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ago14

A “nova política” de Marina Silva é cancelar promessas antes de poder cumpri-las ou descumpri-las
A "nova política" de Marina realmente traz novidade. Mas não é aquilo que se queria ou esperava

A “nova política” de Marina realmente traz novidade. Mas não é aquilo que se queria ou esperava

Ontem a equipe de Marina Silva quebrou o breve encanto que a população não heterossexual e a população trans tiveram por ela. Depois de um chilique do sacerdote do ódio Silas Malafaia, ameaçando “queimar o filme” dela, a seção “LGBT” do programa de governo sofreu fortes supressões e transformou-se em uma lista de intenções vagas e promessas periféricas e/ou confusas. Isso não é ruim apenas para as minorias ali contempladas, mas também para a própria candidata. Ela mostra que não é nem um pouco confiável e que sua “nova política” nada mais é do que tornar promessas suscetíveis a serem quebradas ou anuladas perante pressões de gente poderosa.

“Coincidentemente” a cartilha de propostas foi adulterada depois da grita do odiento pastor, e foi dada pelo PSB e equipe de Marina uma “justificativa” para boi dormir. Argumentam que o tópico “LGBT” original “infelizmente não retrata com fidelidade os resultados do processo de discussão sobre o tema durante as etapas de formulação do plano de governo”. Alegam “falha processual na editoração”. Dão a desculpa de que “não contempla a mediação entre os diversos pensamentos que se dispuseram a contribuir para sua formulação e os posicionamentos de Eduardo Campos e Marina Silva a respeito da definição de políticas para a população LGBT”.

Mesmo essa tentativa de justificativa mostra que Marina e equipe dispõem-se a ouvir mais gente oposta aos direitos das minorias do que estas próprias. “Negociam” os direitos alheios com quem não quer que as categorias a serem beneficiadas tenham algum direito. Sua política de “agradar gregos e troianos” resultou que mantiveram a tradição da “velha política” de dar mais ouvidos a(os interesses de) opressores do que a oprimidos.

Essa supressão parcial do programa “LGBT” da cartilha de promessas mostra não só que não há nada de novidade positiva na política de Marina e correligionários. Mas também que ela levou a um nível acima a tradição das propostas tão genuínas quanto cédulas de três reais. Não se restringiu ao costume de ditar promessas a serem quebradas durante o mandato: ela foi mais longe e passou a prometer e voltar atrás nos compromissos, mesmo antes de ter a chance de descumpri-los.

Além disso, fica claro que a mesma desculpa de que algo “infelizmente não retrata com fidelidade os resultados do processo de discussão sobre o tema durante as etapas de formulação do plano de governo” pode ser usada novamente a qualquer momento em outras promessas “polêmicas”. Fica escancaradamente aberta a possibilidade de que vejamos o mesmo pretexto de novo sendo usado “coincidentemente” depois do protesto reacionário de latifundiários, militares, teocratas, grandes empresários etc., para “justificar” mais cortes e adulterações no programa de governo em áreas como meio ambiente, direitos trabalhistas, Direitos Humanos etc.

E da mesma maneira, isso é um indicativo de que Marina terá chances muito altas de anunciar medidas progressistas e retirá-las pouco depois durante o governo. Ou seja, fará a mesma coisa que sua adversária Dilma Rousseff fez em episódios como o Escola Sem Homofobia – aquele em que ela falou que “não fará propaganda (sic) de opções (sic) sexuais” – e a portaria que dava diretrizes à realização dos abortos autorizados pela lei vigente no SUS.

Ela e Dilma mostraram-se submissas demais aos interesses de gente poderosa que não quer mudanças. Deixaram claro que suas promessas estão suscetíveis a serem revogadas ou descumpridas a qualquer momento, tão logo conservadores com poder político forte as mandem recuar do “absurdo” de beneficiar categorias oprimidas. A única garantia que dão é que algumas pessoas terão mais voz que outras em se tratando de ditar as decisões políticas delas, e nisso promessas serão quebradas e minorias ficarão desamparadas como sempre.

Ou seja, o voto em Marina só traz de “novo” a atitude de cancelar promessas antes mesmo que haja a chance de descumpri-las. Na prática isso é o que poderia ser considerado a tal “nova política” dela. No mais, votar em Marina terá o mesmo poder de “mudar” o Brasil que tem o voto em Dilma ou Aécio Neves: nenhum. Além do mais, as chances de Luciana Genro ou Eduardo Jorge saírem do traço nas intenções de voto, irem ao segundo turno e triunfarem tendem à nulidade. E suas chances de promover grandes mudanças diante de um Congresso conservador são negativas. Portanto os brasileiros terão que esquecer a crença de que o voto muda algo, buscar amadurecimento, desgarrar-se da tutela de líderes (religiosos, ideólogos, políticos etc.), adquirir conhecimento sobre democracia extrarrepresentativa e voltar às ruas muitas outras vezes nos próximos anos.

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Fernanda

setembro 1 2014 Responder

E pensar que eu “fiz campanha” pra ela em 2010.

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