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ago14

Programa “Casos de Família” do SBT promove transfobia objetificadora contra travestis

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Ontem a televisão brasileira foi palco de mais uma violação de Direitos Humanos em rede nacional. O programa “Casos de Família” do dia teve como tema “Como diferenciar uma mulher de um (sic) travesti”, promovendo a coisificação de diversas mulheres trans durante cerca de 35 minutos (tirando o tempo dos comerciais).

O programa começou com a apresentadora Christina Rocha dizendo: “Hoje vou pegar todos vocês. O tema, olha só que legal: você não sabe diferenciar (sic) uma mulher de um (sic) travesti.” O primeiro bloco mostra numerosos homens cis relatando como lidavam com moças travestis, o primeiro deles relatando que tem há 15 anos um relacionamento com uma.

A entrevista do primeiro homem deixa a parecer distantemente que o programa visava a derrubada do preconceito cissexista-transfóbico, já que o senhor e sua sogra afirmaram que reconhecem plenamente uma moça travesti, companheira dele, como mulher e dizem não ter preconceito contra ela em função de sua qualidade de mulher trans. Detalhe que a moça mencionada não é chamada em nenhum momento para ser entrevistada. O que se vê ao longo das entrevistas seguintes, contudo, é o desmonte da impressão inicial de combate ao preconceito: os outros homens relatam se “confundem” ou não mulheres travestis com mulheres cis.

O segundo bloco completa o combo da violação da dignidade humana. Promoveu dois desfiles de mulheres cis e trans, de modo que os homens convidados julgassem se elas eram “mulheres ou travestis”. O rapaz que “acertou” mais vezes o julgamento se elas eram cis ou trans foi parabenizado e considerado “vencedor” do programa.

Foi gritante a objetificação promovida contra as moças, cuja identidade de gênero foi submetida à avaliação dos homens cis, como se elas precisassem do julgamento legitimador por parte de pessoas cis, ainda mais homens, carregadores de machismo, para serem reconhecidas como são – como mulheres. Seu direito de serem senhoras de si mesmas e de sua identidade foi negado o tempo todo.

Vale frisar que, no programa inteiro, os protagonistas eram homens cis, e durante toda a duração dele, as mulheres trans eram postas como objetos, como coisas a serem julgadas e legitimadas ou reprovadas pela “autoridade” masculina cis. O programa não chegou nem perto de reconhecê-las como sujeitas de suas próprias vidas e identidades. Pelo contrário, podia ser facilmente comparado aos “shows de aberrações” do passado.

Diante desse “espetáculo” de discriminação e objetificação transfóbicas e misóginas, a ativista Daniela Andrade reagiu, escrevendo no Facebook:

A objetificação e exotificação das pessoas travestis e transexuais por parte da mídia brasileira não tem limites.

Se trocam: “quem é mulher e quem não é gente”, nem perceberão a diferença, dado que partem sempre do princípio que travesti p

Viva a transfobia brasileira, nesse caso, no canal daquele que dizem que dá oportunidades para pessoas trans* e que nós é que somos ingratas de não percebermos isso.

É nos jogar uma esmola para ganhar ibope que automaticamente temos de aplaudir chorando.

 O SBT, por ter promovido a violação dos Direitos Humanos nesse programa, fica passível de ser denunciado ao Ministério Público. E mostra como a televisão no Brasil tem exercido a função de reproduzir, legitimar e fortalecer opressões contra minorias políticas.

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2 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Natália

agosto 21 2014 Responder

Pergunta meio tola, mas séria: como faço para apresentar uma denúncia deste programa ao MP?

Ou, onde posso obter informações de como fazê-lo?

    Robson Fernando de Souza

    agosto 21 2014 Responder

    É possível denunciar pro Ministério Público de São Paulo, pelo e-mail dh@mpsp.mp.br

    Tb é possível denunciar pelo Ministério Público federal, em http://cidadao.mpf.mp.br (mas no momento tá fora do ar).

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