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Por uma Educação Ambiental politizada que supere o conservacionismo individualista
O conservacionismo individualista precisa ser superado na Educação Ambiental, e ser suplantado pela problematização sociopolítica

O conservacionismo individualista precisa ser superado na Educação Ambiental, e ser suplantado pela problematização sociopolítica

Uma postura muito equivocada entre educadores ambientais e entre muitas outras pessoas que se dizem “ambientalmente conscientes” é individualizar demais e despolitizar a busca pela sustentabilidade. Fala-se muito de posturas individuais que economizam alguns litros de água, quilowatts-hora de eletricidade e/ou quilos de lixo por dia, mês ou ano. Mas pensa-se de menos nos reais grandes degradadores ambientais e gastadores de recursos naturais e nas raízes sociopolíticas dessa degradação. Essa inversão de prioridades por parte de muitos defensores ou simpatizantes da sustentabilidade é um atraso enorme e tende a inviabilizar o próprio ideal de sociedade sustentável, e por isso precisa ser superada.

Divulga-se muito, na educação ambiental tradicional – também conhecida como educação conservacionista –, que cada pessoa deve fazer sua parte, de modo que o esforço combinado de milhões de pessoas resulte num gasto muito menor de recursos naturais e na prevalência da cultura de se consumir apenas aquilo que seja realmente necessário para a vida e bem-estar humanos. Mas pouco se fala – em muitos casos, não se fala nada – da parte coletiva da busca pelo futuro sustentável.

Ignora-se que a tradição industrialista e o capitalismo, combinados, não só impedem que a maior parte dos gastos evitáveis seja eliminada, como também criam necessidades artificiais que implicam diversas ações de degradação ambiental e consumo exacerbado de recursos. E isso faz o banho diário de vinte minutos no chuveiro elétrico parecer uma xícara com água ao lado de um reservatório industrial cheio.

Essa educação ambiental conservacionista não leva em consideração, por exemplo, que pouco vai adiantar pregar que uma criança tome banhos curtos e sempre desligue a luz ao sair do quarto, quando a indústria de brinquedos gasta incontáveis litros de água e quilowatts de energia para empurrar a essa mesma criança um brinquedo de última geração, cujo prazer de brincar rendido poderia ser provido por um brinquedo artesanal e muito mais simples.

Desconsidera também que essa “necessidade” de brincar com brinquedos eletrônicos caros e jogar games no mais novo e potente tablet do mercado, descartando o que poderia ser uma prazerosa brincadeira com brinquedos artesanais, é uma criação da indústria. É ela que diz às pessoas que elas “precisam” comprar aquele home theater potente, ou comer aquela “deliciosa” picanha ou o mais novo e “gostoso” sorvete lácteo de sabor mesclado do mercado, ou aquela fantástica impressora 3D, ou aquele elegante carro sedan com motor 2.4. E o poder persuasivo da publicidade, somado às coerções culturais consumistas induzidas por ela, é tamanho que muitas dessas pessoas, em especial crianças, se tornam simplesmente incapazes de recusar o consumo desses produtos.

E em muitos casos, vale perceber que a sociedade industrialista e capitalista foi tão moldada pela produção industrial que, de fato, o consumo de determinados produtos industrializados se tornou uma legítima necessidade. A sociedade de meados da década de 2010 é bem diferente daquela dos anos 60, de modo que hoje muitos de nós temos a necessidade, que naquela época não existia, de mandarmos avisos altamente importantes aos nossos amigos via internet pelo smartphone, ou de lermos e-mails urgentes que precisaremos responder dentro de doze horas.

O sistema social como um todo nos obriga a usar tecnologias que, até um tempo atrás, não eram estritamente necessárias para nossas vidas. E assim aumenta colossalmente nossa pegada ecológica, através do consumo de produtos que demandaram um intensivo gasto de energia, água e recursos renováveis e não renováveis, gerando um problema que a educação conservacionista está a anos-luz de ser capaz de abordar.

O poder do capitalismo e do industrialismo é enorme. Diante dele, ensinar crianças a tomar banhos curtos, evitar escovar os dentes com torneira ligada e não jogar lixo no chão, embora continue sendo um aconselhamento ambientalmente amigável não dispensável, passa a não poder mais ser a prioridade dos educadores ambientais, sob pena de o trabalho destes se tornar inócuo diante da crise ambiental causada pelo capitalismo industrial. Por isso é estritamente necessária a politização da Educação Ambiental.

A EA política passa tanto por questionar e problematizar o capitalismo industrial e o modo de vida fomentado e tornado obrigatório por ele, como por mostrar também que a degradação ambiental também é degradação social. Ela deve mostrar, por exemplo, como a exclusão social causada pelo mesmo sistema que induz a classe média ao consumismo eletroportátil e alimentício faz com que pessoas muito pobres ocupem e desmatem áreas de preservação ambiental e, distantes dos sistemas de esgoto e coleta de lixo, despejem seus resíduos nessas mesmas áreas.

Também deve mostrar como a produção e consumo dos itens mais fetichizados pelo mercado, como os alimentos de origem animal, os eletroportáteis de luxo, os brinquedos eletrônicos de última geração e as roupas de grife, implicam um impacto ambiental e social muito pesado e desnecessário. Aborde-se como esses produtos implicam direta e indiretamente o gasto de enormes quantidades de água, eletricidade, metais, madeira e terras, e também acarretam concentração fundiária, violência rural, exploração trabalhista, escravidão animal, poluição, influência de decisões políticas injustas, compra do programa de governo de candidatos a mandatos políticos etc.

A Educação Ambiental deve abraçar, desde já, a problematização sociopolítica do capitalismo, do industrialismo, do sistema político representativo e de tudo o mais que hoje perpetua as desigualdades sociais, as opressões e a exploração da Terra. Permanecer dando prioridade ou exclusividade a medidas que hoje não passam de algo cosmético, como medidas individuais de racionalização do consumo de recursos naturais, tende a tornar a EA algo meramente supérfluo que beneficia mais o psicológico individual – por via da limpeza da consciência – do que a Natureza em si.

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4 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Carolina Rodrigues

fevereiro 4 2015 Responder

Entendo o que diz, e concordo, em partes. Mas gostaria de ampliar, contribuir com outro ponto de vista. As ações que cita como individualistas, eu chamaria apenas de pontuais, pois elas contribuem para o todo, são também necessárias! Também não considero EA plena aquela que apenas informa a respeito dessas pequenas atitudes que já deviam estar incorporadas em nosso dia-dia. Mas a sociedade, a indústria, o governo, todos são feitos por indivíduos, individualidades (que é diferente de individualismo, creio eu). Sem indivíduo, não há coletivo. Por isso sou adepta de uma EA baseada em valores humanos, baseada em princípios artísticos… muitos podem me chamar “romântica”, porém acredito que uma pessoa só se engaja em questões mais coletivas quando tem suas necessidades básicas, pessoais, supridas (deve conhecer a pirâmide de Maslow). A crise ecológica começa na crise do ser humano, que se despedaçou. Atuo com uma educação ambiental chamada “de corpo&alma”, baseda no autoconhecimento. Um ser pleno, que se autoconhece, vai ter atitudes, posturas (e isso eu tb chamo de política) individuais que vão transbordar para o todo, o coletivo. Tenho um filho de 7 meses e vou ter que plantar hábitos individuais que futuramente ele vai cobrar de seus governantes, seus vizinhos, colegas de classe, cumprindo assim seu papel político. Confúcio já dizia: se quer mudar o mundo, mude primeiro sua casa, mudando sua casa, sua rua muda, seu bairro, cidade… até mudar o mundo.
Grata.

Mari Cunha

julho 19 2014 Responder

Interessante isso, tudo o que tive na escola sobre “educação ambiental” se resumiu ao esforço individual que cada um pode fazer, e que somando tudo irá melhorar planeta. E muitas vezes os professores tem um descaso com o tema, passam na aula porque está no currículo, mas eles mesmos não dão importância.

Julio

julho 18 2014 Responder

Você cometeu diversas vezes a falácia do declive escorregadio em suas críticas ao capitalismo (que aliás, são muito importantes, porém devem ser feitas com argumentação não falaciosa).

    Robson Fernando de Souza

    julho 18 2014 Responder

    Seria declive escorregadio se eu tivesse mencionado uma cadeia de consequências indesejáveis e improváveis, mas não foi o caso.

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