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jun14

Pai conservador discute com filho que quer mundo melhor em protesto em São Paulo

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Um vídeo está causando arrebatamento em muita gente no Brasil desde ontem. É a filmagem, divulgada na internet e compartilhada pela Globo News, de uma discussão entre um pai claramente conservador e um filho que tenta persistir em sua participação no protesto #NãoVaiTerCopa que aconteceu ontem em São Paulo. As reações estão sendo atordoantes, tanto para a esquerda, que solidariza com o rapaz (de rosto borrado por ser menor de idade), como para a direita, que apoia o pai.

Na discussão, o pai age com visível agressividade, empurrando o filho para o carro onde ele seria forçado a voltar para casa, pegando-o forte pelo braço e arrancando a máscara que o rapaz usava ou para participar da tática black bloc, ou para se proteger dos ataques de gás tóxico orquestrados pela PM. Ele argumenta que o filho só terá direito “quando começar a trabalhar” e repete a quem está ao seu redor que o menino é “o filho dele”. Entre outras frases que podem ser ouvidas do senhor conservador, estão: “Você não foi criado pra isso!”; “Você é meu filho!” (na intenção não de lembrar algo positivo, mas sim que ele o domina); “Você já tem (estudo)” (quando o filho reivindica a educação de qualidade como direito universal); “Vamos pra casa”; entre outras de baixíssima qualidade argumentativa.

Enquanto isso, o adolescente argumenta, com muita compostura e em frases facilmente audíveis, que está ali lutando por um mundo melhor, por mais educação, mais saúde, por uma sociedade melhor. E lembra que uma de suas avós quase morreu por causa de um hospital público ruim. Apesar de todos os seus apelos, ele perde a discussão e é forçado pelo pai a voltar para casa – onde, não é difícil imaginar, ele provavelmente seria castigado. Logo a seguir, na Globo News, Leilane Neubarth, a jornalista que mostrou o vídeo, afirma que “os dois lados argumentaram bem”, ignorando a grosseria e as frases autoritárias e nada dialógicas do pai.

Na “torcida” da direita para que o pai “derrotasse” o filho, ficaram muito claros o ódio político, dirigido contra quem vai às ruas protestar por um mundo melhor, e o preconceito etarista (de idade), como se o pai tivesse intrinsecamente razão em tudo apenas por ser mais velho e exercer um papel de dominação sobre o filho. Alguns argumentaram que o discurso do filho era originado por “lavagem cerebral”, como se o “normal” fosse aceitar o mundo como ele é, com todas as suas opressões e injustiças, e a adesão a discursos pró-justiça fosse algo “ruim”.

Já pessoas da esquerda, como a página facebookiana Ruth Sheherazade, lamentaram a postura autoritária do pai. Afirmou-se que o pai tentou proteger o filho com amor, mas, se ele agiu por amor ou por literal exercício paterno de poder, é assunto para um longo e acalorado debate.

Ali estiveram presentes vários conflitos ao mesmo tempo: de geração, de ideologias, de mudança ou conservação social, de família, de tradições, de valores, de desejos, de políticas públicas, de sistemas socioeconômicos desejados etc.

Não é nada fácil solucionar esse conflito de pai conservador de direita X filho idealista de esquerda, mas é possível escolher um dos lados e verificar se ele realmente tinha razão. Pois o Consciencia.blog.br está ao lado do filho, e de todas aquelas pessoas que estão indo às ruas para se opor à Copa do Mundo e a todas as atrocidades sociopolíticas que ela simboliza.

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3 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Filipe

junho 16 2014 Responder

Olá Robson, estou de volta.

Caso intrigante esse. Meu posicionamento é: Os filhos devem sempre obedecer seus pais.
Esse primeiro ponto é indiscutível.
Segundo: não concordo com Black-Blocs nem com manifestações mascaradas, muito menos com depredações bancárias ou de qualquer tipo. Ordem, sempre.
Eu não sou contra a Copa. Sou contra a forma como esta Copa foi feita. Então, eu protesto boicotanto a Copa. Não assisto, não compro produtos relacionados, boicoto lojas que se enfeitam para a ocasião. Falo mal do evento, apenas com as verdades, pois isso é mais que o suficiente. Não compactuo com a roubalheira, de forma alguma.
Eu acho que o filho deve mostrar ao pai seu ponto de vista, mas sem afrontá-lo ou desobedecê-lo dessa forma. E o pai deve dialogar com o filho, sabendo exercer sua autoridade com amor.

É o que penso!

HELOISA HELENA

junho 14 2014 Responder

Eu lamento o pai ter desmoralizado o filho, melhor teria sido chamar e falar em particular sobre a possibilidade de o rapaz se ferir na aglomeração. Talvez até acompanha-lo de longe…mas arrancar a cobertura do rosto e berrar daquele jeito, foi o fim! Estranhei a fraqueza do menino, implorando ao pai para que permitisse continuar, mas podemos atribuir ao fato de ele ser menor e saber que o pai teria meios até legais de tirá-lo da rua.
Outra coisa, Robson, poderia esclarecer o significado de “todas as atrocidades sociopolíticas que ela ( a Copa) simboliza”? Eu gostaria de entender melhor.

    Robson Fernando de Souza

    junho 14 2014 Responder

    Oi, Heloisa. Entre essas atrocidades, estão:
    – remoções forçadas de famílias que tiveram suas casas destruídas e receberam pouquíssima ou nenhuma indenização, nas cidades onde os estádios da copa foram construídos;
    – muita corrupção que pode ser descoberta nos próximos meses ou anos, em cima da construção dos estádios e das demais obras de infraestrutura pelo Brasil nesses sete anos antes da copa;
    – todos os desmandos da Fifa, que na prática está colonizando o Brasil e impondo suas vontades tal como a Coroa portuguesa impunha as suas no Brasil colonial dos séculos 16 a 19;
    – a repressão militar intensa contra os protestos do #NãoVaiTerCopa, ainda mais agora que há 200 mil homens das PMs, Força Nacional e Exército prontos pra entrar em guerra contra os civis que forem às ruas;
    – o histórico da FIFA como máfia que usa o futebol como fachada pra muitas ações de corrupção;
    – entre tantos outros motivos que nos fizeram usar a hashtag #NãoVaiTerCopa nos últimos anos.

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