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Políticas viárias na cidade de São Paulo: também existem esquerda e direita na avenida

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Nesses dois anos de governo na cidade de São Paulo, a prefeitura de Fernando Haddad tem mostrado um bom serviço em se tratando de começar um processo de libertação da cidade do império dos carros. E tem acirrado, com isso, um novo conflito ideológico: carrocratas X defensores das bicicletas e do transporte coletivo. Isso mostra que o problema urbano da mobilidade também envolve a disputa entre esquerda e direita. E escancara que essa clássica dicotomia política não só permanece forte desde sempre, como também se aplica a mais aspectos conflituosos da vida social (e política) humana do que o senso comum acredita.

Os sites Via Trólebus e Vá de Bike têm mostrado as iniciativas e realizações de Haddad para diversificar os modais de transporte. A intenção dele é de transformar as cinzentas ruas da cidade em lugares menos poluídos e motorizados e mais humanizados e populares. Se bem que para isso o prefeito tem que contar com a sorte, para que as próximas gestões municipais deem continuidade a essa política e consigam desacinzentar as avenidas paulistanas – e, por tabela, também o ar.

Até o momento já são mais de 350km de corredores novos de ônibus e vários corredores de BRT em projeto ou construção, a caminhada rumo à meta de 400km de ciclovias vem continuando firme, e estacionamentos de rua têm se convertido em miniparques (os parklets). E grande parte da população municipal, que não quer ou não pode contar regularmente com o transporte individual motorizado, está adorando. Mas por outro lado também tem gente bufando de ódio.

Quem não tem gostado da expansão dos corredores de ônibus e de bicicletas são os folclóricos conservadores paulistanos. Muitos deles têm agido de acordo com uma ideologia chamada “carrocracia” ou “carrodependência”, que defende a dita liberdade individual de usar (seus) carros em qualquer lugar e a não interferência do Estado nessa liberdade.

A queixa de perda de faixas para o transporte coletivo ou não motorizado tem ressoado na mídia mainstream da cidade. E tem revelado que também existe esquerda e direita políticas nas avenidas.

A esquerda anticarrocrata tem aplaudido a política de Haddad, torce para que ela seja continuada pelos próximos prefeitos, reivindica que as ciclovias e corredores de ônibus continuem crescendo e clama também por VLTs e mais metrô e trens de superfície. Sonha que, dentro de não tanto tempo assim, as avenidas de São Paulo – e do restante do Brasil – se tornem mais arejadas e se libertem dos imensos engarrafamentos e, assim, a aura cinzenta que cobre a metrópole paulistana suma para sempre.

Já a direita representa os interesses carrocráticos, ou seja, a liberdade individual de usar o carro em vias desimpedidas, mesmo que isso acabe obstruindo, por exemplo, a liberdade de ciclistas de usarem suas bicicletas e os direitos universais à saúde íntegra, ao ir e vir (sem que haja engarrafamentos obstruindo) e a um meio ambiente sadio. Gostaria ela que tudo continuasse como estava até a década passada, com avenidas sendo alargadas e o transporte individual motorizado sendo priorizado.

Nesse embate, fica claro que Fernando Haddad tem governado à esquerda nas vias da metrópole, apesar de alguns deslizes, como a negligência com o Templo de Salomão, construído com fraude; a pose dele com uniforme camuflado junto da truculenta Guarda Civil Metropolitana e a mal explicada eliminação de diversas linhas de ônibus, e dos arregos conservadores do seu partido (PT) no âmbito nacional. E a direita carrocrata tem se irado com o prefeito.

O conflito ideológico na questão da mobilidade é parecido com o que acontece em torno das políticas sociais. De um lado, a esquerda defende que o Estado diminua os privilégios de quem tem mais dinheiro, bens e outras características privilegiais (como a cor da pele e a ausência de deficiências), seja através dos impostos, das cotas raciais e sociais, da diminuição do espaço dos carros ou das flexibilizações da cultura dita meritocrática. Do outro, a direita se revolta com tais políticas e exige o cancelamento de todas elas, de modo que prevaleça a “igualdade” de todos perante a lei – descrita por conservadores e livremercadistas como “neutra”, “igualitária” e “isonômica” no sentido de fechada à reparação equitativa de discriminações históricas e desigualdades sociais.

Ou seja, não só a economia e as leis são “arenas” de luta entre esquerda e direita, mas também as ruas – e tanto no sentido aflorado nos protestos de junho de 2013 como no de políticas de mobilidade. Isso deve ficar claro para quem repete as crenças de senso comum de que “não existe mais direita e esquerda” e “é tolice meter ideologia em conversas sobre trânsito”. O conflito ideológico é onipresente.

E nele a esquerda deve continuar fazendo suas reivindicações com força, a despeito da reação reacionária da direita. Será graças às políticas de mobilidade de esquerda que São Paulo terá logo-logo a primeira oportunidade de sua história de se libertar do cinza atmosférico, dos irritantes engarrafamentos e da falta de democracia no usufruto integral das ruas e do direito de ir e vir. E se tornará exemplo para o restante do Brasil e também para outros países.

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