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jun14

Se você chama a humanidade de “câncer”, está contribuindo para que ela continue destruidora da Natureza
O Agente Smith, vilão de Matrix, dizia que "a humanidade é um vírus". Do lado de quem você está, de Smith ou de Neo (o protagonista do filme)?

O Agente Smith, vilão de Matrix, dizia que “a humanidade é um vírus”. Do lado de quem você está, de Smith, por concordar com ele, ou de Neo (o protagonista do filme), por querer se juntar a ele para acabar com o sistema de dominação humano-ambiental vigente?

Muita gente diz que a humanidade é um “câncer”, um “vírus”, uma “praga”, que tende a destruir completamente a Natureza terráquea e por isso deveria ser exterminada o quanto antes por alguma catástrofe de grande escala para que a biosfera se regenerasse. Não se percebe que esse pensamento misantrópico não ajuda em nada a reverter a situação corrente de degradação ambiental. Pelo contrário, só tende a piorá-la, a realmente reconfirmar a tendência destruidora da expansão da atividade humana.

Essa postura de chamar o ser humano de “câncer que deve ser extirpado” promove uma visão fatalista e conservadora da ação humana, como se o impacto ambiental da sociedade industrial fosse inerente à existência da humanidade, portanto irreversível enquanto o ser humano continuar existindo. Em outras palavras, acredita que “infelizmente é assim e sempre será, e só tem jeito se a humanidade desaparecer”, algo que também é usado por quem crê ser “impossível” acabar com a pobreza e a violência criminal. E se fundamenta numa linha de raciocínio que nada mais é do que uma falácia, a falsa dicotomia: ou a humanidade continua existindo com impactos ambientais a mil, ou é repentinamente extinta e tem esse impacto reduzido a zero.

Tal posição ignora que é possível sim a humanidade diminuir muito o impacto de seu trabalho, e descarta totalmente a possibilidade de uma revolução ou mudança gradual que derrube e supere a civilização industrialista de consumo. Tacha como “impossível” ser posto abaixo o sistema econômico atual, baseado no uso intensivo de energia e recursos naturais e na consequente degradação ambiental em grande escala. E reduz falsamente a zero a probabilidade de esse modelo de civilização dar lugar a um modelo pós-industrial que concilie qualidade de vida humana, extração e usufruto de recursos naturais e integridade ecológica.

Além disso, esse fatalismo “cancerista” é um claro desrespeito a todos que lutam por uma sociedade sustentável. Chama de “inútil” e “desprezível” o trabalho de pessoas como Chico Mendes e Dorothy Stang, que literalmente morreram pela causa que defendiam, e dos milhares de indivíduos que, em associação, idealizaram, viabilizaram e promoveram eventos como a Estocolmo-72 e a Rio-92. Afinal, seria um trabalho “vão”, que “não adianta nada” e cuja continuação seria uma “perda de tempo”, já que a qualidade de “vírus destruidor” seria algo intrínseco ao ser humano e só acabaria quando este fosse varrido do universo.

É perceptível, também, que a encaração da existência humana como algo intrinsecamente ruim para a Natureza promove uma segunda falácia de falsa dicotomia – a separação, violenta inclusive, entre a Natureza e a humanidade, que ignora que o ser humano também é parte dela. E assim legitima justamente o paradigma que tanto faz muitas pessoas pensarem que a humanidade é um “câncer” – a dicotomia, nascida entre os pais fundadores da ciência moderna, entre Natureza e cultura, e a “naturalidade” e “necessidade” do comportamento dominador e carrasco por parte do ser humano perante o meio ambiente.

Ou seja, se depender dos fatalistas, a humanidade vai continuar perpetuamente, até que algum cataclismo de grande escala a remova totalmente da existência, destruindo os ecossistemas, exaurindo os recursos naturais, extinguindo espécies aos milhares por ano e também mantendo as hierarquias opressivas que, em parte, fundamentam essa predatoriedade. E nenhuma ação pró-sustentabilidade e pró-libertação humano-ambiental vai continuar sendo empreendida, já que nenhum vírus deixa de ser vírus, nenhum câncer deixa de ser câncer e, baseadamente nessa (falsa) analogia, o ser humano jamais poderia deixar de ser uma espécie ultradestrutiva.

Em outras palavras, aqueles que chamam a espécie humana de “vírus ou câncer a ser extirpado” estão contribuindo justamente para que a humanidade continue parecendo, aos seus olhos, um “vírus ou câncer”. E estão ajudando fundamentalmente a promover uma espiral de destruição, alienação, omissão cúmplice e ódio misantrópico, na qual a humanidade destrói a si mesma e à Natureza à qual pertence.

Fica claro que a única contribuição do fatalismo de patologizar a existência humana perante o meio ambiente é negativa. É o indivíduo alienar-se da responsabilidade de cuidar da Terra e lutar pela libertação simultânea da humanidade – de sua “necessidade” artificial de se organizar em hierarquias de dominação, gastar intensivamente recursos naturais e exaurir o ambiente até que este se destrua num colapso – e da Natureza à qual ela pertence – do jugo imposto pela sociedade industrial. Portanto, o indivíduo tem duas opções: o fatalismo conservador ou a luta permanente pela libertação humana e da Terra. E sua escolha determinará quem é ele perante a Natureza – um cúmplice ou agente propriamente dito da destruição ou alguém que luta pela reversão dessa devastação.

imagrs

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thiago

junho 4 2016 Responder

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