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jul14

Os justiçados e os verdadeiros derrotados na goleada alemã sobre o Brasil
A derrota da seleção brasileira foi a derrota de nacionalistas e de gente que, infiel a seus princípios políticos, apoiou uma copa marcada por violações dos Direitos Humanos e um doentio nacionalismo capitalista

A derrota da seleção brasileira foi a derrota de nacionalistas e de gente que, infiel a seus princípios políticos, apoiou uma copa marcada por violações dos Direitos Humanos, abusos políticos e um doentio nacionalismo capitalista

Obs.: Mesmo sendo fiel ao #NãoVaiTerCopa, considero praticamente impossível não trazer uma posição política, quando não se é apolítico, sobre a repercussão da derrota da seleção brasileira no jogo de ontem.

Como todo mundo já sabe, a seleção do Brasil foi goleada com um 7 a 1 pela da Alemanha na tão chamada “Copa das Copas” – que eu prefiro chamar de Copa das Tropas. Eu pessoalmente sinto muito pelos brasileiros que não são ufanistas temporários ou definitivos, mas simples torcedores que não estavam por dentro das críticas políticas à Copa e queriam ver a seleção brasileira ganhar um hexacampeonato em seu próprio país e se redimir do “Maracanazo” de 1950. Mas digo que, nessa sonora derrota, todos aqueles indivíduos que foram oprimidos em nome da realização da Copa foram simbolicamente justiçados. E enfatizo que se pense não duas, mas vinte vezes antes de dizer que o dia de ontem foi “o pior da história brasileira”.

Ontem não só o falecido goleiro Barbosa, crucificado durante todo o restante da sua vida por causa da falha no gol do Uruguai em 1950, se sentiria vingado. Mas também as milhares de pessoas, das quais muitas ainda estão desabrigadas, que foram criminosamente despejadas com remoções forçadas para a construção dos estádios e das malfadadas obras de mobilidade feitas também em prol da Copa. Os trabalhadores que morreram nos acidentes de trabalho nos estádios numa condição de exploração e insegurança.

Os tantos indivíduos que foram feridos, detidos e/ou presos pela repressão militar em todos os protestos do #NãoVaiTerCopa. Os incontáveis cidadãos que se sentiram acuados e temerosos demais para exercer seu direito à livre manifestação política por causa do exército de 200 mil militares designados a guerrear contra os civis que fossem protestar nas ruas. Os também inúmeros indígenas e negros pobres que vêm sendo chacinados por policiais e capangas de latifundiários e recebendo apenas silêncio da mesma Dilma que lamentou publicamente a lesão de Neymar.

As vítimas que morreram ou se feriram com a queda do viaduto de Belo Horizonte e foram “homenageadas” com estupidez e insensibilidade pelo prefeito de lá. Todos os trabalhadores ambulantes, microempresários e empregados que foram muito prejudicados pela política de proibições comerciais da Fifa. Entre outras vítimas de quem no momento não estou lembrado.

Também foi possível sentir um delicioso gostinho de justiça contra todas as empresas e políticos que, através dos meios de comunicação, incitaram o ufanismo, o nacionalismo, o culto ao Estado pela reverência a seus símbolos – a “pátria”, a bandeira nacional e o hino – e trataram a seleção como um exército civil patriótico. Contra todos aqueles que incitaram essa semirreligião nacionalista para explorar trabalhadores e ganhar quilos de dinheiro. Contra narradores, comentaristas, políticos, futebolistas etc. que fizeram com que um evento que deveria ter o fim de alegrar moderadamente e divertir fosse transformado em motivo para expressões de ódio racista, misógino, xenofóbico, heterossexista e transfóbico.

Contra todos os maus torcedores, que expressaram e exerceram esse ódio com violência verbal ou física contra estrangeiros, contra suas companheiras, contra pessoas de minorias políticas etc. Contra todos os políticos, de qualquer partido, que participa(ra)m de ainda obscuros esquemas de corrupção e/ou participaram da incitação ao nacionalismo, de modo que obtiveram ganhos privados e tiraram a atenção da população dos tantos problemas estruturais que indignificam a vida de milhões de pessoas.

A goleada sofrida pela “selecinha” também foi um merecidamente duro revés contra os nacionalistas temporários ou definitivos, que considera(va)m os brasileiros moralmente “superiores” aos habitantes dos demais países. E também contra os desertores da oposição de esquerda à Copa. Estes que, até 12 de junho (dia da abertura do evento), eram críticos ferrenhos do evento e solidarizavam-se com as greves e os protestos anticopa, mas logo na cerimônia de abertura jogaram essas críticas fora, abandonaram essa solidariedade, traíram todos aqueles que haviam sido severamente oprimidos e/ou mortos pela realização da Copa, pintaram-se e vestiram-se de verde e amarelo e juntaram-se, na torcida pela seleção, aos coxinhas – os quais, por sua vez, tanto vociferavam “contra tudo que aí está”, mas despudoradamente também vestiram as cores da bandeira durante os jogos do Brasil.

Nesse “dia seguinte”, se por um lado sinto o gosto de justiça feita, por outro lamento a atitude de muitos de considerarem o dia de ontem como “um dos piores/o pior da história do Brasil”, ou “a maior vergonha da história brasileira”. Além de ser uma das tantas demonstrações perniciosas do mencionado nacionalismo que levou esse golpe certeiro da seleção alemã, é um atestado de ignorância e falta de empatia histórica. É uma postura que agride a memória dos milhões de escravizados no passado, de todas as vítimas do golpe militar de 31 de março de 1964, de todo mundo que foi torturado e morto depois do dia da outorga do AI-5, de todos que tinham seus sonhos de um povo brasileiro livre e emancipado mas foram silenciados à bala ou à forca pelo exército colonial português ou pelo imperial e republicano brasileiro.

É um sacrilégio à História do Brasil dar atributos tão pesados e historicamente importantes ao dia 08/07/2014. Porque considera um mero jogo de futebol algo muito pior do que o dia em que um indígena foi forçado a ser o primeiro escravo da história brasileira, em algum momento das primeiras décadas do século 16; o dia do desembarque dos primeiros escravos africanos no território brasileiro, provavelmente em 1533; o início da ditadura do Estado Novo de Getúlio Vargas, em 10/11/1937; o golpe de 31/03/1964; o AI-5 de 13/12/1968; e o anúncio, em 17/12/1989, de que Fernando Collor foi eleito presidente e derrotou o então esquerdista Lula, acabando com a esperança de milhões de brasileiros por um governo de emancipação social radical.

Em memória de todas as vítimas de opressão na história brasileira, eu considero que 08/07/2014 não foi um “dia da vergonha”. Mas sim um dia da justiça simbólica e da derrota do nacionalismo capitalista brasileiro. Não foi “o Brasil”, nem os brasileiros, quem perdeu. Mas sim os nacionalistas, os esquerdistas desertores do #NãoVaiTerCopa, os coxinhas pseudoanticopa, os capitalistas que incitaram ufanismo para lucrar, os governos federal e estaduais que mobilizaram todas aquelas tropas de repressão, os racistas e misóginos que xingaram Zúñiga e sua família, enfim, todo mundo que era maliciosamente interessado nas obras e na realização da Copa ou usou o futebol como pretexto para comportamentos abomináveis de ódio e violência.

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2 comentário(s). Venha deixar o seu também.

V.

julho 10 2014 Responder

Sobre a copa de 2022 no Qatar, já possui algum texto em mente? É absurdo que seja permitida a construção de estádios com trabalhadores praticamente escravos, além da altíssima temperatura, que deve tornar as condições de trabalho ainda piores. Isso sem falar nos gastos que terão devido ao calor, para que seja possível praticar tal esporte. Seria ótimo se você pudesse escrever a respeito.

Grato pela atenção

    Robson Fernando de Souza

    julho 10 2014 Responder

    Ainda não tenho texto em mente, mas daqui pra lá vou participar e incitar o boicote também.

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