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set14

Como aqueles que tanto dizem clamar por ordem estão na verdade fomentando desordem e caos
Conservadores radicais falam muito de ordem pública, mas estão entre os que mais favorecem a piora das situações de desordem

Conservadores radicais falam muito de ordem pública, mas estão entre os que mais favorecem a piora das situações de desordem

Uma das mais frequentes reivindicações alegadas pelos conservadores mais raivosos no Brasil é a manutenção ou retomada da ordem, seja no sentido de paz pública ou no de equilíbrio social. Mas quando lemos as opiniões deles sobre como o Estado deveria lidar com os Direitos Humanos, as minorias políticas, os movimentos sociais de esquerda, a questão da violência urbana, as relações entre a ordem econômica e a exclusão social, as políticas de justiça social e outras questões, temos a certeza de que a “ordem” reivindicada por eles é apenas uma palavra bonita sem conceito. O resultado da soma do que defendem é o caos, a perpetuação de uma situação de desordem pública, a “garantia” de que a sociedade nunca conseguirá entrar num estado de equilíbrio social enquanto prevalecerem os interesses que defendem.

As opiniões políticas dos tão falados “reaças” são todas tendentes ao que a Física chama de entropia, ou seja, a desordenação gradual de um sistema, que transita de uma (suposta) ordem original para um estado de caos disforme. Não que haja hoje ou houvesse no passado uma ordem estável, uma situação elogiável de equilíbrio e estabilidade social, no Brasil e no restante do mundo. Mas se depender dessas pessoas, o desequilíbrio fomentado pelas desigualdades sociais e pelas opressões sociopolíticas nunca será aliviado, mas sim piorará cada vez mais, até o ponto em que a sociedade entre em colapso.

Isso se vê com as opiniões que eles emitem, ricas em ódio, preconceito, passionalidade, anseio desesperado por soluções mágicas e apressadas para os problemas sociais, falta de profundidade, descontextualização. E é mais nítido em duas questões: a opressão contra minorias políticas e a violência urbana.

Frequentemente conservadores fanáticos declaram seu racismo, heterossexismo, machismo/misoginia, transfobia, elitismo, ódio regional, xenofobia contra imigrantes de países pobres etc. Seu desejo é que as categorias dominadas tenham seus parcos direitos revogados e sejam violentamente forçadas a se comportar como as dominantes, sob pena de marginalização e morte violenta.

Tentam idealizar uma ordem opressora, imaginando que toda uma diversidade de formas será forçadamente uniformizada sem resistência e sem nenhuma violação ética por parte dos exercedores da força. Não cogitam que muito provavelmente, num contexto em que um progresso social de direitos foi interrompido, retrocedido e sobrepujado pela tradição discriminatória anterior, tal opressão não irá durar muito tempo antes que impulsione fortes e violentas rebeliões contra a violência impingida pelos dominantes. Nem que, caso tais insurreições sejam tentativamente sufocadas ao invés de terem suas reivindicações atendidas, a violência se tornará cada vez mais forte e alastrada e levará a ordem vigente ao colapso, com a eventual queda dos reacionários que haviam promovido a reversão violenta do progresso social.

Outra amostra de que as declarações vindas dessa categoria reacionária necessariamente anulam a “defesa da ordem” por ela clamada é a violência urbana. Quando se deparam com crimes brutais divulgados pela mídia, vociferam reivindicando medidas imediatistas e punitivistas. Clamam por vingança em detrimento da justiça, ao “melhor” estilo Lei de Talião. Argumentam que indivíduos que trataram “cidadãos de bem” como lixo também devem ser tratados como lixo pelo Estado. Manifestam a pia crença de que é possível minimizar a criminalidade à impotência pela imposição do medo dos governados perante a lei e o terror policial, de modo que os chamados “vagabundos” temeriam muito cometer crimes e não teriam nenhuma alternativa fora comportar-se como “pessoas de bem”.

Todas as causas socioculturais e psicossociais que fazem crianças, adolescentes e adultos converterem-se em criminosos civis são ignoradas ou tentativamente anuladas pelos conservadores radicais. Afirma-se que não é um passado traumático, uma criação familiar omissa e/ou violenta, a constante privação de direitos e cidadania, ou qualquer outro motivo de abrangência coletiva que transformam pessoas “de bem” em bandidos. Mas sim uma espécie de má índole genética, uma natureza individual violenta e imoral que viria de nascença e teria origens misteriosas, talvez biológicas.

Com isso, a cada assalto, latrocínio, estupro, homicídio, tortura de animais, estelionato etc. que passa na TV ou é descrito no jornal ou na internet, multiplicam-se as demandas por pena de morte, prisão perpétua, radicalização da violência policial, redução da maioridade penal etc. Clama-se seletivamente que “bandido bom é bandido morto”. Declara-se o desejo pelo linchamento de quem comete tais crimes caso a polícia não aja nesses casos.

Diversas medidas já têm sido postas em práticas, ainda que de forma ilegal e não oficial. Já existe pena de morte extralegal em muitos casos, como nos de criminosos linchados até a morte, torturados e assassinados por policiais na viatura ou na delegacia, mortos por companheiros de cela nas prisões ou abatidos em operações de repressão ao narcotráfico.

Da mesma maneira, penas igualmente ilegais de vingança não letal têm sido aplicadas. Como exemplos, há o estupro contra estupradores por parte de colegas de cela, a tortura de detentos nas viaturas e delegacias por soldados da PM e as “justiçagens” nas quais o acusado é espancado e largado ferido na rua por civis.

Apesar de tudo isso, nenhum resultado positivo tem sido conquistado mediante tais “contraviolências”. Pelo contrário, os crimes mais chocantes cometidos por civis continuam acontecendo ou mesmo tornando-se cada vez mais frequentes. A multiplicação dos linchamentos e “justiçagens” não tem rendido mais segurança nas cidades. Os estupros de vingança nas cadeias e as torturas nas delegacias e viaturas não têm diminuído o número de estupradores, assaltantes e homicidas circulantes nas ruas e as estatísticas de crimes impunes.

Enquanto isso, a cultura de violência; as situações disseminadas de privação de direitos; o ódio contra mulheres, negros, homossexuais e pessoas trans; a exclusão social e outros fatores apontados como fomentadores dos crimes mais repudiados permanecem fortes. E os reacionários posicionam-se contrários a qualquer medida que diminua ou elimine essas raízes.

Resumindo a problemática da criminalidade, a providência de combater violência com violência reivindicada pelos conservadores radicais só tem gerado ainda mais criminalidade, insegurança, risco de vida para todo mundo. Ao invés de se aproximar de um estado de ordem pública não violenta, a sociedade tem tendido ainda mais para uma situação de caos criminal, algo tido como cada vez mais intolerável. E com o agravante de que cada vez mais policiais têm engrossado o número de criminosos em circulação e aumentado o número e a diversidade de crimes contra inocentes – que o digam os rapazes negros moradores de comunidades pobres.

As duas questões abordadas revelam como os mesmos reacionários que tanto dizem “clamar pela ordem” ajudam a sociedade a tender a um estado cada vez mais alarmante de desordem, caos, insegurança e ausência de paz. Portanto sejamos muito céticos para com quem vive falando de “ordem pública” e “preservação da ordem” na internet, no trabalho, na escola ou faculdade e nas conversas entre amigos. Porque é muito provável que estejamos lidando com pessoas que estão contribuindo para que a tal da ordem seja algo cada vez mais utópico e inalcançável no status quo em vigência.

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5 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Marian

maio 29 2015 Responder

Você escreveu tudo isso para convencer de que a impunidade dá melhores resultados do que a punição?

Primeiro esqueceu-se de atentar para o fato de que as pessoas percebem que impunidade não é uma novidade, é algo que já se conhece há muito. A sociedade convive com ela há tanto tempo quanto convive com a exacerbada violência, o que evidencia a relação direta entre impunidade e criminalidade.

Segundo, utilizar-se de falácia do espantalho para distorcer o desejo da maioria que além de desejar o fim da impunidade também deseja ver crianças e adolescentes sendo educados e assistidos em suas necessidades de formação, é tão desonesto e hipócrita quanto levantar a voz para defender crianças e adolescentes somente depois que estas viram assassinos ou bandidos.

Se os defensores do direito à impunidade, empenhassem metade do esforço que empenham nesta campanha, se escrevessem textos com a metade de frases contidas neste, em prol de educar e evitar que crianças e adolescentes se tornem assassinos, este debate sobre punição de adolescentes nem existiria, estariam todas as crianças ou a maioria na escola e não matando ou assaltando nas ruas.

O descaso, por parte da CDH e demais defensores da impunidade, com crianças e adolescentes antes deles se tornarem criminosos, deixa bem claro que o interesse não é protege-los, é usar o debate violência/criminalidade/impunidade como fator político, reforço ou desmoralização de posturas. isto é lamentável e desumano quando o que está em questão é a vida de crianças sendo perdidas para a criminalidade e a vida de pessoas que eles matam, também sendo perdida para a criminalidade.

Este debate não tinha que existir, o que deveria existir eram esforços conjuntos pela redução da criminalidade. Cobrar e promover a educação das crianças de forma eficaz deveria ser pauta principal da CDH. Não é, e nós sabemos por que.

Obrigada por permitir-me manifestar minha opinião.

    Robson Fernando de Souza

    maio 29 2015 Responder

    “Você escreveu tudo isso para convencer de que a impunidade dá melhores resultados do que a punição?” – E vc escreveu esse comentário pra usar a falácia do espantalho de que somos “defensores da impunidade”?

Alexsandro

fevereiro 16 2015 Responder

Bastaria trocarmos os dizeres da foto pelos termos “Coxinhas”, “reaças”, “facistas”, “mídia maldita”, “ianques malvados” e etc e teríamos um típico esquerdista. Fato : Após 12 anos de governo proletário, educação, saúde, segurança pública e etc chegaram à um nível de mediocridade tal que agora os esquerdistas que após 12 anos de poder só pioraram a situação querem terceirizar a responsabilidade!!! Nada surpreendente quando se trata de uma trupe incapaz de sair do pensamento binário: Nós os sacrossantos x eles os malvadinhos que querem comer meu figadozinho!!!

Ronaldo

setembro 29 2014 Responder

O difícil é distinguir qual é o candidato é o mais bom ou qual é mais mau! Existem os mascarados, os contraditorios, os populistas e tudo isto ao mesmo tempo. Existem aqueles que não honram o nome do seu partido e aqueles que ficam só na conversa. Coitado do eleitor que terá que dar peso a cada aspecto de sua lista de prioridades e avaliar cada candidato! Para, depois disto, colocar seu solitário voto no mar de milhares de outros. Isto é participação política do cidadão? Isto me parece ilusório. Pelo menos faço a minha parte. Sozinhos somos apenas mais um na multidão!

Nelson Ferreira da Costa

setembro 4 2014 Responder

Nós, continuamos sempre os mesmos… a história da humanidade muda.. e nós… o que fazemos… nada… a não ser, aumentar as críticas… sendo assim, o sistema continua cada vez mais tolo, e nós juntos com ele.. mas esta mesma história, vê, que causas acontecem para mostrar que estamos no caminho errado, ela não elimina todos… mas uma boa parte…sendo assim, esta chegando a hora de mais uma vez, se repetir, porque não conseguimos, fazer o simples, viver a vida na simplicidade e no Amor ao próximo… para isso, vamos sacudir de novo.. estamos aqui, de novo, mas que seja a última nos próximos 1000 anos. porque vamos continuar de olho… para isso, estamos em 2014.0002 e algo novo já começou, e vai doer muito, porque todos nós gostamos de sentir dor…. sendo assim… EU VOTEI……

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