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ago14

10 boatos e notícias falsas divulgados pela página “Quer Café?”

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Desde semana passada o Consciencia.blog.br tem divulgado como grande parte do conteúdo da página facebookiana Quer Café? é baseado em “humor” preconceituoso, estereótipos depreciativos e “politização” coxinha (rasa, conservadora e sem objetivos). Há, além desses aspectos, uma outra característica nada agradável naquela página: a propagação de boatos e outras informações falsas. Numa pesquisa no histórico de imagens daquela fanpage de maio de 2013 até o começo de agosto de 2014, encontrei dez postagens com hoaxes, alguns deles já desmentidos e refutados na internet.

Há postagens informações verídicas, ou pelo menos cujas refutações ainda não foram publicadas, no conteúdo não humorístico do Quer Café?. Mas estão misturadas com os posts de boatos. E isso torna aquela página nada confiável em se tratando de divulgação de conteúdo “sério”, afinal é difícil saber se cada post compartilhado dali é verdadeiro ou é baseado em informações falsas.

Em sua demanda por páginas de variedades com qualidade e sem “humor” baseado em preconceito e “conteúdo político” coxinha, o Consciencia.blog.br traz as refutações a esses 10 boatos, usando em alguns deles conteúdo de sites anti-hoax como o E-farsas.com, o Quatro Cantos e o Boatos.org. Tais desmentidos deixam como mensagem a velha recomendação de procurar a procedência daquelas informações “fantásticas” que são propagadas na internet.

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1. Mulheres falam o dobro de palavras dos homens

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Dados de “curiosidades” envolvendo questões de comportamento humano são conhecidos como (pseudo)psicologia pop, e costumam ser de veracidade duvidosa ou mesmo falsos. É o caso da imagem acima.

Essa crença de que mulheres falam o dobro de palavras dos homens já é refutada desde 2006, como o site Language Log mostra. Segundo esse site, esses números de médias de palavras faladas por mulheres e por homens costumam variar muito, com o número de palavras faladas por mulheres estando entre 7 mil e 50 mil, e o de palavras faladas por homens entre 2 mil e 25 mil.

Language Log mostra (tradução minha):

Clay Beckner me lembrou da revisão feita por Deborah Jamese Janice Drackich, “Compreendendo diferenças de gênero no volume de fala: uma revisão crítica de pesquisa” (“Understanding Gender Differences in Amount of Talk: A Critical Review of Research”) [in Deborah Tannen, ed., Gender and Conversational Interaction, Oxford U Press, 281-312 (1993)], e me enviou o resumo:

“É mostrado que a largamente difundida crença de que mulheres falam mais do que homens não é apoiada pela literatura científica. Dos estudos revisados que examinavam interações entre gêneros diferentes, a maioria concluiu ou que homens falam mais do que mulheres, ou que não há diferenças entre homens e mulheres na quantidade de palavras faladas. Abordagens para entender essas descobertas são exploradas, com uma teoria – a teoria das características de status – assinalada como a mais útil em entender as diferenças de gêneros no volume de fala. O efeito da atividade de pesquisa no volume de fala é explorado, com estudos divididos entre os que usaram atividades de tarefas formais, tarefas informais, não-tarefas informais e não-tarefas formais. A maioria dos estudos registrou que homens falavam mais do que mulheres, em todas ou algumas circunstâncias, ou que não havia diferença entre os gêneros na quantidade de fala. Em cada um desses contextos, as descobertas são exploradas sob a luz da teoria das características de status. Conclui-se que, ao invés de se observar a esmagadora tendência de homens de falar mais do que mulheres como evidência de dominação e exploração do poder sobre mulheres, os diferentes objetivos das interações, para os quais homens e mulheres são socializados, deveriam ser considerados no contexto da estrutura social.”

Um outro estudo divulgado na mesma página [Rayson, P., Leech, G., and Hodges, M., “Social differentiation in the use of English vocabulary: some analyses of the conversational component of the British National Corpus”. International Journal of Corpus Linguistics. 2(1) pp 133-152 (1997).] mostra que, de uma amostra de 561 mulheres e 536 homens, elas falavam em média 8.805 palavras por dia, enquanto homens falavam uma média de 6.073. É algo muito distante da crença de que mulheres falam “o dobro” do que os homens falam.

Portanto, esses números que comprovariam que mulheres falam duas vezes mais do que homens não são comprovados por nenhum estudo sério.

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2. O peixe panga contaminado

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Texto do boato:

PEIXE PANGA – ALERTA

TEM EM VÁRIOS SUPERMERCADOS DO BRASIL, DOS PEQUENOS AOS GRANDES E NOS RESTAURANTES QUE VOCÊ COME TODOS OS DIAS. ELE TEM UMA APARÊNCIA MUITO BONITA CONGELADO NO PACOTE.

Caros amigos,

Em algumas oportunidades tive o desprazer de observar o malfadado peixe branco, sempre servido em self-services e/ou “à la carte.”
Em um self-service, tive a curiosidade de ver melhor o peixe no meu prato.
Ao abrir a posta do peixe, notei que a massa estava impregnada de filamentos. Encostei o prato, retirei para o guardanapo parte do peixe e levei para análise. Os filamentos, na verdade, eram vermes de até dois cm.

PANGA

Procurei me informar, lá mesmo no caixa, sobre a origem do peixe e fui informado que se tratava de peixe asiático.
Após análise da porção amostrada, tirei minhas conclusões que são coincidentes com as informações prestadas:
– peixe asiático de água doce, proveniente de rios extremamente poluídos de excrementos, dejetos e toda sorte de poluição biológica, física e química devido, entre fatores diversos, à maciça ocupação de barcos que servem de vias e moradias que constituem aglomerados populacionais de pessoas carentes de serviços sanitários e salutares.

Esse ambiente condiciona, por si só, o desenvolvimento e procriação de víveres adaptados a esse habitat degenerativo.
O nível de poluição dessas águas é de tamanha magnitude e as próprias pessoas que, por lá vivem, têm nojo e repugnância dos víveres dessa água.

Antes de tudo, deixe-se claro aqui que o Consciencia.blog.br defende o veganismo e a abolição do uso de animais por seres humanos, e seu histórico de postagens anteriores ao lançamento do blog Veganagente é testemunha disso. Portanto, recomenda que nem o peixe panga, nem qualquer outro animal, nem nada vindo de animais, seja consumido, e daí não é endossado aqui que o panga seria “seguro para consumo”.

Porém, deixo claro também que os motivos expostos no boato acima, para que o panga não seja consumido, são os mais errados possíveis. São baseados em informações falsas, já refutadas pelo E-farsas.com. O E-farsas já mostra, ao começar a responder ao hoax:

Analisando o e-mail – que sofreu várias alterações com o passar do tempo – podemos verificar que ele possui vários indícios que caracterizam uma boa farsa da web:

– Cita nomes de entidades para dar mais crédito à notícia;
– É impreciso e contraditório em vários pontos;
– Apela para o lado emocional do leitor;
– Usa em certos trechos letras maiúsculas para chamar a atenção do leitor;
– Não cita as fontes de onde a tal noticia foi retirada;
– Não é datado;
– Trata de um assunto que interessa a muitos leitores: a saúde;
– Pede para ser repassado para o maior numero de pessoas possível.

Em outro momento, o E-farsas alerta:

O e-mail ainda afirma no próximo parágrafo que não há nada de natural nos Pangas! Sinceramente, não dá para entender o que querem dizer com isso. Não é natural um peixe que come restos de peixes mortos?

O autor do texto também compara o Panga às vacas loucas que, segundo ele, seriam vacas que se alimentavam de vacas. Segundo o Como as Coisas Funcionam, acredita-se que nos anos 1990 a doença que atacou as vacas teria sido causada pelo consumo de ração contaminada. Como boa parte da ração britânica era composta por ossos de carneiros (e a doença surgiu primeiro nesses bichos), deduziu-se que a doença teria se propagado dessa forma. Em carneiros. Não em vacas!

A seguir, o texto alerta:

“Basicamente, são peixes com hormônios injetáveis (produzidos por uma empresa farmacêutica na China) para acelerar o processo de crescimento e reprodução. Isso não pode ser bom.”

Apesar do e-mail não dizer o nome da empresa farmacêutica chinesa, e importante avisar que o tratamento de peixes com o uso de hormônios não é exclusividade do Panga. Outros peixes também recebem essa “ajudinha” de seus criadores com hormônios naturais e/ou sintéticos. Será que esses hormônios fazem mal apenas ao Panga? A solução seria banir todos os peixes das refeições?

Outras informações que refutam o que é passado pelo boato são respondidas no E-farsas, e o Consciencia.blog.br recomenda que se visite a página em questão.

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3. Meia verdade: Xuxa e Ronaldo gastaram ou ganharam milhões de reais para respectivamente pintar o cabelo e emagrecer

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A imagem acima é confusa. Não deixa claro se Ronaldo e Xuxa ganharam ou gastaram esses valores para, respectivamente, emagrecer e tingir o cabelo. As duas interpretações ficam no ar. Mas uma pesquisa rápida mostra que os dois ganharam esse dinheiro para esses objetivos.

Ronaldo cobrou 6 milhões de reais da Globo pela participação no quadro Medida Certa, que passava no Fantástico em 2012. Embora a razão da cobrança não tenha sido esclarecida, em momento nenhum é afirmado que tanto dinheiro seria para os gastos com o emagrecimento. Já Xuxa ganhou 2 milhões, e não 3 como a imagem diz, como parte de um contrato milionário entre ela e a Wella (fabricante de produtos para cabelos), que a fez pintar temporariamente o cabelo de preto, destoando de seu tradicional loiro. Ela prometeu, na ocasião, destinar os 2 milhões de reais para a Fundação Xuxa Meneghel, instituição mantida por ela para atender crianças carentes.

Portanto os dois famosos não gastaram a dinheirama mencionada, e sim ganharam. E esse ganho não foi “por nada”, mas sim levando em consideração seus longos anos de trabalho como, no caso de Ronaldo, um dos melhores jogadores da história do futebol mundial e, no de Xuxa, a apresentadora conhecidíssima desde a década de 80 por alegar crianças do Brasil e de outros países. Ou seja, eles também precisaram ralar por muitos anos para poderem ganhar milhões de reais para fazer essas coisas relativamente simples – o que, no entanto, não significa que mereçam ganhar mais do que quem passa por ensino fundamental, médio, superior e pós-graduação para ganhar poucos milhares de reais por mês.

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4. Crítica absurda contra o Estatuto da Criança e do Adolescente

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A imagem nada mais fala do que inverdades e absurdos sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

Em primeiro lugar, o menino Bernardo não foi “empurrado para a morte” pelo ECA. Ele tinha direitos graças a ela, e a lei visa, pelo menos teoricamente, diminuir as chances de sujeitos de direito de ter seus direitos violados. Essa diminuição infelizmente não é a zero, algo perfeito, visto que continua existindo chances de sujeitos de direitos terem esses direitos violados e acabarem até mesmo sendo assassinados. Gritar que o ECA “empurrou Bernardo para a morte” é tão ilógico quanto dizer que a Constituição Federal, o Código Penal e a Declaração Universal de Direitos Humanos empurram diariamente centenas de brasileiros para a morte por homicídio, já que esses códigos não conseguiram proteger-lhes integralmente o direito à vida.

Já o adolescente à direita da imagem é descrito como tendo sido “permitido” pelo ECA a matar outras pessoas, o que é outro absurdo. O ECA pune crimes contra a vida, embora de uma maneira considerada mais branda do que o Código Penal pune homicidas adultos. Isso porque o estatuto não é punitivista, mas sim visa a ressocialização do adolescente infrator, re-educando-o com os princípios ético-morais que pregam o respeito à vida humana e à integridade física e psicológica do ser humano. E isso não é visado com longos períodos de prisão para os adolescentes.

Porém, o sistema brasileiro de re-educação de adolescentes delinquentes é falido e ineficaz, funciona na prática como cadeias para detenções de curta duração e não tem uma metodologia decente de ressocialização de jovens. E a própria sociedade é acostumada com uma cultura de violência, de ódio, de desvalorização do respeito à vida e de supervalorização da vingança e do egoísmo e favorecedora de comportamentos de acúmulo de bens e dinheiro a todo custo. Por isso, a recuperação de adolescentes infratores funciona muito mal no Brasil – e muitas vezes sequer funciona -, e daí temos uma quantidade grande de adolescentes voltando ao mundo do crime, às vezes retornando ainda mais perigosos do que quando foram presos (ou “apreendidos”, segundo o jargão penal) pela primeira vez.

Mas daí para dizer que o ECA “permite” que adolescentes saiam cometendo crimes, é uma distância enorme. Essa crença baseia-se na ingênua premissa de que basta um código penal mão de ferro e uma polícia idem para que os crimes contra a vida e a propriedade já sejam completamente controlados no país. E falta com a verdade dos fatos tanto quanto acreditar que a Constituição Federal e os códigos Civil e Penal “permitem” que muitos crimes sejam cometidos.

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5. Charge com mãe presa por dar palmada no filho: desinformação sobre a Lei da Palmada

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É falsa a crença de que mães e pais poderão ser presos por dar palmadas moderadas, para fins de disciplinamento e castigo, nos seus filhos. A Lei da Palmada (Lei 13.010/2014) prevê, ao alterar o Estatudo da Criança e do Adolescente, as seguintes medidas para casos de violência física que resultem em sofrimento físico ou lesão corporal à criança ou ao adolescente:

I – encaminhamento a programa oficial ou comunitário de proteção à família;
II – encaminhamento a tratamento psicológico ou psiquiátrico;
III – encaminhamento a cursos ou programas de orientação;
IV – obrigação de encaminhar a criança a tratamento especializado;
V – advertência.

Ou seja, não prevê prisão de pais pegos dando palmadas moderadas nos filhos.

Como complemento, uma matéria extraída do Jornal do Brasil e divulgada pelo site Criança e Adolescente no Parlamento, mantido pelo Instituto de Estudos Socioeconômicos, afirma:

E um dos grandes adversários da iniciativa é justamente o seu apelido, garante a deputada federal Teresa Surita (PMDB-RR). Com alto índice de rejeição entre a população, o projeto foi interpretado pelos críticos como a proibição absoluta das palmadas e a prisão sumária dos pais agressores. Mas Surita explica que não é bem assim.

“Em primeiro lugar, o foco do projeto é conscientizar a população de que há outras maneiras de educar uma criança sem apelar para os castigos físicos. Além disso, o apelido “Lei da Palmada” minimiza muito o nosso objetivo e cria vários mitos, como o que o filho vai mandar o pai para a cadeia”, aponta a parlamentar. “Não estamos falando daquela palmadinha leve, de baixo para cima, que alguns pais ainda usam. Estamos falando de clavículas deslocadas por um puxão, de um olho roxo, de hematomas sérios”.

“O foco do projeto é conscientizar a população de que há outras maneiras de educar uma criança sem apelar para os castigos físicos”, diz Surita.

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6. A desvalorização do real, confundida com queda do poder aquisitivo

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A imagem acima, além de exagerar absurdamente a desvalorização do real com a inflação ao longo de 14 anos, induz ao erro também por deixar a entender que, com a queda do valor da moeda, caiu também o poder aquisitivo. Fica subentendido, na figura, que, mesmo depois de tanto tempo, ainda tem gente que vai ao supermercado com 100 reais no bolso na expectativa de obter um volume não muito menor do que era comprado em 1998.

Fica assim a impressão de que, por causa da inflação e da desvalorização do real frente ao dólar, o poder aquisitivo dos brasileiros caiu muito desde o final do primeiro mandato presidencial de Fernando Henrique Cardoso. E isso é uma inverdade, refutada pelo E-farsas num post em que são desmentidos diversos hoaxes difundidos pela TV Revolta (página que teve em maio de 2014 a visibilidade que a Quer Café? está tendo hoje). O E-farsas mostra que, mesmo que o real tenha se desvalorizado para 1/4 do valor que tinha em 1994, o salário mínimo e o poder de compra não tiveram essa desvalorização. Houve um crescimento, não um declínio, das compras nos supermercados – considerando-se que, se as pessoas levavam 100 reais para fazer compras no supermercado, hoje levam em torno de 250 reais e, com tal dinheiro, compram o que compravam em 1998 e mais um pouco.

Imagem extraída do E-farsas

Imagem extraída do E-farsas

A quem havia tido a impressão de que o E-farsas tinha argumentado que o real em si não havia sido desvalorizado, o site responde:

O Real atualmente vale apenas 1/4 do que valia há 20 anos! Isso é verdade, mas essa queda se deve à inflação de 20 anos! De acordo com essa matéria do UOL, se compararmos com a época de seu lançamento, o poder de compra de uma nota de 100 reais hoje é de apenas R$22. O que o autor da TV Revolta fez foi pegar esses dados de distorcê-los, dando a entender que o poder de compra diminuiu somente nesses últimos anos.

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7. O boato do número que clona celulares ao ser atendido

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Esse hoax circula pelo menos desde 2005 e foi refutado pelo Quatro Cantos. O número em questão era utilizado pela Vivo para contato com clientes, conforme a própria empresa afirmava em resposta ao autor do site:

Apreciamos a sua mensagem assim como sua solicitação, salientamos que o número de linha 11 9965 0000 pertence a um grupo ativo da Vivo que visa formalizar um contato direto com o cliente seja ele pertencente a nossa base ou cliente de outra operadora.

Salientamos que este grupo procura através deste contato oferecer nossos serviços bem como divulgar nossas promoções.

Caso tenha interesse em novo contato desta área, pedimos gentilmente que nos confirme através deste mesmo ponto de contato.

Atenciosamente,

Central de Relacionamento com Clientes

www.vivo.com.br

Apesar de a Vivo negar que o número em questão fosse usado para clonar celulares, o boato continuou circulando, e a empresa teve que desativá-lo, segundo o Quatro Cantos:

Caro Cliente, boa noite!

Para esclarecimento, o número (11)99650000 era usado pela Vivo para contatar seus Clientes para o retorno de processos e Matriz de ofertas.

No entanto, perante a propagação de mensagens eletrônicas de fraudadores, cuja informação de que o número (11) 99650000 estaria sendo utilizado por clonadores e seqüestradores e, portanto, a ligação não deveria ser atendida, a Operadora optou em alterar o referido número a fim de desfazer esse mal entendido e garantir a segurança de seus Clientes.

Dessa forma, o número não é mais utilizado desde 21/11/2005.

Atenciosamente,

Central de Relacionamento com Clientes
www.vivo.com.br

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8. Bolsa Família, seguro desemprego e o extinto Bolsa Escola como “mamatas”

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A figura acima ressoa a crença reacionária de que políticas governamentais de assistência financeira a pessoas necessitadas transformariam trabalhadores em “vagabundos”, que supostamente não precisariam mais trabalhar ao contarem com bolsas de renda mínima. Nada mais distante da verdade.

O Bolsa Família (BF), tradicional alvo de críticas dos conservadores meritocratas, beneficia apenas quem está em situação de pobreza ou miséria, com renda familiar per capita de até 154 reais – ou seja, uma família de dez pessoas, incluindo crianças e adolescentes, precisa estar ganhando até 1540 reais por mês para ter direito ao benefício. Situações de famílias que recebem mais do que isso e mesmo assim continuam recebendo BF não são admitidas pelo governo e são tratadas como erradas.

Além disso, o Ministério do Desenvolvimento Social e a Caixa Econômica Federal deixam claro que o programa tem como um de seus objetivos facilitar a ascensão socioeconômica das famílias beneficiárias, de modo que não tardem para se tornarem independentes da bolsa. O ministério afirma:

O Bolsa Família possui três eixos principais: a transferência de renda promove o alívio imediato da pobreza; as condicionalidades reforçam o acesso a direitos sociais básicos nas áreas de educação, saúde e assistência social; e as ações e programas complementares objetivam o desenvolvimento das famílias, de modo que os beneficiários consigam superar a situação de vulnerabilidade.

A Caixa, por sua vez, frisa:

O programa Bolsa Família tem por objetivos combater a fome e promover a segurança alimentar e nutricional; combater a pobreza e outras formas de privação das famílias; promover o acesso à rede de serviços públicos, em especial, saúde, educação, segurança alimentar e assistência social; e criar possibilidades de emancipação sustentada dos grupos familiares e desenvolvimento local dos territórios.

E o valor máximo possível do BF, segundo a Caixa, é de R$336,00 por mês, independentemente do tamanho da família. É improvável que uma mãe de família, com numerosos filhos, acredite que R$336,00 seja valor suficiente para ter uma vida de “bon vivant“, sustentar tantas crianças e/ou adolescentes e deixar de precisar procurar trabalho.

Já o Bolsa Escola foi extinto em 2003, incorporado ao Bolsa Família junto com outros benefícios, como o Auxílio Gás, o Bolsa Alimentação e o Cartão Alimentação. E o Seguro Desemprego é um valor temporário. Segundo a Caixa:

O Seguro-Desemprego, desde que atendidos os requisitos legais, pode ser requerido por todo trabalhador dispensado sem justa causa; por aqueles cujo contrato de trabalho foi suspenso em virtude de participação em curso ou programa de qualificação oferecido pelo empregador; por pescadores profissionais durante o período em que a pesca é proibida devido à procriação das espécies e por trabalhadores resgatados da condição análoga à de escravidão.

Esse benefício permite uma assistência financeira temporária. O valor varia de acordo com a faixa salarial, sendo pago em até cinco parcelas, conforme a situação do beneficiário.

Fica clara a abusividade de quem critica o Bolsa Família, o Seguro Desemprego e outros programas de transferência de renda e assistência social com o pretexto de que ele favoreceria o ócio de pessoas pobres que poderiam estar trabalhando.

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9. O falso conto do touro que teve piedade do seu algoz toureiro

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Texto do boato:

Durante uma tourada, o toureiro sentiu-se mal. Teve tonturas e precisou de se sentar. Antes que alguém interferisse, o touro – que tinha sido agredido pelo próprio toureiro ao longo desse “espectáculo” (que tanto entretém gente de fraca cultura e com falta de humanidade) – apiedou-se do homem, parou diante dele e, para surpresa geral, ficou simplesmente a olhar para ele.

O touro, como que sentindo o sofrimento do toureiro, foi solidário e ficou ao lado dele, sem recorrer a qualquer tipo de violência. Observem que o touro já tinha recebido diversas farpas no torso.

Resta a questão: afinal de contas, quem é o animal [sic]?

SE VOCÊ TAMBÉM É CONTRA ISSO, CURTA E COMPARTILHE PARA ESSA MALDADE ACABE…

Essa lenda foi refutada pelo E-farsas. Segundo o site:

De acordo com o blog de língua inglesa A Ultima Arena, o escritor especializado em touradas Alexander Fiske-Harrison explica que a foto não tem nada a ver com a suposta piedade do touro.

Na verdade, o toureiro se senta nesse murinho (que envolve toda a arena) depois de golpear o touro com as suas espadas (Não sei o nome correto disso, quem souber me avise nos comentários). Isso é um ato de desafio onde o toureiro experiente prova que não tem medo do animal (nesse caso, estamos falando do touro).

O site anti-hoax conclui:

A história é falsa! A posição em que o toureiro estava na foto é uma encenação, típica de uma tourada, onde o touro é desafiado. É claro que o toureiro não é bobo e só fica assim, dando sopa, depois que enfia duas espadas no touro!

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10. A falsa origem da moda das calças caídas que mostram a roupa de baixo

boato-calcacaidaEsse falso conto foi refutado pelo Boatos.org. O site esclarece:

Infelizmente ou felizmente, a história é falsa. Na realidade, o boato teve origem nos Estados Unidos (local onde nasceu o sagging) e foi desmentindo por alguns sites. Um deles é o Snopes (que também trata de boatos na internet).

De acordo com o Snopes, o boato foi montado graças ao fato de existir muitos casos homossexuais na prisão e a origem da calça baixa ter sido nesse local. O site aponta que o uso da calça baixa nasceu porque os detentos não podem usar cintos (uma potencial arma ou ferramenta para suicídio) na cadeia e costumam perder peso após ficarem presos. Logo, quanto mais baixa a calça, maior era o tempo de prisão.

Nos anos 1990, cantores de hip-hop adotaram o estilo. E, pelo o que se pode ver, eles não ficaram nada felizes com a lenda da origem da calça baixa. Esse post intitulado “o mito da calça baixa precisa parar” conta a origem do uso.

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Fica a lição: pense não duas, mas vinte vezes antes de considerar o Quer Café? uma boa página de “humor”, “política” e “informação”. Não bastasse usar “humor” depreciativo e preconceituoso e levantar bandeiras reacionárias ou demasiadamente vagas e rasas nos poucos momentos em que fala de política, também tem promovido desserviço ao propagar boatos. Convido você a boicotar a página em questão, pelo menos enquanto ali os boatos não forem apagados, o reacionarismo não baixar a cauda e o “humor” preconceituoso e estereotípico não parar.

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1 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Ricardo Mendes Jr

agosto 6 2014 Responder

Belo trabalho de investigação e redação. Eu não faria melhor ;-) brincadeirinha!!

Sua opinião é bem vinda, desde que respeitosa. Fique à vontade para comentar abaixo