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ago14

A hipocrisia de quem vive defendendo mais lei mas são os primeiros a consentir, apoiar ou promover sua violação em certos casos

bandido

É recorrente uma situação estrelada por muita gente que demanda soluções conservadoraspara problemas como violência urbana e corrupção política. Quando sofrem ou tomam conhecimento de um crime como um assalto à mão armada ou um flagra de corrupção vindo de um político do PT, vociferam pelo enrijecimento radical da lei penal vigente. Pedem por mais força policial, penas prisionais mais compridas, pena de morte, prerrogativa para policiais de matar criminosos pegos em flagrante. Mas na primeira oportunidade que aparece de mandarem a própria lei às favas para fins como vingança e descarrego de ódio, o fazem, seja promovendo, demandando, apoiando ou consentindo a violação legal.

Pode-se ver com uma notável frequência pessoas desse tipo exigindo o endurecimento do Código Penal – com direito à constitucionalização da pena de morte contra civis – e das leis contra corrupção, a redução da maioridade penal e o aumento dos poderes legais das polícias. Clamam por prisão e reclusão por longos anos contra assaltantes, estupradores, corruptos, homicidas, torturadores de animais, pedófilos, narcotraficantes etc. E também pedem programas de “tolerância zero”, de modo a inibir a ocorrência de crimes pelo medo e pela intimidação de potenciais criminosos civis.

Mas há um curioso outro lado para essas constantes reivindicações legalistas. Dependendo da autoria, diversos crimes são relativizados, consentidos ou mesmo apoiados ou praticados por muitos que vivem pedindo leis e policiamento duros. Os três casos mais notórios são os delitos de corrupção cometidos por políticos de determinados perfis, os linchamentos contra suspeitos e os crimes (de diversos tipos) praticados por policiais em serviço contra criminosos civis ou mesmo inocentes tidos como “suspeitos”.

A corrupção vinda, por exemplo, de alguns parlamentares de partidos reconhecidos como de direita ou centro-direita, como PSDB e DEM, ruralistas assumidos e/ou muitos autodeclarados clérigos evangélicos costuma receber panos quentes de defensores de leis mais duras. Muitas vezes confundidos pela omissão e manipulação prestadas pela grande imprensa, sequer estranham que muito seja denunciado acerca de partidários do PT ao mesmo tempo em que políticos de outros partidos sejam protegidos. E quanto são alertados de ações comprovadas ou suspeitas de corrupção vinda de tucanos, teocratas, ruralistas, direitistas confessos etc., ou se silenciam, ou tentam relativizar.

Já os linchamentos são cometidos muitas vezes por quem não quer esperar que a polícia e a Justiça sigam os procedimentos previstos em lei para investigar ou fazer o flagrante, prender, indiciar, julgar e condenar. Os linchadores tentam construir um atalho entre o cometimento do crime e a condenação. E declaram, à revelia da legislação, que a pena a ser dada é a morte por espancamento.

Não sabem – ou mesmo sabem mas ignoram – que ao lincharem um suspeito, estão cometendo crimes como tortura e homicídio doloso, algumas vezes multiplamente qualificado. Nem que, quando aplaudem e defendem linchamentos, estão promovendo apologia e/ou incitação ao crime. E não é difícil que o suspeito visado como alvo do linchamento seja na verdade inocente, podendo ter sido vítima de boato, bullying e/ou campanha de calúnia. Apesar disso, a maioria dos defensores de medidas de caráter conservador contra o crime aplaudem cada linchamento, pelo menos até que a imprensa local ou nacional revele que a vítima era inocente.

Defendem que “bandido bom é bandido morto”, esquecendo que matar bandidos, exceto em casos excepcionais previstos em lei, como a legítima defesa – que não inclui linchamentos –, é crime. Não percebem que quem os mata sem a devida justificação e legitimação legais está sendo bandido também, por cometer um crime. Nem que quem defende publicamente tais violações também pode ser considerado bandido, por também estar sendo criminoso. Mas isso é ignorado ou relativizado por muitos que se dizem defensores do endurecimento da lei e da polícia.

E o caso dos crimes cometidos por policiais – civis, militares, federais, guardas municipais etc. – não fica para trás. É cada vez mais denunciado que não existem apenas bandidos civis, mas também nada incomuns criminosos de farda. E eles se manifestam quando, por exemplo, promovem julgamento sumário e pena de morte extralegais, cometem racismo e injúrias raciais, torturam suspeitos presos, usam de abuso de autoridade em diversas situações, submetem detentos a constrangimento ilegal, promovem massacres em ações em comunidades pobres ou penitenciárias etc.

E nenhum desses crimes recebe o repúdio, a condenação, o clamor por justiça legal, de grande parte dos “superlegalistas”. Muitas vezes, pelo contrário, os abusos criminosos cometidos por policiais são aplaudidos e defendidos, de acordo com o mencionado ditado “Bandido bom é bandido morto”. Colocam a sede irracional de vingança acima da percepção racional das leis e da autoridade dos órgãos de justiça.

Esses três casos, que não são os únicos existentes, mostram que o legalismo de muitos que sacodem bandeiras conservadoras quando pedem o combate ao crime é parcial, seletivo, contraditório. Nota-se inclusive, muitas vezes, que eles próprios violam a lei cuja obediência tanto dizem pregar. Ou seja, defendem “mais lei e mais polícia” só para aqueles casos que mais lhe convêm.

É uma sede limitada, hipócrita, dois-pesos-duas-medidas, por força policial e legal, que se manifesta só quando são a vida, a integridade físico-psicológica, a honra, a propriedade privada e/ou os interesses sociopolíticos deles que estão em jogo. Repetem que “bandido tem que morrer”, mas não percebem, ou tentam encobrir, as vezes em que eles próprios estão defendendo, apoiando ou mesmo sendo bandidos.

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