhar bandeiras humanistas – como o combate à corrupção política, o enfrentamento do crime, a oposição à precariedade dos serviços públicos, liberdades como a religiosa e a de expressão, a liberalização de diversas leis, o lamento pelos assassinatos políticos em regimes socialistas autoritários etc. – apenas quando elas podem ser aproveitadas para desmoralizar a esquerda e o PT e render ganhos políticos para a direita;

– Contradição entre o que defendem e as consequências de suas defesas. Não conseguem perceber que, por exemplo, as demandas pela imposição forçada da ordem pública só aumentam a tensão política e a “desordem” social nas ruas; suas demandas contra a corrupção esbarram em alguns valores e práticas que a própria direita brasileira tem o costume de manifestar; que a divisão estrita entre “cidadãos de bem” e “vagabundos”, mesmo com a intenção de promover a segurança pública, só tem contribuído para piorar e complexificar ainda mais o quadro de violência e criminalidade; a meritocracia socioeconômica que eles tanto defendem é atrapalhada por eles próprios quando incidem em racismo, machismo, transfobia, heterossexismo etc. e não se opõem aos privilégios antimeritocráticos dos mais ricos; entre outras questões;

– Desequilíbrio entre razão e emoção em suas demandas políticas. É flagrante que muitos reacionários abdicaram da razão para abraçar acriticamente uma ideologia de tendências fascistas, respondendo às críticas da esquerda com xingamentos e vociferações carregadas de ódio e não sabendo defender com argumentos racionais aquilo no que acreditam;

– Preconceito, seja ele velado ou explícito, contra minorias políticas. Destaca-se a aversão contra pobres, mulheres feministas, negros que rejeitam convictamente posições sociais subalternas, homossexuais, ateus, afrorreligiosos, pessoas trans etc. Costumam, porém, nos casos de preconceitos já criminalizados, expressar esse múltiplo ódio de forma velada, na tentativa de não incidirem em crime de intolerância;

– Credulidade e falta de senso crítico perante as informações que acessam ou chegam a eles. Muitas vezes os direitistas acreditam piamente nas versões midiáticas, militares, policiais etc. daquilo de que tomaram conhecimento, sem qualquer ceticismo e cuidado para ouvir o outro lado. Isso acontece muito quando o black bloc é depreciado na TV, os viúvos da ditadura falam bem de como o regime atuava, formadores de opinião de direita lançam livros que imediatamente são tomados como portadores de verdades absolutas, grevistas e manifestantes de rua são difamados pela mídia etc.

– Obediência estrita à ideologia liberal-conservadora. Não se tenta problematizar os processos do capitalismo, apoiando-o de forma praticamente incondicional ou mesmo defendendo-se sua radicalização a um estado ainda mais selvagem e voraz;

– Carência de empatia. É comum na direita autoritária rejeitar a compreensão das demandas e sofrimentos das minorias políticas, preferindo-se, ao invés, culpá-las por estarem sofrendo opressões e/ou permanecerem em posições subalternas na hierarquia social. Em muitos casos, aliás, a “empatia” é dirigida aos opressores, quando estes se fazem de vítimas perante as contestações vindas dos oprimidos;

– Uso abundante de falácias argumentativas. São muito comuns as:
a) falácias do espantalho (atribuir à oposição pontos fracos que na verdade não existem nela);
b) projeções de comportamento (atribuir aos opositores comportamentos que na verdade são do próprio acusador);
c) falácias non sequitur (trazer argumentos cujas conclusões não se conectam de fato com as premissas dadas);
d) generalizações apressadas (quando se generaliza a todos os esquerdistas defeitos que apenas uma parcela deles tem);
e) induções preguiçosas (insistir em ignorar as refutações trazidas do outro lado e insistir em argumentos já rebatidos);
f) apelos à misericórdia (persuadir pela indução à emoção opiniões sobre, por exemplo, a criminalização do aborto e a hipótese de oficializar penas de violência física contra criminosos);
entre diversas outras;

– Ignorância histórica e política. Muitos direitistas falam muito bem da ditadura militar, da época da monarquia imperial e da ideologia capitalista liberal-conservadora por não terem tido acesso a livros de História do Brasil devidamente fundamentados e dotados de referências confiáveis. Em muitos casos, os direitistas simplesmente rejeitam o que dizem as obras cujo ponto de vista diverge do que a ideologia dominante prega, preferindo recorrer, ao invés, a livros de confiabilidade metodológica e bibliográfica duvidosa;

– Paranoias conspiracionistas. É abundante o número de direitistas que juram que, por exemplo, o Brasil vive as vésperas de uma “ditadura comunista” ou já está submetido a tal regime, que o Foro de São Paulo pretende em breve “stalinizar” o país e/ou que as escolas básicas brasileiras são palcos de doutrinação marxista. Muitas vezes essas paranoias são usadas como pretextos para a defesa de censura e perseguição política violenta contra a esquerda, a instauração de uma nova ditadura de direita e a militarização das escolas;

– Busca por um “guru” ideólogo que pense por eles. É o caso de quem aceita, sem questionar, o que pregam os formadores de opinião de direita, como Olavo de Carvalho, Reinaldo Azevedo, Rodrigo Constantino, Rachel Sheherazade, Padre Paulo Ricardo, Leandro Narloch e os colunistas do Instituto Ludwig von Mises. Muitos consideram o que eles dizem autênticas verdades absolutas, e rejeitam irracionalmente ouvir/ler quem discorda deles;

– Busca por “heróis” e “salvadores” que redimam o Brasil dos seus problemas. Não basta procurarem por um “guru” que lhes poupe o trabalho de pensar sócio-historicamente, muitos direitistas depositam suas esperanças em indivíduos que eles enxergam como “redentores” capazes de banir o PT e a esquerda das altas posições políticas no Brasil, como Jair Bolsonaro, Silas Malafaia, Marco Feliciano, Joaquim Barbosa – este por ter sido um dos mais empenhados condenadores dos culpados pelo Mensalão petista – e altos comandantes militares que possam liderar um golpe de Estado;

– Ordem de prioridades bizarra. Muitos direitistas priorizam, por exemplo, dar direitos a embriões de poucas semanas de gestação, enquanto muitas crianças já nascidas passam por severas privações socioeconômicas e familiares e são ignoradas por eles; fiscalizar a vida sexual alheia ao mesmo tempo em que minorias políticas estão sendo vítimas de discriminação, negação de direitos e crimes de ódio; e “preservar a família tradicional” enquanto viram as costas para famílias que, mesmo constituídas de pai, mãe e filhos, estão desmanteladas por alcoolismo, machismo e/ou violência doméstica;

– Reflexão de um ensino escolar que não os ensinou a pensar. A maioria das escolas, mesmo as particulares, têm as meras funções latentes ou mesmo manifestas de dar diplomas de ensino médio e fazer jovens passarem no vestibular e tornam letra morta as diretrizes oficiais de ensino que as orientam a promover a cidadania e o pensamento crítico. E isso tem se refletido no fato de que grande parte, senão a maioria, dos direitistas autoritários saem da escola com noções distorcidas de História, Sociologia e Filosofia e têm dificuldades patentes de se expressar de forma racional, equilibrada, embasada e não falaciosa.

Esses pontos ainda assim não esgotam todas as características presentes (de forma não generalizada, repita-se) entre a direita autoritária brasileira. Mas mesmo assim já podem servir de referência para que outros militantes de esquerda aprofundem esse conhecimento sobre o reacionarismo brasileiro e elaborem planos para “desfascistizar” a sociedade.

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