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A morte de Eduardo Campos e o perigo dos que colocam a política acima do respeito à vida
A tragédia que vitimou fatalmente Eduardo Campos ainda choca o Brasil. Mas tem gente por aí tentando tirar uma lasquinha da tragédia para obter ganhos políticos ou expor sua nefastidão ideológica que coloca a diferença política acima da vida

A tragédia que vitimou fatalmente Eduardo Campos ainda choca o Brasil. Mas tem gente por aí tentando tirar uma lasquinha da fatalidade para obter ganhos políticos ou expor sua nefastidão ideológica que coloca a diferença política acima da vida

Atualizado em 15/08/14 às 07h39

Hoje faleceu Eduardo Campos, num acidente trágico. Ele era um ser senciente desejoso de continuar vivendo como eu, você, todos nós, e por isso tem minha condolência, independentemente de eu ter sido oposição a ele desde 2010. Mas muita gente por aí tem transformado tragédia mais discordância política, seja ela perante quem for, em carta branca para transformar a trágica morte dele em mote de piadinhas e de “lamentação” por não ter sido Dilma Rousseff ou Aécio Neves a vítima, ou em “oportunidade” para tentar sujar a imagem de Dilma. Essa gente, dos dois lados do espectro político, me inspira receio, já que demonstram de tempos em tempos que, ao contrário do que tanto dizem, não adotam o autêntico respeito à vida como valor ético-moral e, portanto, não relutariam muito em matar pessoas para obter ganhos políticos.

Vi pessoas à direita e à esquerda fazendo pouco caso da morte dele, ao colocarem as diferenças políticas muito acima do valor da vida, fazerem declarações jocosas pseudo-humorísticas envolvendo Dilma ou Aécio, elaborarem teorias conspiracionistas mal intencionadas “confirmando” uma suposta premeditação de Dilma para matar Eduardo Campos e escrevendo divagações ideológicas relativizando o valor da vida de Eduardo. Todas essas foram demonstrações de claro desrespeito à vida humana. E também considero-as atestados de periculosidade, amostras de quem usa a morte de alguém como oportunidade de ganhos políticos para gente do seu lado e, portanto, não hesitaria, caso “precisasse”, em matar um opositor ou subordinados ou apoiadores dele para alcançar determinado objetivo.

Do lado direito, vi reacionários antipetistas fanáticos lamentando que Dilma não tenha sido a vítima, ou já montando teorias de conspiração que já batem o martelo sobre ela ter sido “a mente por trás” da tragédia – o que, deixe-se claro, não deve ser confundido com suspeitas iniciais e instintivamente apressadas de possível relação do acidente com fatos anteriores, como a lei sancionada em maio que impõe sigilo a investigações de acidentes aéreos. Os conspiracionismos “conclusivos” deixam clara a má intenção de seus criadores, de tentar responsabilizar Dilma por algo tão grave e, assim, derrubar as intenções de voto dela por meios escusos.

Na mesma direita, só que no sentido governista, petistas fanáticos repetem, só trocando o nome de Dilma pelo de Aécio, as “piadas” “lamentando” que não tivesse sido o odiado adversário político a vítima do acidente. Afinal, o que está por trás desse rompante de estupidez difundida não é apenas ódio a Dilma e ao PT, mas sim o ódio político genericamente falando, o desprezo à vida por motivos político-ideológicos, a sanha de visar o poder pelo prazer de submeter e dominar.

E mesmo na esquerda tenho visto casos de pessoas indiferentes ou mesmo achando algo “positivo” a morte do ex-governador e ex-presidenciável. Uns dizendo que o trágico destino de quem morre nas mãos da polícia ou dos latifundiários merece atenção maior do que a de Eduardo. Outros colocando que ele era um burguês cheio de poder nas mãos, ou uma espécie de ditador de Pernambuco, e, portanto, não deveria ter sua morte (tão) lamentada. Outros tratando a luta política como uma literal guerra de matar ou morrer e, por tabela, colocando a morte de Eduardo como uma baixa do lado “inimigo”.

Fico preocupado que essas turmas dos dois lados tenham, pelo menos teoricamente, uma capacidade relevante de decidir os rumos da política brasileira, à direita ou à esquerda, seja como eleitores e/ou fãs de extremistas e golpistas, seja como militantes construtores de uma ordem política horizontalizada. Tendo esse potencial em mãos, tenho no fundo um medo de que as concorrentes ordens que ambas as frentes adversárias desejam passem necessariamente por eliminar opositores políticos pela via das armas.

Além disso, fico diante de uma outra realidade igualmente amedrontadora: a desvalorização da vida, seja ela humana ou não humana, nas ideologias de muitas pessoas, tratem-se de correntes radicais de direita ou de esquerda. Gente de direita que jura de pé junto que “defende a vida” ao ser contra o direito da mulher ao aborto, mas não só despreza a vida de pessoas de minorias políticas e nomes conhecidos da esquerda, como também comemora as mortes de muitas destas. Gente de esquerda que relativiza o direito à vida e à integridade física e deixa claro que, no seu regime dos sonhos, haverá derramamento de sangue de adversários políticos, seja no “paredón”, seja em guerras civis revolucionárias contra as classes dominantes.

Pessoas com tais convicções eu pessoalmente considero perigosas. Porque são capazes de matar para conseguir seus objetivos, e nessa postura não hesitariam em literalmente caçar discordantes e dissidentes tão logo obtivessem um mínimo de poder político. Em casos mais extremos, não pensariam muito antes de agredir, ameaçar e/ou matar alguém que tenha expressado discordância em algum assunto polêmico.

O que a política brasileira – seja ela a tradicional, baseada em representantes e eleições, ou a democracia horizontalizada que se tem buscado construir nas ruas e nos coletivos – definitivamente não precisa é de pessoas assim, que representam uma ameaça à vida de outras pessoas. Se queremos uma sociedade na qual o respeito, a paz e a igualdade social sejam princípios basilares, qual sentido faz defendê-la com desrespeito, táticas escusas de derrubada de adversários e relativização e desvalorização da vida?

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8 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Pierry

agosto 20 2014 Responder

Todo cidadao , digo cidadao mesmo que cumpre seus deveres e usufrue seus direitos de forma consciente, que não seja de alguma forma uma ameaca para a sociedade, deve ter respeitada sua memoria em caso de morte, ou seja , o que tem sido feito neste sentido como o mau uso do fato da morte desta pessoa, cidadão Eduardo Campos, independente de sua posicao politica, deve ter sua memoria respeitada, seja em face da familia , ou mesmo pela questão da ordem que deve ser mantida na sociedade que cada vez mais perde os seus valores, fazendo piada ou desmerecendo todo tipo de situacao ou pessoa que se destaca.

    Alex

    agosto 21 2014 Responder

    Muito bom, Pierry.

    Sem querer desmerecer o texto do Robson, você não o considerou como um simples “ser senciente”. Uma pessoa merece mais consideração que isso.

Alex

agosto 15 2014 Responder

SE uma pessoa não tiver sentimentos, não for amado por ninguém e não tiver crenças religiosas, para ele tanto faz ser lamentando depois de morto ou ser enterrado como indigentes. Em minha opinião, assim como um animal irracional, essa pessoa não precisa de luto, choro ou homenagens postumas

    Robson Fernando de Souza

    agosto 15 2014 Responder

    Vc cometeu falácia do espantalho. Não falo de pessoas/seres ~sem sentimentos~, mas sim de quem não consegue manifestar sentimentos com a mesma complexidade de um ser humano sem deficiência mental grave.

Alex

agosto 15 2014 Responder

Muito bom o texto, concordo com ele, mas tem uma frase que me deixou incomodado:

“Ele era um ser senciente desejoso de continuar vivendo como eu, você, todos nós,”

Isso que eu não aceito em vegans, o fato de ser um ser humano, um pai de família e ter sentimentos complexos não quer dizer nada pra vocês? É a mesma coisa a morte de uma pessoa e um cachorro? Desculpe, mas não consigo engolir isso. Para mim, uma pessoa sente saudade, possui espiritualidade e mantém laços familiares que não existem em nenhuma outra espécie do Reino Animal e por isso, a morte de um ser humano e muito mais sentida que a de outro animal, pois afeta muito mais profundamente não só o falecido mas quem fica.

    Robson Fernando de Souza

    agosto 15 2014 Responder

    Se ele tivesse limitações cerebrais que o impedissem de manifestar sentimentos de forma complexa e não fosse pai de família, a morte dele seria menos digna de luto e lamento?

      Alex

      agosto 15 2014 Responder

      Pessoas com problemas neurologicos tem limitações na capacidade cognitiva, não sentimentais. Então, mesmo que não demonstre ela pode amar alguém que vai sentir muito a sua morte.

      Mesmo se não for pai de família, uma pessoa geralmente tem família que vai sentir sua falta. Animais não tem afinidades com familiares.

      Uma pessoa que não tem ninguém até merece consideração mas dificilmente alguém vai lamentar sua morte.

        Robson Fernando de Souza

        agosto 15 2014 Responder

        Há casos de pessoas com limitações também emocionais. Elas mereceriam (falo merecer, e não necessariamente ter de fato) menos lamento pela morte?

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