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Por que é um problema elevar a estima de uma pessoa morta por ela ter sido mãe ou pai de família
Eduardo Campos é um exemplo de pessoa falecida cuja estima póstuma foi elevada por ter constituído família e tido filhos

Eduardo Campos é um exemplo de pessoa falecida cuja estima póstuma foi elevada por ter constituído família e tido filhos

É costumeiro lembrar as boas características de uma pessoa querida que morreu há pouco tempo. As boas ações, as realizações no trabalho, as qualidades, o amor que ela dedicava a seu próximo, tudo isso é re-enfatizado nos dias seguintes ao seu falecimento. Entre todas essas lembranças, costuma vir também a alegação de que era uma mãe ou pai de família e deixou N filhos – e isso ajuda a elevar a estima do indivíduo morto perante seu círculo social e, em casos de pessoas públicas, a sociedade. Apesar da inquestionavelmente boa intenção ao se realçar seu atributo de colíder de uma família, fazer isso é problemático e, de certa maneira, uma forma de reprodução de opressões.

Colocar uma pessoa falecida como mais estimável por ter sido mãe ou pai de família acaba deixando a entender que alguém que tinha filhos era mais importante e memorável do que alguém que morreu sem deixar descendentes. Ela acaba tendo mais respeito do que, por exemplo, um jovem que morreu cedo sem ter sequer conseguido namorar pela primeira vez.

Além disso, passa adiante a crença de que um indivíduo morto que era membro regular de uma família é mais digno da memória dos seus entes queridos que continuam vivendo do que um que morreu sem estar sendo parte regular de sua antiga família. Com isso, uma pessoa que havia sido expulsa de casa pelos pais por motivo de preconceito e não teve filhos acaba sendo tratada como se tivesse sido menos importante e inesquecível para seu círculo social, a comunidade local e a sociedade do que alguém que continua com seus pais ou tem cônjuge e/ou filhos.

Também pesa contra esse costume o fato de reforçar a coercitiva (o)pressão sociocultural para que as pessoas vivas se casem e tenham filhos, mesmo que não desejem. Reitera-se, ao se lembrar mais positivamente um pai ou mãe de família do que alguém que morreu civilmente solteiro e rompido de sua família original, que o casamento e a parição ou adoção de crianças são uma obrigação do indivíduo para com sua sociedade ou comunidade, ou algo próximo a isso.

Isso tolhe das pessoas a liberdade de se optar por casar ou não casar e de criar ou não filhos. Torna quem optou por não se casar nem constituir prole menos respeitável do que quem optou por ter cônjuge e/ou filhos. Portanto, é uma forma de opressão contra as liberdades individuais. Toma muitas vezes, inclusive, um caráter machista, heterossexista e/ou transfóbico, já que pessoas homossexuais e assexuais, pessoas trans e mulheres que recusam o casamento e a criação de prole são fortemente oprimidas e marginalizadas por isso.

Fica clara a necessidade de se questionar, problematizar e abandonar o costume de lembrar mais e melhor de alguém que constituía família do que de pessoas que não chegaram a se casar e/ou ter filhos. Não se pode mais admitir que o casamento e a reprodução sejam obrigações sob pena de diminuição do respeito em vida e póstumo. Essa discriminatória distinção promove desigualdade e opressão e por isso deve ser eliminada.

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Alexsandro

fevereiro 16 2015 Responder

A incoerência esquerdista é gritante. Na hora de defender camelôs ( indivíduos que privatizam o espaço público para vender produtos de origem duvidosa) a “argumentação” do tipo “pai de família” serve, não ? E antes que confundam, não estou defendendo o Sr. Dudu Campos. Assim, como qualquer político suspeito deveria ser investigado. Só me divirto com a falta de coerencia dos esquerdistas. Por sinal, já não se faz esquerdistas como antigamente!!!!

Renato

setembro 14 2014 Responder

“Perca”
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

Mari Cunha

agosto 28 2014 Responder

Não, não é isso Alex. É por causa da nossa obrigação de “espalhar crias” pela terra, só porque alguém era a favor da família tradicional e morreu, essa pessoa vale mais do que os outros.

Alex

agosto 28 2014 Responder

Acredito que você nunca perdeu um familiar próximo, por isso não entende que o luto por um pai, filho ou irmão querido é muito maior que o luto pela perca de um amigo e incomparável com a tristeza pela morte de um conhecido/colega.

Quando se enfatiza que um falecido tinha cônjuge/filhos ou pai, faz-se isso pelo respeito a dor desses familiares (que muitas vezes também são dependentes financeiramente dos que perderam), não é uma questão de quem é mais importante ou de quem é “mais estimável”. Todas as pessoas merecem respeito, e deve ser lamentada em casos de morte, isso não se nega. Mas uma pessoa solteira, sem filhos não vai ser tão lamentada pelos amigos quanto um pai amado é lamentado pelos filhos – isso é um fato.

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