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A relação entre a reação contra ciclovias e as mortes causadas pela poluição: o reacionarismo que mata

contra-ciclovias

No último dia 9, o Estadão revelou que, durante os próximos 16 anos, mais de 250 mil pessoas morrerão de doenças relacionadas à poluição do ar no estado de São Paulo. Paralelamente a esse alerta, a prefeitura de Haddad vem implantando ciclovias em diversas ruas e avenidas da capital paulista, prometendo implantar 10km de vias para bicicletas por semana. Essa política vem tendo a oposição de muitos motoristas assíduos, que temem perder o espaço privilegiado que tinham antes das ciclovias. E nisso somos convidados a um debate, para qualquer cidade, sobre a questão de como as liberdades individuais de alguns prejudicam um número muito maior de outros. Também podemos debater se vale a pena defender privilégios que podem, em última análise, matar muitos dos seus próprios possuidores.

Essa reação carrocrata tem recorrido a meios como reuniões comunitárias, idas a delegacias e manifestações pela internet para que as novas ciclovias sejam removidas e seja “respeitado” o lugar dos carros. Alguns dos argumentos são a alegada falta de diálogo entre a prefeitura e os motoristas mais assíduos das vias que receberam ciclovias, o impedimento de estacionamentos na via e a suposta desassistência a idosos que são apanhados de carro na porta do prédio que habitam ou da loja onde trabalham.

É uma reação individualista, que não leva em conta que, para qualquer política pública que vise a coletividade, “liberdades” não fundamentais de algumas pessoas poderão ser diminuídas ou eliminadas. Não considera também que a manutenção de tais “liberdades” – que na verdade se tratam de privilégios aprisionadores – para alguns indivíduos traz prejuízos diretos para uma enorme coletividade, ou melhor, para um número muito maior de pessoas.

Por exemplo, se por um lado a ciclovia é “Inviabilizada” pelo fato de alguns idosos usarem o carro para se deslocarem na cidade, um número muito maior de outros idosos é diretamente prejudicado com a ausência de ciclovias. Isso porque são submetidos à obrigatoriedade de se deslocarem em ônibus ou trens lotados – que nem sempre têm lugar reservado disponível –, compõem demanda reprimida de potenciais ciclistas, têm sua saúde comprometida pela insuficiência de atividade física, são obrigados a andar a pé (da parada de ônibus à loja ou à residência) muito mais do que os idosos que alegadamente precisam que alguém os apanhe de carro, entre outros problemas.

Outro pretexto usado para serem contra as ciclovias é que não foram ouvidos antes. Mas quando falam isso, dão a entender que a via onde não querem que a ciclovia seja instalada é propriedade particular deles, ou de um grupo restrito de pessoas no qual eles se incluem. Não há em São Paulo a concessão de pedaços de vias urbanas (como vagas de estacionamento) como propriedade privada. E mesmo que houvesse, isso seria alvo de protestos pesados. As ruas e avenidas são propriedade pública, de todas as pessoas, independente de nacionalidade e origem regional ou municipal, e com isso não há espaço para se negociar com um pequeno grupo de pessoas o que fazer com uma via que é usada por milhares de cidadãos por dia.

É uma situação em que poucos perdem pouco para que muitos ganhem muito, senão poucos continuarão ganhando pouco, com sérios ônus, e muitos perdendo muito. Mas a convicção política individualista dos carrocratas não leva isso em conta, não inclui um senso de coletividade muito apurado. Além disso, já era tempo de se pôr em prática uma política que não atenda à perniciosa tradição de negociar com algumas poucas pessoas privilegiadas os interesses de milhões de outras desprovidas de qualquer privilégio – ou melhor, que têm sua qualidade de vida degradada em prol da manutenção dos privilégios desses pequenos grupos.

Essa postura teimosa de tentar preservar o status quo do império do carro não só é deletéria para os direitos de toda uma imensa coletividade, mas também é letal. Ser contra a expansão de ciclovias implica necessariamente consentir que seja mantida como está a poluição que, nos próximos 16 anos, irá matar mais de 250 mil pessoas no estado de São Paulo. Defender que as vias sejam deixadas sem ciclovia para que se apanhe idosos na porta de casa pode ter como consequência que grande parte desses mesmos idosos morram de doenças respiratórias dentro de não muito tempo.

Aliás, muitos dos carrocratas estão cavando sua própria sepultura ao serem contra a expansão de um modal que não polui o ar. Uma porcentagem desconhecida deles já sofre de doenças causadas pela poluição atmosférica, como asma, rinite, bronquite crônica, enfisema pulmonar e câncer de pulmão. E vivem elogiando cidades norte-americanas e europeias por serem exemplos de mobilidade e ar pouco poluído. Mas curiosamente estão sendo contra São Paulo tornar-se ela mesma também um exemplo de mobilidade e combate à poluição a ser seguido pelo mundo. E, ao se oporem à expansão das vias para bicicletas, estão contribuindo para que os carros continuem poluindo cada vez mais o ar. E colocam em risco suas próprias vidas, já que, mesmo sem querer, estão “lutando” para que o ar continue cada vez mais poluído e os mate dentro de não tanto tempo assim.

Ou seja, o reacionarismo pró-carros e anticicloviário diz defender o bem comum, mas tudo o que faz é um tremendo mal comum, que pode atentar contra a vida dos próprios adeptos dessa posição política e de quem eles dizem defender – como os idosos que apanham na porta de casa.

E com isso estamos todos submetidos ao debate: vale a pena insistir na preservação de certas liberdades individuais de alguns enquanto elas implicam a negação de tantas outras liberdades individuais e coletivas, que se tratam de direitos fundamentais, para um número muito maior de pessoas? Esse debate, aliás, é válido para qualquer cidade e ruralidade do mundo, e para diversos outros temas que envolvem o conflito entre os privilégios de quem tem muitas riquezas e bens e os direitos não assegurados de quem não os tem.

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Tarantino

agosto 5 2015 Responder

Concordo que as ciclovias são necessárias, mas como todos somos cidadãos e pagamos impostos, logicamente temos o direito de nos locomover da maneira que bem entendermos. Os carros poluem? Sim, apesar de muitíssimo menos do que há 10 anos atrás por causa do controle de emissões cada vez mais rigoroso. Os veículos motorizados pagam muitos impostos e taxas a mais justamente para esse dinheiro ser usado em obras de compensação ambiental; se tais obras não são realizadas, o problema é político e não técnico, pois dinheiro suficiente há, e muito.
O grande problema que faz com que grande parte da população, e não só os motoristas, fique revoltada é a atitude egoísta, arrogante e desprovida de inteligência de muitos que se intitulam “cicloativistas”; obviamente não são todos, mas essa minoria faz muito barulho e denigre a imagem dos ciclistas ponderados e conscientes. Tais ativistas não querem somente direitos, mas sim, querem privilégios, como se o fato de utilizarem um veículo supostamente não poluidor o colocassem acima do bem e do mal e justificasse todos os desvarios e abusos cometidos tanto quanto contra pedestres, quanto à outros ciclistas. Digo “supostamente não poluidor” pois se quisermos levar a causa ecológica até as últimas consequências, podemos constatar que o próprio processo de produção das bicicletas é totalmente anti ecológico; a extração do aço e alumínio usado em sua fabricação causa desastres devido à mineração intensiva, a produção da borracha dos pneus degrada o meio ambiente, as tintas usadas também são poluentes. Geladeiras, com o gás usado na refrigeração também são inimigas da natureza, o cimento usado nas construções, a areia extraída dos rios, as roupas que utilizam fibras sintéticas, o detergente que usamos na cozinha, o óleo da fritura, os alimentos são transportados em caminhões, enfim, se quisermos levar uma vida 100% “ecológica”, devemos regredir ao tempo das cavernas e somente nos alimentarmos de frutas que estejam já caídas no chão, e andarmos nus e tomarmos banho somente com água, não deveria haver a escrita, que necessita de papel e tinta.
O fato de tais “cicloativistas” pertencerem a uma minoria (supostamente, de acordo com eles mesmos) desprivilegiada, e por esse motivo fazem manifestações, não os torna imunes à imbecilidade humana. Tais manifestações e passeatas são caricaturais, e passam a impressão de que os ativistas passam a vida pedalando e berrando por direitos e privilégios que querem outorgar a si mesmos, esquecendo-se completamente que, quer queiram ou não, a bicicleta não é e nunca será a solução do transporte em SP. O transporte público, usado pela esmagadora maioria da população, é que deve ser colocado como prioridade, e não as ciclovias, que somente são usadas por uma pequena parcela da população que geralmente mora na Vila Madalena e trabalha no Itaim, se é que me entende…
Ciclovias? Sim, porém transporte público em primeiro lugar.

Hélio

setembro 17 2014 Responder

Fora da realidade e profundamente reacionário este artigo. Os carros em São Paulo são uma necessidade dado a precariedade do transporte público. Em qualquer lugar do mundo, o transporte público melhorou é as pessoas foram deixando de usar carros. Quanto as bicicletas não firam, não são e nunca serão um meio de transporte público de massa na cidade de São Paulo. A geografia cheia de ladeiras, as longas dustâncias e o clima quente, são fatores que impendem até entusiastas de usarem esses veículos. Quantas pessoas estão dispostas a chegarem fendidas nos locais de trabalho? Raríssimas, tanto que as ciclovias do Haddad ficam vazias porque foram feitas para uma minoria inexpressiva e profundamente autoritária. Enquanto isso motoristas enfrentam um transito infernal por causa da faixa vazia , comerciantes possuem seus negócios prejudicados e moradores seus imóveis desvalorizados. Mas pessoas como você com saúde, preparo físico e disposição de andar de bicicleta esta se lascando para a maioria das pessoas. Ciclista raramente respeita a sinalização e acham que podem fazer o que querem, inclusive com os pedestres. No entanto, não são habilitados, não possuem suas bicicletas emplacadas e não pagam taxas. Por que um motorista é multado quando invade essas faixas vazias e vocês não podem ser multados nem quando fazem atrocidades no transito. Respondo, porque temos um prefeito doente mental, incompetente e injusto. E não venham com comparações cretinas com cidades da Europa e dos EUA que possuem um transporte público exemplar. Vocês não são os bonzinhos, nem democráticos e muito menos preocupados com a coletividade. São na verdade reacinários, autoritários, egoístas e privilegiados. Não é a toa que esse país esta desse jeito.

Washington Assis

setembro 4 2014 Responder

O problema é que todo esse privilégio ao carro causa um enorme prejuízo para a cidade não apenas do ponto de vista da mobilidade e da saúde pública. Destinar o espaço público prioritariamente para os carros acaba impossibilitando que o direito à cidade seja estendido a quem não está num veículo motorizado. São Paulo está cheia de paisagens que ninguém mais vê. São pessoas que se transportam encapsuladas em seus automóveis e que não estabelecem nenhum diálogo com as vias que transitam.
O carro não possibilita a convivência no espaço público. Parece que cada motorista é rival do outro nas vias da cidade.
A bicicleta não irá resolver o problema da mobilidade, mas ela possibilitará uma humanização nas relações no trânsito.
Gostei bastante do artigo.

Leandro

agosto 12 2014 Responder

Em outra situação eu discordaria de cada palavra desse texto, mas fui em São Paulo recentemente e realmente andar por lá é uma bosta, eu adoro carros, mas se morasse naquela porcaria de cidade já teria vendido o meu e andaria só de ônibus.

Juliana

agosto 11 2014 Responder

Oi Robson, (já peço desculpas pois esse comentário não tem nada a ver com o excelente post)
Eu tenho um professor extremamente misógino, machista, homofóbico e tudo que há de cheio de ódio, ignorância e preconceito. E o pior é que ele faz questão de mostrar isso a sala toda, principalmente a misoginia. Todas aulas ele escreve uma piada desse tipo na lousa (comparando mulheres a objetos sexuais, nos inferiorizando e etc.) e diz coisas do tipo “Mulheres são inferiores aos homens, está escrito na Bíblia, afinal todos homens são padres, até o papa é um homem.” (Ele literalmente disse isso, usou um livro religioso pra justificar o machismo, e o sujeito é advogado.) “Um homem pode não saber uma pergunta, mas a meninas nunca conseguem responder nenhuma” e nas provas dele ele sempre coloca uma questão chamada “Questão Feminina”, uma pergunta muito idiota mesmo que ele diz valer 1 ponto “para ajudar as meninas”. Eu estou muito cansada disso, mas fora uma ou duas amigas minhas, a sala inteira acha graça. Desculpe o desabafo, mas não há ninguém que entenda minha frustração com isso, todos me acham boba, dizem “É só uma piada”, esse típico discurso…. Enfim, eu queria perguntar se existe uma lei que criminaliza esse tipo de descriminação feita pelo professor nas salas de aula, pois pretendo me manifestar para a diretora e quero que me levem a sério… Eu estou procurando por alguma lei mas por enquanto não achei nada. Obrigada pela atenção

    Robson Fernando de Souza

    agosto 12 2014 Responder

    Oi, Juliana. Leis criminalizando a misoginia e o machismo infelizmente ainda não existem no Brasil =/ Pelo visto vc vai precisar entrar com queixa na diretoria com outras alunas, pra esse cara receber pelo menos uma advertência. Abs

    Fernanda

    agosto 12 2014 Responder

    Que horror, Juliana!
    Uma coisa que você pode fazer caso ache que a diretora não vai ser receptiva à reclamação sobre o machismo, é argumentar indo pro lado do bullying, de como o desempenho e motivação das outras alunas e teu pode ser afetado, trazendo dados de como essa pressão negativa é prejudicial e etc. Tomara que a administração tome alguma atitude!

Tatiana Saito

agosto 10 2014 Responder

Análise perfeita!!! Adoro seus textos, sempre muito concisos e fundamentados.

    Robson Fernando de Souza

    agosto 10 2014 Responder

    Obrigado, Tatiana ^^

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