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Crimes chocantes, demandas passionais e a atitude de tentar apagar o fogo com querosene

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Desde sempre acontecem, com certa frequência, crimes muito cruéis envolvendo tortura e assassinato de inocentes por criminosos, que despertam uma reação altamente indignada na sociedade. Nessa reação, é comum surgir declarações impulsivas que demandam, por exemplo, pena de morte, redução da maioridade penal, liberação do porte e posse de armas, entre outras reivindicações baseadas muito mais na emoção do que na razão. Diante disso, pode ser difícil aceitar, mas esses acontecimentos mostram como não devemos deixar que impulsos de raiva e de sede de vingança guiem nossas demandas por providências em prol da erradicação da violência.

Depois que a cabeça esfria depois da repercussão de crimes desse requinte – isso, aliás, quando nos damos a oportunidade de esfriá-las, o que pode não ser o caso de quem é fã de programas televisivos policiais –, nos tornamos mais aptos a reparar como o que exigimos quando estamos chocados contribuiria para piorar e brutalizar ainda mais, e nunca melhorar, a situação de violência. Nossa visão sai da turbidez da fúria, volta ao estado racional e percebe que, no final das contas, exigir violência brutal para punir e “diminuir” a violência brutal só irá tornar a sociedade ainda mais propícia para a ocorrência de novos casos de crimes hediondos chocantes.

Daí torna-se visível que pedir por pena de morte oficial (mediante condenação depois de julgamento) ou oficiosa (execução sumária de criminosos por parte de policiais), por rearmamento civil, pela substituição de camundongos e ratos por detentos em pesquisas científicas, por tornar a prisão degradante a maneira oficial de tratar criminosos condenados, por punir menores de idade com décadas de cadeia etc. podem tanto aumentar, ao invés de fazer decair, a incidência desses crimes como criar novos perfis de crimes cruéis. E isso, curiosamente, tenderá a engatilhar novas ondas de indignação e sede de vingança que, por sua vez, vão exigir uma brutalização ainda mais profunda do aparelho policial e penal, perpetuando uma espiral de crueldade e crimes que poderão levar a sociedade ao colapso.

Na sobriedade, nos abrimos a perceber que em nenhum lugar do mundo a pena de morte e a imposição do disciplinamento social violento reduziu crimes como assalto, estupro, corrupção, sequestro, homicídio etc. a níveis muito baixos. China, Estados Unidos, Arábia Saudita, Irã etc. continuam matando pessoas condenadas uma atrás da outra, mas “ainda assim” não conseguem zerar tais crimes. Se conseguem alguma coisa, é uma redução estatística tímida que não representa a supressão da cultura de violência e egoísmo que motiva esses crimes.

Da mesma maneira, por mais brutal que a polícia militar brasileira tenha sido na guerra às (algumas) drogas, e por mais traficantes e usuários de drogas ilegais tenham sido presos, os crimes de execução, por parte de narcotraficantes, contra devedores e denunciantes não param de acontecer. As demandas da classe média pelo aumento dessa política repressiva têm apenas perpetuado, ou mesmo piorado, a ordem criminal vigente e dado uma larga margem à ascensão de uma outra classe de crimes: os abusos de autoridade, a tortura, a extorsão e outros delitos praticados por policiais.

E na mesma linha, as penitenciárias brasileiras têm se tornado cada vez mais degradadas e degradantes – e o acondicionamento de criminosos nesses lugares tem sido visto pela sociedade sedenta de vingança como um destino “merecido” por eles. A polícia tem sido cada vez mais cruel, com direito a filmes como Tropa de Elite serem sucessos de bilheteria e programas televisivos como Polícia 24h (da Band de São Paulo) terem uma audiência fiel. Muitos criminosos hediondos – muitos dos quais são autores de crimes que chocam o Brasil – são duplamente punidos, tanto pela detenção como por tortura ou mesmo execução sumária, por parte de companheiros de cela ou de “agentes da lei”, dentro da cadeia. Mas nem por isso o crime tem decaído no Brasil. Pelo contrário, os casos chocantes têm continuado a pipocar pelo país.

E paralelamente a isso, a polícia, cada vez mais legitimada e apoiada em seus atos mais violentos pela sociedade, vem se tornando, como já mencionado, novos agentes do crime, torturando e matando pessoas nas ruas, preferencialmente rapazes negros pobres, sem distinguir entre inocentes e criminosos pegos em flagrante. E os linchamentos têm se alastrado pelo Brasil, numa resposta das pessoas à ocorrência de crimes obviamente cruéis, tendo vitimado muitos inocentes e não tendo recuperado e ressocializado nenhum criminoso – como o caso emblemático do rapaz de 15 anos que foi espancado e amarrado num poste com uma trava de bicicleta e, poucos dias depois, voltou a cometer crimes do mesmo tipo que cometia.

Ou seja, a demanda por punições ultraviolentas contra crimes ultraviolentos não teve nenhum efeito positivo. A violência policial, os linchamentos e a manutenção das prisões-masmorra só têm piorado a situação. O número de assaltos, homicídios, torturas, estupros etc. se mantém numa tendência quantitativa de altas graduais e momentos de baixa tímidos e efêmeros. E os crimes cometidos por policiais e por “cidadãos de bem” são cada vez mais corriqueiros, com direito a vermos nossa sociedade se chocando perante linchamentos de inocentes por civis “de bem” e episódios estarrecedores de abuso de autoridade protagonizados por policiais militares.

Daí fica claro, para quem se deixa vislumbrar a situação de violência no Brasil e no mundo, que aquelas demandas por mais violência punitiva que pipocam de vez em quando, depois que crimes cruéis estarrecem os brasileiros, muito mais atrapalham e pioram do que ajudam e melhoram. Torna-se evidente também que, quando nos indignamos com um crime, precisamos deixar a poeira se assentar na nossa mente e não emitir qualquer “proposição” enquanto estamos com o emocional alterado.

Para propor soluções, precisamos esfriar nossas cabeças, ler e/ou ouvir o que pessoas entendedoras do tema criminalidade têm a dizer, procurar estatísticas e só então dizer o que concluímos que pode realmente tornar o mundo um lugar menos violento. Façamos isso ao invés de deixar o senso comum raivoso falar por nós, porque, quando deixamos a emoção nos dizer o que seria “melhor” para acabar com a criminalidade e suas tantas crueldades, nossas bocas e dedos tendem a só fazer piorar a situação nacional e global de violência. Nossas emoções tentam apagar fogo com querosene, e esse fogo aumentado pode acabar nos queimando um dia.

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2 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Jack Souza

julho 2 2014 Responder

São muitos discursos com belas palavras sobre direitos humanos. Direitos que o cidadão de bem não possui! Bandeiras de Direitos Humanos são levantadas apenas para defender assaltantes, homicidas, delinquentes, e todos os demais tipos de criminosos que são tratados como coitados! Não sou policial, e com certeza nossa polícia está minada de corrupção, assim como nosso governo, porém não se fala em Direitos Humanos dos policiais que diariamente vivem em guerra contra esses criminosos!
Bandido bom é bandido preso!
Nossas cadeias devem ser melhores para comportar estes bandidos o tempo que for necessário!
Direitos Humanos para o cidadão de bem!!!

Zé da Coxinha

maio 30 2014 Responder

pq o brasil com seus direitos humanos, sem pena de morte e td essa papagaiada tem mais homicídio que o iraque??

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