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Minha opinião sobre a vaia e o xingamento dirigidos a Dilma na abertura da Copa

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Desde o último dia 12, tem dado muito o que falar a baixaria da reação de muitos dos torcedores brasileiros contra a presença de Dilma Rousseff no Itaquerão na cerimônia de abertura da Copa do Mundo – ela foi vaiada e xingada com a frase “Ei, Dilma, vai tomar no cu!”. De governistas de centro até antigovernistas de esquerda solidarizaram-se com ela, declarando que o insulto foi inaceitável. Eu também não achei de bom grado essa manifestação, e vou explicar adiante por quê. Mas desde já aviso que não compartilho integralmente a opinião predominante na (centro)esquerda mencionada, nem presto solidariedade a Dilma.

Muitos declararam que “foi um desrespeito a uma chefe de Estado, à representante máxima do Brasil”. Eu pessoalmente sou indiferente em relação a xingarem chefes de Estado, eu não os respeito mais do que outras pessoas por assumirem posições de poder e autoridade. E já tenho uma tendência a ser cada vez mais contra ser governado por chefes de Estado e representado por presidentes, monarcas, primeiros-ministros e toda a sorte de líderes estaduais e municipais do poder executivo.

Por isso eu não tive pena de vê-la sendo hostilizada enquanto intitulada “representante máxima do Brasil”. Mas por outro lado concordo plenamente que foi uma maneira completamente inócua, despolitizada e irracional de agir em prol de uma mudança na ordem política brasileira – isso se ao menos houvesse a intenção, entre os presentes, de mudar essa ordem, com a radicalização da democratização. Tanto que muita gente está de acordo que os xingadores fazem jus ao estereótipo político do coxinha, aquele que não sabe atuar politicamente, só levanta bandeiras de causas difusas – desprovidas de metas e sem saber como seria, por exemplo, a “saúde e educação” desejadas por ele – e repete sem qualquer senso crítico discursos conservadores repetidos pela mídia oligarca e pelos ideólogos de direita.

Indo adiante na opinião, eu sou convicto de que houve diversas razões válidas de ser descontente com a conduta do governo encabeçado por Dilma em relação à Copa do Mundo, ao conluio com a Fifa e a “promiscuidade” da relação desse governo com a CBF de José Maria Marin e outrora de Ricardo Teixeira. Esse governo passou por cima dos Direitos Humanos em todos os momentos relacionados à Copa nos últimos 7 anos, apoiou a repressão contra os movimentos sociais e demais manifestantes de rua desde junho de 2013, consentiu a remoção forçada de milhares de famílias da área onde os estádios seriam construídos e arredores, é candidato favorito a réu de futuros escândalos de corrupção envolvendo as obras dos estádios e de infraestrutura que contaram com verbas federais, é cúmplice dos governos estaduais no fracasso da maioria das obras de mobilidade ligadas à Copa construídas nas coxas, entre tantos outros problemas apontados pela esquerda e, de forma oportunista e hipócrita, pela direita.

Porém, apesar de eu concordar que o governo Dilma tem muitos motivos para ser digno de reprovação, o grande problema que vem sendo colocado é como, onde, por quem e por que esse descontentamento foi expressado nas arquibancadas do Itaquerão.

– Como? Com uma frase ofensiva que não representa absolutamente nada em termos de ação política. Mesmo sendo contra a “democracia” praticamente restrita à eleição de representantes, eu admito que o voto em um adversário de Dilma representaria infinitamente mais em termos de atuação política da sociedade para trocar de governante do que mandar um xingamento de fundo misógino e homofóbico que não vai nem derrubar Dilma nem induzi-la a renunciar.

A saber, eu sei sim que, à exceção talvez de Luciana Genro, que está substituindo Randolfe Rodrigues como presidenciável do PSOL, nenhum adversário de Dilma representa possibilidade de transformar o Brasil para um estado de mais justiça social e mais respeito aos direitos humanos, sociais, ambientais, políticos e civis de toda a população, por isso o voto em Aécio ou Eduardo com a intenção de “mudar o Brasil” vai ser um tiro pela culatra, mas ainda assim isso não quer dizer que xingar Dilma represente uma ação capaz de mudar o Brasil;

– Onde? No estádio que muitos daqueles que xingaram Dilma haviam criticado por ser um possível ninho de corrupção, não oferecer segurança e ter matado vários operários durante sua obra. Os ofensores estavam dentro do estádio, entraram ali tendo pago ingressos muito caros, e só puderam estar ali graças a pessoas como Dilma, que possibilitaram que estivessem ali assistindo à mesma Copa que tanto haviam condenado até poucos dias atrás. Ou seja, como dizem por aí, já que estavam ali graças à liderança de Dilma, o mais lógico seria eles terem agradecido a ela.

E curiosamente, todos eles pagaram o ingresso à Fifa, estiveram presentes como torcedores na tão criticada Copa do Mundo e deram razão para o tão criticado Itaquerão vir à existência e a Copa ser iniciada, ou seja, são cúmplices ativos de toda a corrupção ética, política e financeira que envolveu a montagem das arenas da Copa e a colonização temporária do Brasil pela Fifa. De fato, terem hostilizado quem permitiu que estivessem ali foi uma hipocrisia enorme, um gol contra muito mais significativo do que aquele que a mesma turma viu acontecer pouco mais de uma hora depois. Xingaram uma outra cúmplice da corrupção que permeou a viabilização da Copa, mas eram eles mesmos cúmplices e financiadores consentidos dessa corrupção. Ou seja, sujos falando da mal lavada.

– Por quem e por quê? Por pessoas de classes elevadas (alta, média-alta e uma parcela da classe média), já que a carestia dos ingressos, que variaram entre R$160 e 990, manteve longe as camadas populares, incluindo a “nova classe média” tão exaltada por Lula e Dilma. Pessoas que, por serem, como bons coxinhas, manobradas pelos ideólogos conservadores, se opõem ao PT não por ele ter virado à direita e passado a privatizar bens públicos, oprimir e negligenciar minorias políticas e andar de mãos dadas com magnatas, teocratas e latifundiários. Mas sim, conhecidamente, porque o governo federal petista e parte de sua base aliada, no passado recente, promoveram algumas políticas sociais relevantes e aprovaram algumas medidas que lhes causam ódio, como o Bolsa Família, a difusão das cotas raciais e sociais, a concessão de crédito financeiro às camadas populares e a expansão, ainda que criticável, das universidades públicas.

E grande parte dos que pagaram dezenas ou centenas de reais para estarem ali são contra a realização de políticas sociais pelo Estado e desejariam um governo “perfeitamente” de direita, contrário ao atual governo, que é “imperfeita e parcialmente” de direita. Não lhes importa que o PT tenha promovido privatizações concessionais de portos, aeroportos, rodovias, ferrovias e poços de petróleo; se aliado a teocratas, latifundiários e oligarcas; beneficiado grandes bancos, indústrias e agroindústrias; revogado a regulamentação do aborto legal e as políticas de educação para a diversidade sexual e de gênero; enterrado fundo o PL 122/2006, que criminalizaria o heterossexismo, a transfobia, a misoginia e o capacitismo; desrespeitado os Direitos Humanos; sub-humanizado os povos indígenas e jogado forças militares contra os movimentos sociais em várias ocasiões nos últimos anos.

Afinal, se promoveram o mínimo de políticas que agradaram a esquerda e as classes populares no passado, conquistaram definitivamente o ódio da direita paranoica, da qual muitos dos adeptos estiveram ali hostilizando Dilma não tanto por descontentamento político, mas principalmente por ódio ideológico. Ou seja, os xingamentos definitivamente não foram por causa da Copa do Mundo. Mas sim por ódio acrítico aos governos do PT.

Fica claro, quando analisamos de forma crítica e sem paixões e conservações, que Dilma mais do que merece ser criticada, mas o xingamento não veio de uma maneira politicamente relevante, nem das pessoas vitimadas pelas políticas perniciosas do governo dela, nem pelos motivos justos, e aconteceu, enquanto tentativa (malsucedida) de manifestação política, na pior ocasião possível. Eram conservadores que, por estarem ali, eram cúmplices dos desmandos da Fifa e do governo federal, e estavam nada mais do que xingando uma dos seus.

Eu pessoalmente não presto solidariedade a Dilma. Por mim, ela merece todos os protestos #NãoVaiTerCopa que aconteceram e acontecerão e perder as eleições para Luciana Genro, a nova presidenciável do PSOL. Mas concordo com a turma que se solidarizou quando ela aponta que o motivo dos insultos não foi algo plausível, nem o público ofensor era dos mais idôneos e coerentes, nem o método foi politicamente relevante. As classes populares negativamente afetadas pelas políticas de Dilma fariam muito melhor. Aliás, já fazem muitíssimo melhor, em suas manifestações de rua que foram realizadas paralelamente ao xingamento vindo dos coxinhas e continuarão ocorrendo nas próximas semanas.

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valmor oliveira

julho 14 2014 Responder

achei super valido o que fizeram, acho que toda vez que aparecesse um politico em aglomeraçoes populares, deveriam ser xingados e ofendidos, porque o que eles fazem e sacanagem, e nao me venham com esse papo de mudar votando, que isso e puro folclore, em um pais composto por uma midia escrota, pliticos escrotos e advogados + escrotos ainda, jamais mudaremos as coisas atraves de votos, precisamos de uma guerra civil e começar tudo de novo depois dela, aqui tudo ja começa com vencedores pre-determinados, principalmente eleiçao, outro detalhe, votar em quem? escolher um ladrao do teu estado ou escolher um ladrao de outro estado? nao percam tempo votando, eu nao perco a mais de 14 anos e nem justifico.

Luh

junho 14 2014 Responder

Muito bom!
Eu não tinha pensado que o xingamento de fato foi pelo PT e aquela velha ideia de que tudo no BR é culpa do PT !?
Esse episódio do xingamento não muda nada politicamente e mostra de como ainda temos que melhorar nesse sentido =/

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