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jul14

Apesar dos problemas, o mundo não está perdido, nem estamos no “fim dos tempos”

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Diante dos diversos massacres e conflitos armados ao redor do mundo, do desequilíbrio ecológico global e da persistência de gritantes desigualdades sociais em quase todos os países, muitos dizem que “o mundo está perdido” e “o fim dos tempos está chegando”. Mas um conhecimento básico de História Geral nos vai mostrar que essas nervosas crenças não correspondem à verdade. Ao contrário do que parece, o mundo não está piorando, mas sim, através de cada vez mais pessoas, reconhecendo seus problemas e tentando, ainda que com visíveis dificuldades, consertá-los pela primeira vez em milênios.

Fala-se muito de “perdição” do mundo diante de episódios lamentáveis de guerra ou genocídio, como o massacre dos palestinos pelo Estado de Israel, a guerra civil da Síria e diversos conflitos na África pouco abordados pela mídia. Esses acontecimentos chocam, indignam e entristecem quem está vendo de longe, mas, por mais estarrecedores que seja, não representam uma piora degenerativa do estado de coisas da humanidade.

Isso porque, se hoje são objetos de indignação e despertam o desejo de que acabem, antigamente seriam vistos como algo totalmente normal, comum, moralmente aceitável ou mesmo elogiável. Séculos atrás esses episódios armados seriam apenas alguns entre milhares de outros acontecendo ao mesmo tempo ao redor do planeta. E pouquíssimas pessoas das épocas passadas atestariam isso como signos de degenerescência ético-moral da humanidade, já que grande parte das culturas do passado aprovavam e defendiam guerras de agressão ou crueldades por parte de exércitos de defesa. Não existiam difundidos os preceitos ético-morais vigentes hoje na maioria das sociedades modernas, como os Direitos Humanos, a liberdade individual e a valorização da democracia.

Algo parecido é aplicado a crimes civis, como homicídios, estupros, assaltos, torturas de civis contra civis etc., assim como os flagelos das estratificações sociais, como a miséria, a fome e a mortalidade infantil. A alta incidência disso tudo não é a piora de um estado anterior de menos violência e menos miséria. Tais problemas chocam mais atualmente porque existem hoje estatísticas públicas de acesso fácil e frequente atualização sobre suas ocorrências, além de divulgações incessantes nos meios de comunicação e uma receptividade moral, por parte das massas, muito diferente de antigamente. E isso não existia antes da disseminação dos primeiros veículos de mídia em massa e dos valores ético-morais iluministas e pós-iluministas.

É à mídia de largo alcance e globalizada, aliás, que devemos a impressão de que o mundo está “desmoronando” em guerra e miséria. Ela dá aos tantos problemas que ocorrem ao redor do mundo uma visibilidade nunca antes vista na história humana. É ela que dá a impressão de que o mundo tem mais conflitos, problemas e violações éticas do que antigamente, já que outrora não era possível saber o que acontecia nas milhares de sociedades espalhadas pelo planeta e entre elas e, assim, havia a impressão de que o mundo não tinha tanta violência assim.

Não era possível a um tolteca, um mississipiano ou um khmer medieval informar-se sobre os genocídios promovidos pela cavalaria de Genghis Khan na Ásia e na Europa. Nem a um lituano medieval saber dos sacrifícios humanos em massa promovidos na capital asteca Tenochtitlán. E mesmo que soubessem, provavelmente não se comoveriam como nos comovemos hoje, exceto em caso de estranhamento moral-religioso resultante do choque de culturas.

Em outras palavras, o mundo hoje parece pior do que no passado não porque há mais violações humanas e problemas hoje do que ontem. Mas sim porque esses flagelos têm agora uma inédita visibilidade global e a sólida oposição ético-moral (da maioria) das sociedades modernas. Esses problemas estão na verdade sendo reconhecidos como ruins. E no caso de muitos deles, estão até diminuindo, melhorando, graças ao trabalho sociopolítico de muitas pessoas. E o melhor também é que agora temos em nossas mãos o poder de aliviar e/ou consertar diversos deles – ou seja, resignar-se a dizer que “o mundo está perdido” é cada vez mais uma opção evitável do que uma constatação verídica.

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Daniela

setembro 26 2014 Responder

Muito interessante o texto, realmente. Faz muito sentido. Porém, sobre a questão ecológica eu ainda fico com um pé atrás… A exploração excessiva dos recursos naturais, mesmo prejudicando nosso planeta e colocando em risco a própria espécie humana, alimenta a economia e muitas pessoas só importam-se com isso. É maravilhoso o fato de que nunca na história fomos tão … “pacíficos”, mas não podemos nos satisfazer e deixarmos de evoluir. (:

Jonathan Adam

julho 28 2014 Responder

Muito bom o texto ! Esclarece bastante coisa. De fato existe uma sensibilização e uma conscientização mínima de uma parcela de pessoas que quer ver a situação do mundo mudar. O que, talvez, reforça os eventos que vêm ocorrendo no Oriente e na África com vários levantes, em boa parte, das pessoas. O interessante do texto também é que abordou uma visão analítica do panorama mundial, deixando de lado o discurso de os seres humanos são uma raça cruel, etc. etc. Mostrou a situação por um ângulo que muitos nem prestam atenção para refletir. Muito bem !

    Robson Fernando de Souza

    julho 28 2014 Responder

    Obrigado, Jonathan =)

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